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A mulher pensa por si própria

«A mulher e a galinha até à casa da vizinha» era expressão corrente no século XVI, em Espanha, quando viveu Teresa de Ahumada y Cepeda. Não parece que esta jovem mulher se tenha submetido à mentalidade comum. Não há dúvida de que teve de combater com plena consciência, a ponto de escrever «é suficiente ser mulher para que me caiam as asas». No entanto, com vigor e energia, criou um espaço eclesial e teológico para a mulher do seu tempo e para os tempos futuros. Um espaço realmente teológico para a mulher monja que, mesmo vivendo numa dimensão eremita e contemplativa, está aberta à história da humanidade e da Igreja. A tal ponto que se tornou um ícone testemunhal para muitas feministas e levou uma pensadora leiga, Julia Kristeva, a olhar para ela, ao pensar numa refundação do humanismo precisamente com ela.

A mulher Teresa, portanto, é uma fonte inesgotável para as mulheres de hoje e não uma cisterna rebocada ou uma peça de museu; isto é tão verdadeiro, que até uma pessoa como Edith Stein, mulher e pensadora audaz, que antecipou em muito o seu tempo, quer nas escolhas pessoais quer nas suas firmes escolhas eclesiais, sentiu-se por ela literalmente fulminada: ambas procuravam a Verdade, verdadeiro eixo das suas vidas, «Teresa de Ávila é uma pensadora que diz e ensina a dizer a verdade» (Luisa Muraro), Edith Stein formulou-a, filosófica e teologicamente, e testemunhou-a sem fugir ao martírio de Auschwitz. No entrelaçamento da sua viva experiência teológica e teologal, isto é, da sua vida de fé, esperança e caridade, é possível vislumbrar e delinear uma teologia da mulher que entre e faça sua uma dimensão ativa e incisiva na vida da Igreja, e continue na linha indicada por Stein:

«Talvez, ao longo dos séculos, nos tenhamos habituado demais ao nosso comportamento passivo na Igreja, concedendo que haja uma ou outra pessoa singular (Teresa de Jesus, Hildegarda von Bingen, Catarina de Siena, etc.) como exceção que confirma a regra. O século XX quer mais!».



Luisa Muraro vê na aventura amorosa um rigor que não é inferior «ao da lógica, pelo contrário, ultrapassa-o, estando sempre pelo meio o desejo, que é um formidável enganador, mas, ao mesmo tempo, um irrenunciável aliado de toda a aventura superior às forças humanas, porque mantém abertos os confins e rompe os limites».



O que devemos pretender hoje, em pleno século XXI? Como se coordenam e se iluminam Teresa de Jesus, Edith Stein e o planeta mulher? Sobretudo dentro da grande transformação cultural que estamos a viver, que se pode definir como epistemológica, porque se refere à organização dos esquemas conceituais e à sua transmissão ativa, e que representa uma verdadeira revolução cultural. A mulher recusa a antiga tradição que dividia a humanidade em duas partes totalmente diferentes, atribuindo à mulher apenas o agir e deixando ao homem a reflexão. A mulher agora pensa por si própria, quer pensar e sentir de modo feminino e não só deixar-se pensar e ditar o sentir por uma mentalidade masculina ou machista. Isto é, a mulher já ultrapassou a chamada «hipoteca androcêntrica». A mulher exige e formula uma salvação pascal que já não seja desfeminizada.

Teresa de Jesus, lida por Edith Stein, a única mulher a obter o doutoramento em 1916, na Alemanha, e cheia de uma vida em ziguezague, cria o mapa de uma resposta teológica. Teresa é uma monja de clausura e uma mulher pública, inserida numa sociedade patriarcal, na aceção feminista da palavra, mas não sepultada sob uma não-resposta. De facto, hoje, usando uma linguagem criada pelo movimento filosófico feminista «Diotima» (que escolheu como mulheres exemplares, para se inspirarem, precisamente Teresa de Jesus e Edith Stein), diremos que a carmelita agiu de forma «a dar o mundo ao mundo», isto é - referindo-se à mulher que gera -, dando vida, no concreto, a ideias e pensamentos próprios na redescoberta da esfera prática, dos gestos decisivos nas pessoas e na sociedade que dão origem a novas relações. Enredo criado por uma «mulherzinha», como se definia a si própria Teresa, com ironia, para fugir às garras da Inquisição.

O novo léxico do movimento feminista adapta-se bem a Teresa, que, no entanto, imprime nele uma direção imprescindível, inserida em Jesus Cristo, em direção a Deus Pai, porque Teresa é interrogada por uma questão de fé, e não apenas por um horizonte meramente simbólico e humano. Este novo léxico explicita o inesgotável desejo feminino de se ligar à realidade. O partir por si com a prática da oração, da amizade com Deus, então proibida às mulheres, porque eram consideradas de pensamento débil; o agir que incide na realidade e significa a vida experimentada no novo, pequeno e pobre mosteiro de São José, que se estende indefinidamente a toda a humanidade e a toda a Igreja; o círculo hermenêutico sexuado, como hoje definimos a relação entre a mulher escritora e a mulher leitora, onde com a escritura se entra na vida de uma outra mulher, como acontecerá fortemente quatro séculos depois com a jovem fenomenóloga Edith Stein, com a leitura da “Vida” de Teresa de Jesus; a mediação entendida não como categoria abstrata, mas, antes, como lugar de mediação, seja horizontal com as outras mulheres, seja vertical com o próprio Deus que irrompeu nela, no contexto da Teresa orante e capaz de comunicação; a autoridade feminina criada significativamente através de uma presença social feminina.



A mulher recebe os mesmos dons que o homem e, portanto, postula o reconhecimento dos dotes e dos dons, e o seu exercício na construção, primeiro, da pessoa e, depois, de toda a sociedade. Em plena simetria e independência, e numa correlação viva



A própria fraqueza consciente não só no confronto com os homens, mas também com Deus. Teresa, através das invenções simbólicas da sua escrita, conduz, nas palavras de Luisa Muraro,

«a abrir o caminho da liberdade através dos obstáculos, usando­-os como verdadeiras alavancas para saltar mais longe».

Com uma autêntica inteligência de amor que ultrapassa qualquer lógica e rompe todos os limites num ato profundamente criativo que recai nos séculos sobre mulheres e homens. Luisa Muraro vê na aventura amorosa um rigor que não é inferior

«ao da lógica, pelo contrário, ultrapassa-o, estando sempre pelo meio o desejo, que é um formidável enganador, mas, ao mesmo tempo, um irrenunciável aliado de toda a aventura superior às forças humanas, porque mantém abertos os confins e rompe os limites».

Como acontece com tudo o que escreveu e testemunhou sobre a mulher, a mulher Edith Stein evidencia estas características peculiares do espírito feminino e encontra-as de novo na capacidade de captar os fenómenos, na sensibilidade à sua variedade, riqueza e especificidade, na tensão para a salvação. Desta forma a aventura feminina abre-se ao presente, ao transformar-se num ato eclesial que se tornou possível, como ato de fé que gera e, ao mesmo tempo, garante a presença da mulher na sociedade e na Igreja com plena visibilidade. Muraro coloca-se na linha de Teresa de Jesus quando afirma que

«a sua grandeza reside na capacidade de ligar, o seu poder é o poder da ligação. Ligação de quê e com quê? Nela eu vejo a grandeza imensa do desejo feminino de se ligar livremente à realidade deste mundo».



Adão foi colhido pelo “tardemah”, pelo «sono», enquanto Javé cria a mulher numa teofania que só permanecerá conhecida por ela. Portanto, funda-se e abre-se um diálogo silente e misterioso: não é o homem que configura e define a mulher, mas o próprio Javé, enquanto a mulher acolhe e aceita e se põe na história



A mulher, vista por Teresa de Jesus e por Edith Stein, está apoiada no grande fundamento bíblico da criação e é enriquecida por uma qualificação que a torna sensível e particularmente recetiva ao agir de Deus na alma. O ser recebido em dom e como dom derrama-se sobre todos os âmbitos da vida e abre-o simultaneamente a Deus e à história. A modernidade interpela com tensões emergentes, às quais é devido dar uma resposta real, com o testemunho de algumas mulheres que fazem escola, como Julia Kristeva, tão atraída pela mulher Teresa que escreveu:

«É a vossa humanidade que me apaixona (...). O que é genial em Teresa é que a escrita não conduz só ao aprofundamento de si, mas a uma mudança do mundo».

Hoje existem alguns termos que se podem confrontar com a experiência de Edith Stein, e que ninguém poderá negar ou pôr em dúvida a sua qualificação, quer para raciocinar, quer para sentir: por exemplo, “matemage", entendido como acento principal e enfático do cuidado da casa como privilégio feminino. A resposta steiniana coloca-se no plano da maternidade, acolhida no seio da ética civil, considerada como uma dimensão moderna, na qual funções e papéis são «entendidos como destino natural», mas copresentes no profissionalismo, na racionalidade, na visibilidade social, impregnados de anúncio evangélico. Porque é a abertura à Palavra de Deus que consente a encarnação na história do próprio povo e se torna serviço de fé e de sabedoria vital.



A mulher e o homem ou o homem e a mulher? Para Edith Stein, a questão é ilusória, ou até mesmo mesquinha ou mal colocada. Há uma totalidade no “humanum” que fala da origem e pede, ao longo da história, para ser mencionada com todos os eventos que a caracterizaram



Ressalta então a via da experiência ou da «teologia dos santos» que, apesar de pertencer ao universo mental da mulher, pode tornar-se pensamento filosófico e sapiencial, se conjugado com a busca da verdade. A referência é, àquele momento, transmitido pelo Livro do Génesis: Adão foi colhido pelo “tardemah”, pelo «sono», enquanto Javé cria a mulher numa teofania que só permanecerá conhecida por ela. Portanto, funda-se e abre-se um diálogo silente e misterioso: não é o homem que configura e define a mulher, mas o próprio Javé, enquanto a mulher acolhe e aceita e se põe na história. Deduzem-se daqui algumas atitudes que a mulher vive totalmente na sua vida interior, na sua práxis quotidiana, na sua especial recetividade ao agir de Deus na alma e entrega a Cristo, que se enraíza na passagem bíblica de Génesis 2,18: «A ajuda que está defronte». A mulher recebe os mesmos dons que o homem e, portanto, postula o reconhecimento dos dotes e dos dons, e o seu exercício na construção, primeiro, da pessoa e, depois, de toda a sociedade. Em plena simetria e independência, e numa correlação viva. A mulher pode penetrar com empatia e compreensão no território da realidade que, em si, lhe estão distantes e do qual nunca se ocuparia, se um interesse pessoal não a colocasse em relação. Dom estritamente ligado à sua disposição para ser mãe. (…)

A mulher e o homem ou o homem e a mulher? Para Edith Stein, a questão é ilusória, ou até mesmo mesquinha ou mal colocada. Há uma totalidade no “humanum” que fala da origem e pede, ao longo da história, para ser mencionada com todos os eventos que a caracterizaram, com um único salto: «No regresso a uma relação de filhos com Deus.» No grande mosaico da história da salvação, eis o homem e a mulher, juntos, da qual são os grandes, mas não os únicos protagonistas. A inteligência humana encontra-se “agápica”, fundada e fundadora, recebida do Criador e sustentada pelo dom contínuo e inesgotável do Espírito, para se tornar cada vez mais semelhante ao Filho através de Miryam, a Theotókos, a portadora de Deus, mulher que pertence ao génio feminino de modo pleno e perfeito de quanto hoje dizemos «dar o mundo ao mundo». Miryam entendida como ícone, imagem densa de presença, «toda santa e, no entanto, completamente humana, mulher na riqueza da sua feminilidade». Aquela que oferece uma espécie de sintaxe de vida a todas as pessoas e que Edith Stein considerava serem “Urzelle”, «células primordiais».


 

Cristiana Dobner
In "O futuro também é feminino?", ed. Paulinas
Imagem: "Young woman on the shore" (det.) | Edvard Munch | 1896
Publicado em 08.03.2019

 

 
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