Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

A mulher sempre presente na vida dos cristãos

Regressar com seriedade a todo o mistério mariano. O conhecido aforismo “De Maria numquam satis” (De Maria, nunca [se diz] o suficiente), deve ser atribuído, com grande probabilidade, a Robertus Berthelot, que o usou pela primeira vez em 1627, recorda, entre outros aspetos, a necessidade de passar por caminhos ainda não percorridos até ao fim pela mariologia. Com certeza que a expressão paradigmática do carmelita francês não é responsável pelas eventuais intemperanças devocionais, que poderão ser aludidas para uma sua não correta interpretação. Ao contrário, ela favoreceu substancialmente uma mariologia da mente e do coração, equilibrada e afastada de todo o maximalismo evocativo e irracional.

Ainda hoje, por isso, o problema é o de saber distinguir e apresentar as singulares e amplas colocações que o Deus trinitário reservou à Virgem de Nazaré na história da salvação enquanto Mãe de Cristo. Deveras significativa é a “transversalidade” do mistério mariano na história salvífica. Isso implica que ela seja levada em consideração e que, por exemplo, o discurso mariano seja inserido na teologia fundamental, da qual é totalmente ignorado, que seja elevado a nível de teologia da história, que seja inserido entre os vértices da eclesiologia para evidenciar a radicalidade das escolhas feitas por Deus em relação à Mãe do seu Filho e a toda a família de Adão.

Sejam ainda mais consideradas, no seguimento do capítulo VIII da “Lumen gentium”, as consequências grandiosas que derivam da particular proximidade de Santa Maria ao mistério de Cristo, e, em termos mais extensivos, as que devem ser deduzidas da unicidade da sua relação com o Deus trinitário.

Isto significa penetrar em plenitude e a fundo no mistério mariano na vida e na missão da Igreja, para usufruir da ativa presença materna da Virgem de Nazaré no trecho de história salvífica que estamos a viver, imitando quanto fez profeticamente o “discípulo amado”, que, depois de Jesus moribundo na cruz lhe ter confiado Maria como Mãe, ele «a tomou consigo entre as suas coisas mais queridas» (João 19,27).

 

Se Maria é central no cristianismo, é necessária para todos

Nenhum discurso cristão e eclesial, conduzido em termos de essencialidade, pode evitar o encontro com o tema mariano. Entretanto, a estrela orientadora da mariologia é Cristo, centro do cristianismo (para Romano Guardini dizer isto é pouco, porque Ele é o próprio cristianismo). Todavia, «a figura de Maria, apesar de não ser o centro, é no entanto central no cristianismo. (…) A centralidade de Maria no cristianismo não ocorre em virtude de uma autopersuasão dos cristãos, nas pelo próprio desígnio sábdio do Pai e a precisa vontade de Cristo».

Se assim é, Maria é-nos necessária. E há mais: o regresso a ela insere-se na ordem da urgência, entre outras dimensões porque, como sublinhava o teólogo Joseph Ratzinger, «poderia caber à devoção mariana operar o despertar do coração e a sua purificação na fé».

Por outro lado, no decorrer da história da Igreja, Maria permaneceu sempre presente na vida dos cristãos, além de implicada nas espirais heréticas: foi constantemente fonte de inspiração estética e objeto de reflexão crente; portanto, conhecemos uma Maria das fés e dos heréticos, das artes e das teologias, das espiritualidades e do culto, pa pastoral e da missão.

O verdadeiro problema, então, é o de renovar a perceção de fé sobre a grande e complexa tarefa que o Pai confiou a Maria como “socia Salvatoris”, numa obra de salvação que tem a medida do Deus trinitário e que diz respeito a cada ser humano, a toda a família de Adão, de quem Maria é filha inocente, a Israel, de quem é o “resto santo”, à Igreja, de que é o santo início, a toda a história da salvação, sobre a qual pôs o selo com o seu «sim», a toda a criação, de que é a “forma” íntegra.

 

Nunca sem Maria

Interrogar-se sobre Maria é interrogar-se sobre o cristianismo. Olhando para a Virgem de Nazaré, dirigimos o olhar para o ícone feminino do cristianismo. Isto facilita a resposta a múltiplas perguntas: qual é o olhar feminino sobre o humano, queal é a relevância religiosa do feminino, se existe um âmbito teológico do feminino, se Maria é um caminho feminino para o cristianismo.

Imaginando, por absurdo, a ausência de Maria, emerge claramente a impossibilidade de facto do cristianismo. A Igreja sem Maria deveria explicar diferentemente: as suas origens (foi a Igreja nascente); o ingresso no mundo do seu fundador (Cristo «nasceu de mulher»); a sua autal união com Cristo, que torna salvífico o seu agir (a sacramentalidade está ligada a Maria): o cristianismo nasce nela, que é a verdadeira Belém, a verdadeira gruta da Natividade.

Repor Maria «entre as nossas coisas mais queridas» implica inserir-se no alvéolo de uma sólida teologia mariana que considere a Virgem Maria constantemente no mais alto dos umbrais, o do mistério trinitário, na convicção de que só isto pode abrir o caminho a uma conceção de Igreja, enquanto espaço amplíssimo, no qual podem tomar o devido lugar pastoral e missionário os sujeitos eclesiais que ainda não tiveram maneira de se exprimir em plenitude (por exemplo, a mulher, de quem Maria é incomparável ícone profético).

Uma grande mariologia, bem plantada na cristologia e fortemente ligada à teologia trinitária, é caminho seguro para justificar, pensar e escrever um confiável discurso teológico que saiba apresentar Maria, para usar um termo de Guardini, como “forma” da Igreja e da missão.

A terminar, por todas estas razões de fundo, é segura e convincente a expressão rigorosa e severa de Raimon Panikkar: «Tudo é importante: teologia, ciência, cultura, progresso, tudo é muito importante, mas, sem Maria, a nossa vida cristã é manca, e qualquer conceção que se tente dar do cristianismo é falhada».


 

Michele Giulio Masciarelli
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "A anunciação" (det.) | Henry Ossawa Tanner | 1898
Publicado em 25.03.2019

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos