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A oração incontida de quem «não acredita»

Quem reza sabe que Deus escuta. Ou devia sabê-lo. Mas pode acontecer que quem não acredita em Deus também reze. Mas se não acredita, a quem reza? Pode parecer um paradoxo, mas é mesmo assim.

De resto, foi o que o papa recordou recentemente: «Até se pode não a acreditar em Deus, mas é difícil não acreditar na oração: ela simplesmente existe». O que quer Francisco dizer? Não é uma contradição?

O papa falava da denominada «oração de petição», com a qual nos dirigimos a Deus para lhe pedir alguma coisa, porque «todos vivemos, num ou noutro momento da nossa existência, o tempo da melancolia ou da solidão», e «nas situações aparentemente sem esperança, só há uma saída: o grito, a oração: “Senhor, ajuda-me!”».

E «Deus responde sempre: hoje, amanhã, mas Ele responde sempre, de um modo ou de outro». Ele responde sempre, somos nós que por vezes – ou muitas vezes – nos esquecemos dele. Por distração, por soberba, porque empenhados em coisas que nos parecem mais importantes, tomados por nós mesmos, acabamos por nos afastar dele.

Vivendo assim, dia após dia, chega-se ao ponto de deixar de acreditar que Deus existe. Até àquela hora em que a oração explode dentro de nós, jorra sem quase nos darmos conta, impelida pela nossa angústia, tornando-se invocação: «Deus, ajuda-me!».

Esta petição a Deus, «anda de mãos dadas com a aceitação do nosso limite e da nossa criaturalidade». E então a oração «apresenta-se-nos como um grito; e todos temos de lidar com esta voz interior que pode permanecer em silêncio durante muito tempo, mas um dia acorda e grita».



A concluir, um apelo, desta vez não dirigido a Deus, mas a cada um de nós: «Não sufoquemos a súplica que surge espontaneamente em nós». Porque também quem não acredita em Deus acredita na oração



«Não há nenhum orante no Livro dos Salmos que eleve a sua lamentação e não seja ouvido. Deus responde sempre: hoje, amanhã, mas Ele responde sempre, de um modo ou de outro. Ele responde sempre. A Bíblia repete-o inúmeras vezes: Deus ouve o grito de quem o invoca. Até os nossos pedidos hesitantes, que permanecem no fundo do coração, que também temos vergonha de expressar, o Pai ouve-os e quer conceder-nos o Espírito Santo, que anima cada oração e transforma tudo».

Assim, «se alguém se sente mal por ter feito coisas ruins - é um pecador - quando recita o Pai-Nosso, já está a aproximar-se do Senhor. Por vezes podemos acreditar que não precisamos de nada, que nos bastamos nós próprios e que vivemos em completa autossuficiência. Mas mais cedo ou mais tarde esta ilusão desaparece. O ser humano é uma invocação, que por vezes se torna um grito, muitas vezes reprimido».

«A Bíblia não hesita em mostrar a condição humana marcada pela doença, injustiça, traição de amigos, ou ameaça de inimigos. Por vezes parece que tudo se desmorona, que a vida vivida até agora tem sido em vão.» É aqui que a oração irrompe.

E «não nos devemos escandalizar quando sentimos necessidade de rezar, não nos envergonhemos. (…) Muitos têm este sentimento: temos vergonha de pedir; temos vergonha de pedir ajuda, de pedir a alguém que nos ajude a alcançar um objetivo, e também temos vergonha de pedir a Deus. Não devemos sentir vergonha de rezar e dizer: “Senhor, preciso disto”, “Senhor, enfrento esta dificuldade”, “ajuda-me!”. É o grito do coração a Deus que é Pai».

«Devemos aprender a fazer isto também em tempos felizes; dar graças a Deus por tudo o que nos é concedido, e não considerar nada garantido ou devido: tudo é graça.»

A concluir, um apelo, desta vez não dirigido a Deus, mas a cada um de nós: «Não sufoquemos a súplica que surge espontaneamente em nós». Porque também quem não acredita em Deus acredita na oração. É o paradoxo da oração cristã.


 

Salvatore Mazza
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: sewcream/Bigstock.com
Publicado em 15.02.2021

 

 
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