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A Quaresma e a plenitude do vazio

Roma, Praça de São Pedro. É noite. Fantasmas atravessam velozmente os espaços vazios da alma, entre silêncios e indagações. Recordo a observação do meu amigo japonês, padre Isao Sakabayashi, quando, na Basílica de São Pedro, estacou o passo e disse, como que em deambulação reflexiva: «Isto parece um cristianismo diferente daquele que temos no Japão». Sim, a Igreja minúscula do Japão é uma célula periférica. Mas talvez seja este lugar também uma verdadeira periferia. Plenitude cheia de vazios, que me faz refletir, em contraste complementar, que o deserto é um vazio repleto de plenitude e de vida. Talvez esteja aqui uma daquelas disparidades que nos desassossegam porque não entendemos embora intuamos: a forma como o vazio pode ser plenitude. Não será por acaso que o começo da Quaresma precisa do deserto.



Imagem © Adelino Ascenso

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Roma é a meta de muitos, amiúde apenas uma etapa num processo que ainda não se avizinhara nem se adivinhara. Um foco que alumia e aviva outros horizontes. Cerro os olhos e, de repente, estou na margem do Ganges, meta final daqueles que se arrastam para que as suas cinzas sejam levadas pelas águas do grande rio que lava as almas mais lúgubres. Sim, a vida naquilo que é o lugar da morte. Sabemos que é na noite negra que a centelha enche a alma de alento, como quando o túnel é a morada e os olhos escancarados nada veem; quando, no auge da insegurança, uma ténue luzência cintila: a lua, aquela maravilha de metáfora divina da dádiva abnegada, recebendo a luz sem a aferrolhar; libertando-a. Oh, sim, a lua conhece o valor infinito das coisas pequenas.



Imagem © Adelino Ascenso

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A pequenez, a periferia e o resquício de lepra que todos nós carregamos connosco. Ainda estou na margem do rio Ganges, em Varanasi, cidade sagrada do hinduísmo. Não abro os olhos, pois quero reviver aquela noite, já tarde, sentado fora do hotel, observando a lua refletida na água e vislumbrando a silhueta da margem direita do rio Ganges, desabitada, lugar dos infernos, segundo alguns ditos populares. Aquela noite em que escutava ao longe, os gritos lancinantes de violino e sitar, certamente algum CD de Yehudi Menuhin e Ravi Shankar. Um lamento pungente que pairava sobre aquele lugar sagrado, onde tanta gente acorre para morrer e deixar que as suas cinzas sejam lançadas às águas sagradas do rio imenso que limpa as nódoas do pecado e encaminha para a eternidade.


Imagem © Adelino Ascenso

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Vou, de novo, àquele lugar tenebroso. Uma tenda de chá no cruzamento de duas ruas estreitas que conduzem a um ghat, onde os mortos são cremados. Na esquina das duas ruas, duas tábuas assentes em tijolos, servindo de bancos compridos. O chá, servido num púcaro de barro, que, depois de usado, é atirado para a montanha de cacos no chão, a um canto, pelo que não há duas pessoas a beber pelo mesmo púcaro. De vez em quando, passa uma procissão apressada: quatro homens carregam, num catre, mais um morto para o ghat. Sorve-se o chá enquanto o odor a carne queimada penetra ousadamente pelas narinas. Um místico entrelaçar de vida e morte. Os intocáveis «sem-casta», homens vestidos de um branco sujo, que trabalham no ghat vêm, sentam-se, tomam chá, admiram-se com a presença de um estrangeiro e estabelecem diálogo, acabando por aceitar o estranho como um deles, e despedem-se dele com um aperto de mão. Por que razão, sempre que vou a Varanasi, tenho de ir àquele lugar sinistro tomar chá à noite? Talvez porque ali – precisamente ali – encontro-me com aqueles que são considerados impuros; talvez porque há um recanto especial no meu coração que vibra, que se comove e que fica sempre com sede de mais. Talvez um apelo ao valor do desprezado, disforme, sofredor e triturado. Não um mundo de beleza preparada, maquilhada, postiça, mas a beleza do genuíno da pessoa humana, que é simultaneamente violenta e terna; a beleza interior, a beleza do feio; a beleza do sem-casta e do leproso; a beleza daquela imagem arrepiante do leproso de Calcutá que pede esmola estendendo a mão já sem dedos. Vou ali porque me sinto tocado no recôndito da minha alma e da minha exclusão, do meu resquício de lepra e da minha fome de autenticidade e transparência.


Imagem © Adelino Ascenso

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Abro os olhos. E entendo que é com tais farrapos de memória que a Praça de São Pedro se torna para mim o deserto que se enche e me enche de fios entrelaçados de dúvidas e de encontros, de fomes e de lampejos lúcidos de eternidade. Aqui, neste lugar do abraço de Bernini, vagueio pelo deserto da minha indagação e observo a minha sombra. Escuto as palavras do meu amigo e pressagio o frémito pungente de um propósito a saltar-me dos lábios mudos: nesta Quaresma, quero escutar o silêncio e sondar a plenitude de que está repleto o vazio.


Imagem © Adelino Ascenso

 

Adelino Ascenso
Padre, superior-geral da Sociedade Missionária da Boa Nova
Imagens: Adelino Ascenso | D.R.
Publicado em 27.02.2019

 

 
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