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A paz pelo Patriarca de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa

«Desperta, então, ó Deus, um homem num lugar qualquer da terra e permite que, olhando-o, eu possa admirar-Te» (Czesław Miłosz)

Pierbattista Pizzaballa era uma figura relativamente desconhecida até ao ataque do Hamas de 7 de outubro, que conduziu à guerra sangrenta que tem assolado a Terra Santa nos últimos dois anos, e cujo fim esperamos estar agora a assistir.

Evidentemente que, como Custódio da Terra Santa, depois como Patriarca Latino de Jerusalém, e depois como primeiro prelado da Cidade Santa a receber o barrete cardinalício, o Cardeal Pizzaballa gozava já de algum reconhecimento, sobretudo entre aqueles que acompanham mais de perto a vida dos cristãos no Próximo Oriente. Mas tudo mudou com a terrível guerra que assola a Terra Santa. No dia 11 de outubro de 2023 escreveu uma mensagem, a convocar um dia de jejum e oração pela paz:

«A dor e a consternação pelo que está a acontecer são grandes. Mais uma vez, encontramo-nos no meio de uma crise política e militar. Fomos subitamente catapultados para um mar de violência inaudita. O ódio, que infelizmente já experimentamos há demasiado tempo, aumentará ainda mais, e a espiral de violência que se segue criará mais destruição. Tudo parece falar de morte. Mas, neste momento de dor e de consternação, não queremos ficar inermes. E não podemos permitir que a morte e os seus aguilhões (1 Cor 15,55) sejam a única palavra a ser ouvida. Por isso, sentimos a necessidade de rezar, de voltar o nosso coração para Deus Pai. Só assim poderemos obter a força e a serenidade para viver este tempo, dirigindo-nos a Ele, na oração de intercessão, de súplica, e também de clamor.»

O pedido do Patriarca Latino de Jerusalém foi amplificado pelo Papa Francisco, que no Ângelus de 15 de outubro convidou toda a Igreja a aderir a este convite.

Mas o momento que trouxe o cardeal italiano para os jornais do mundo inteiro foi a conferência de imprensa que antecedeu o dia de jejum e oração. À pergunta sobre o que estava disposto a fazer para trazer de volta os reféns israelitas aprisionados pelo Hamas, a resposta foi claríssima: «Estou pronto para uma troca, qualquer coisa, se isso puder levar à liberdade, para trazer as crianças para casa. Não há problema. A minha vontade é total». E depois acrescentou: «A primeira coisa a fazer é tentar obter a libertação dos reféns, caso contrário não haverá forma de travar [uma escalada da violência]. Estamos dispostos a ajudar, mesmo eu pessoalmente».

Num momento de desespero, onde o ódio parecia dominar o discurso público. Um momento onde à violência se respondia com uma ameaça de uma violência ainda maior, uma voz humana fez-se ouvir.

 

«Viver será a finalidade da vida? Estarão os passos dos filhos de Deus amarrados à terra miserável? O fim não é viver, mas sim morrer, não armar a cruz, mas sim subir à cruz e dar o que temos com alegria» (Anunciação a Maria, Paul Claudel)

No dia 17 de julho deste ano a Igreja da Sagrada Família, a única Igreja Católica da Faixa de Gaza, foi bombardeada. Desde o princípio da guerra que a pequena paróquia acolhia centenas de pessoas, especialmente mulheres, crianças, idosos e doentes. O pároco, Gabriel Romanelli, a quem o Papa Francisco todos os dias telefonava, foi um dos feridos.

Este ataque levou o Cardeal Pizzaballa à sua segunda viagem a Gaza, desde o começo da guerra. Acompanhado pelo Patriarca Ortodoxo Grego, Teófilo III, o prelado italiano esteve três dias na Igreja da Sagrada Família. As imagens dessa estadia são impressionantes: a simplicidade do bispo que substitui o pároco ferido, a alegria do povo, atingido pela guerra, que participa na liturgia, as crianças que ajudam à missa de batina e roquete, no meio do barulho das explosões, o cardeal que passeia no meio das ruas destruídas.

No fim desta viagem, os dois patriarcas publicaram uma mensagem conjunta, onde afirmavam:

«Caros irmãos e irmãs, O Patriarca Teófilo III e eu regressámos de Gaza com o coração destroçado. Mas também encorajados pelo testemunho de muitas pessoas que encontrámos. Entrámos num lugar devastado, mas também repleto de uma maravilhosa humanidade. Caminhámos por entre as cinzas das ruínas, entre edifícios desmoronados e tendas por todo o lado: nos pátios, nas vielas, nas ruas e na praia – tendas que se tornaram a casa daqueles que perderam tudo. Estivemos com famílias que perderam a conta aos dias de exílio por não verem qualquer perspetiva de regresso. As crianças falavam e brincavam sem pestanejar: já estavam habituadas ao ruído dos bombardeamentos.

No entanto, no meio de tudo isto, encontrámos algo mais profundo do que a destruição: a dignidade do espírito humano que se recusa a apagar-se. Encontrámos mães a prepararem comida para os outros, enfermeiras a tratarem feridas com gentileza e pessoas de todas as fés que continuam a rezar ao Deus que vê e nunca se esquece. Cristo não está ausente de Gaza. Está ali, crucificado nos feridos, enterrado sob os escombros e, no entanto, presente em cada ato de misericórdia, em cada vela na escuridão, em cada mão estendida para quem sofre.»

Na escuridão que caiu sobre Gaza, na enxurrada de mal e pecado, o Cardeal Pizzaballa identificou a possibilidade de redenção: a Cruz de Cristo, que resgata a humanidade do pecado. E é partindo da identificação com o Crucificado que o Patriarca de Jerusalém aponta para uma hipótese de esperança.

 

«Mas a esperança não é coisa simples. A esperança não vem por si. Para esperar, ó minha filha, é preciso ser bem feliz, é preciso ter obtido, recebido uma grande graça» (O Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, Charles Péguy)

Nos dois anos de guerra, o Cardeal Pizzaballa fez da esperança um dos temas principais das suas intervenções.

Mas como é possível, no meio de tanto ódio e destruição, falar de esperança? «Na Terra Santa estamos a viver uma longa noite, mas felizmente sabemos que mesmo as noites mais escuras terminam. A esperança é filha da fé, por isso estamos confiantes. Como Igreja, nunca nos cansaremos de trabalhar com aqueles que desejam a paz. Levará certamente ainda tempo, muito tempo, mas a paz chegará» afirmou quando recebeu o prémio Paulo VI - Civilização do Amor, no dia 21 de setembro de 2024.

Num tempo onde o ódio e a violência parecem prevalecer, desde as guerras internacionais até ao debate político, o testemunho do Cardeal Pizzaballa, como ele tão bem expressou na sua mensagem de Domingo de Ramos este ano, educa-nos continuamente a olhar para o ponto do qual nasce a esperança: Cristo.

«Não quero repetir as coisas de sempre. Sabemos que estamos a viver tempos difíceis. Mas não podemos e não queremos ficar-nos apenas por dizer quão duros são estes tempos. Hoje, devemos recordar-nos de outra coisa, daquilo que mais importa. Estamos aqui hoje, cristãos locais e peregrinos, todos juntos, para dizer com força que não temos medo. Somos os filhos da luz e da ressurreição, da vida. Nós esperamos e acreditamos no amor que vence sobre tudo. Estamos prestes a entrar na Semana da Paixão. Viveremos, nos mesmos Lugares onde ocorreram, os momentos da Paixão de Jesus. E unindo-nos a Ele, unir--nos-emos também a todos aqueles que hoje vivem a sua paixão aqui no meio de nós e no mundo. Mas também sabemos que a Paixão de Jesus não é a última palavra de Deus sobre o mundo. O Ressuscitado é a Sua última palavra, e estamos aqui para dizê-la e reafirmá-la mais uma vez. Encontrámo-Lo. E estamos aqui para O proclamar, com força, com confiança e com todo o amor possível, que ninguém jamais poderá extinguir. Ninguém nos separará do amor por Jesus. E queremos testemunhá-lo, em primeiro lugar, com a unidade entre nós, amando-nos e apoiando-nos uns aos outros, perdoando-nos mutuamente. Na Sua passagem, as multidões estenderam os seus mantos aos pés de Jesus e acolheram-No com os poucos ramos de oliveira e palmeiras que conseguiram encontrar. Coloquemos também nós diante do nosso Messias o pouco que temos, as nossas orações, o nosso choro, a nossa sede d'Ele e da Sua palavra de consolação. E aqui, hoje, apesar de tudo, às portas da Sua e nossa cidade, mais uma vez declaramos que O queremos acolher verdadeiramente como nosso Rei e Messias, e segui-Lo no Seu caminho para o Seu trono, a cruz, que não é símbolo de morte, mas de amor. (…) Porque Jerusalém é o lugar da morte e ressurreição de Cristo, o lugar da reconciliação, de um amor que salva e que supera as fronteiras de dor e de morte. E esta é a nossa vocação hoje: construir, unir, derrubar barreiras, esperar contra toda a esperança (cf. Rm 4,18). Esta é e continua a ser a nossa força e esta será sempre o nosso testemunho, apesar dos nossos tantos limites. Não desanimemos, portanto. Não percamos o ânimo. Não percamos a esperança. E não tenhamos medo, mas levantemos o olhar com confiança e renovemos mais uma vez o nosso compromisso sincero e concreto de paz e de unidade, com firme confiança (cf. Hb 3,14) no poder do amor de Cristo!»


 

José Maria Seabra Duque
Este texto foi publicado no "Observatório da Cultura" n. 27 (novembro 2025)
Imagem: Julian Rösner/Unsplash
Publicado em 21.11.2025

 

 
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