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A teologia enche livros mas é como se não tivesse voz

Não sei dizer que futuro terá a teologia que praticamos. E para ser sincero, pergunto-me até se terá realmente um futuro. Entendamo-nos, a sua prática atual não carece de justificação e merece todo o empenho. Mas, para além da retórica de gabinete, não podemos deixar de nos perguntar durante quanto tempo poderemos ainda suportar a enorme distância entre as energias gastas e os efeitos desejados.

Na comunidade cristã, como também, respetivamente, na sociedade civil, a teologia não tem praticamente peso. Em ambas, com as devidas diferenças, a declaração de não querer ter nada a ver com a teologia dos teólogos, ainda que acompanhada por um traço puramente exterior de humildade e de respeito, soa como um crisma de credibilidade, e respetivamente de autenticidade, do testemunho da fé. A fé não é uma ideologia, não é uma teoria, não é uma moral, não é uma política, repetem todos. Neste sentido, os mais corajosos acrescentam: não é tão-pouco uma teologia. Acontece, não raramente, que os próprios teólogos de profissão adotam esta retórica, precisamente para assinalar a sua intenção de propor um pensamento da fé que não quer ser abarcado dentro dos esquemas da teologia académica, passada ou presente.

Naturalmente, tudo isto tem uma verdade essencial: a fé não é uma teoria. O lado paradoxal da obstinação destas exclusões, no entanto, está debaixo dos nossos olhos: a fé não é uma ideologia, mas temos um autorizado “Catecismo da doutrina católica”, que expõe ordenadamente e sistematicamente, em centenas de páginas, as linhas-mestras da ortodoxia da fé. A fé não é uma moral, é verdade, mas a grande maioria dos conflitos de interpretação sobre os quais se decide a coerência da fé são questões morais. A fé não é uma política, naturalmente: permanece o facto de o perfil da presença cristã que acredita – e provoca – universalmente a vitalidade da fé na esfera pública não está nas celebrações da sagrada liturgia, mas nas práticas da caridade social.



Existe uma teologia à altura do fundamento antinómico do pensamento crente, comprometido a habitar com idêntico espírito e verdade o culto e a cultura: sem os separar, sem os dissolver um na outra?



A desativação da fé dos equívocos destes paradoxos – chamemos-lhe assim – seria uma tarefa da teologia. De onde aparece o paradoxo de todos os paradoxos. A fé não é uma teoria, mas a teologia é-o. Se o palco da teologia não estivesse hoje tumultuosamente obscurecido – e até ocupado – por blogues de diletantes ao desbarato e pelas propagandas de adeptos de fação, poder-se-ia talvez reabrir o espaço de uma pergunta importante, hoje substituída por respostas que a ignoram.

 

Fé e pensamento: antinomia e paradoxo

A fé não é uma teoria: a sua revelação não tem esta forma, o Evangelho não tem esta origem. Porém, a fé em Jesus Cristo abriu, precisamente na história do “logos” humano, a via de um pensamento que, quando perde a razão, perde também a fé. Existe na teologia atual o espaço fundador desta pergunta radical, que busca o fundamento do cristianismo histórico na antinomia desta fé pensante? O Evangelho de Jesus anuncia o advento do reino de Deus na vida do mundo, insiste na necessidade de desejar livremente este advento antes de qualquer outra coisa, institui o seu discipulado como testemunho da possibilidade real de experimentar a sua realidade. O “nomos” da religião (a lei, o culto, a comunidade), assim como todo o “logos” da vida (o pai, a mãe, a sociedade, o trabalho e os bens) são lugares numa “epoché” – um estado de suspensão, um “como se” – que impõe verificar sempre de novo a sua capacidade de hospedar este fundamento não religioso e não ideal do sentido da história e da realidade do mundo, que oculta e revela o segredo da intimidade de Deus.



A teologia trabalha sobre a crista mundana da razão? Ou limita-se a indicar a instituição eclesial e a tradição teológica como referente de uma língua autorreferencial que gostaria de ser universal?



O acontecimento fundador desta revelação transporta-a com a língua das parábolas, que o tornam enigmaticamente decifrável somente nas dobras da vida quotidiana da condição humana que é comum. Estas parábolas resistem à construção de um sistema religioso que as substitua. (…)

Existe uma teologia à altura do fundamento antinómico do pensamento crente, comprometido a habitar com idêntico espírito e verdade o culto e a cultura: sem os separar, sem os dissolver um na outra? Existe uma teologia da criação à altura da revelação do corpo do Senhor e da sua redenção em ação pelo Espírito? Como se produz – e como se legitima – a extraordinária afinidade do “logos” da fé e do “logos” do pensamento, que se desenvolve sem soluções de continuidade nos lugares baixos e nos lugares altos do pensamento da “polis”, onde quer que se formem “os paradigmas do pensamento” que oriente e discerne os afetos capazes de proximidade entre os seres humanos, e onde quer que se desenvolva a humana “consciência do sentido” das origens e do destino do ágape de Deus pelo ser humano?

 

Depressão, conversão, retoma

O laço cristológico e eclesial do culto e da cultura, como espinha dorsal da transcendência do espírito destinado a habitar e a resgatar o corpo, é um inédito: religioso é humano. O abatimento deste bastião, a construção desta ponte, é um risco absoluto. É impossível pensar que se está à altura deste impossível de Deus. Todavia, sem este impossível testemunho, a fé não é encontrada e perde-se a razão.



Uma fé que pensa possuir em si a verdade de todos, de uma maneira que não é acessível a nenhum outro (…) [corre o risco de cultivar] exclusivamente a linguagem que a confirma na sua identidade



A nossa teologia tem uma epistemologia que ilumina este antinómico fundamento da fé? Trabalha sobre esta crista mundana da razão? Ou limita-se a indicar a instituição eclesial e a tradição teológica como referente de uma língua autorreferencial que gostaria também de ser universal? (…) Existe demasiada teologia sem verdadeiro destinatário, na Igreja. E demasiados destinatários sem verdadeira teologia, no pensamento na nova cidade secular da idade secular. A teologia eclesiástica ocupa-se excessivamente de si própria e entretém-se com a infinita narração do seu pensamento, da sua história, da maneira como se formou, dos seus bens e dos seus ornamentos. A sua própria realidade, agora, mostra que não está à altura de tal riqueza – verdadeira ou presumida; e a sua narrativa, por muito que seja revisitada com mil expedientes retóricos de rejuvenescimento, não produz qualquer efeito.

A teologia move os lábios, enche as páginas, mas é como se não tivesse voz. Indica a Igreja como referente do mistério, mas ela própria diz que deveria ser diferente de como se mostra, para corresponder de maneira imediata, transparente, eloquente, aos crentes. Aqui, exatamente, gostaria de inserir o primeiro gatilho dialético da minha provocação. A autorreferencialidade da Igreja, que a adotou como referente de experiência e de concretude do realismo da fé, foi agravada – de certa maneira involuntariamente – até a um ponto de crise precisamente pelo renovamento epistemológico que lhe devia libertar a transparência intelectual e a experiência concreta. (…)

Uma fé que pensa possuir em si a verdade de todos, de uma maneira que não é acessível a nenhum outro (…) [corre o risco de cultivar] exclusivamente a linguagem que a confirma na sua identidade. E acabará por falar apenas a si própria: é o que está a acontecer agora.


 

Pierangelo Sequeri
In L'Osservatore Romano
Trad./Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 07.05.2021

 

 
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