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A mística do diluir-se

O Caminho Inca estava ali, desafiador. Seriam quatro dias até chegar à imensa cidade perdida de Machu Picchu, a maior atração turística do Peru. Apeei-me do comboio na célebre estação do «Quilómetro 82» e segui a pé, disposto a atravessar aquelas montanhas repletas de enigmas e a respirar o ar rarefeito dos picos. Pedras que ao longo de cinco séculos tinham sido afagadas por inúmeros pés gretados ou feridas por botas aguerridas; precipícios que tinham, decerto, engolido muitas vidas; ventos que tinham vergastado rostos e ocultado segredos. Nos alforges da memória ainda adejava o gosto da noite prateada passada nas ruínas douradas de Pisac, metido no saco-cama, ao lado de um índio de quem me tornara parceiro de jornada e de busca pelo Vale Sagrado dos Incas. Pela manhã, descêramos das ruínas, devolvêramos a manta à aldeã que a tinha emprestado ao meu companheiro e separáramo-nos, pois a continuação da busca encaminhava-nos para rotas diferentes. Permanecia a recordação de mais um daqueles encontros que deixam marcas firmes de relação.

Aqui estava eu, pois, determinado a calcorrear o trilho que me levaria a Machu Picchu, por entre fadigas e anseios. Foi na terceira noite que a intensidade do encontro com o mais genuíno da natureza me visitou. Estava à entrada de uma gruta, recolhido no meu leito improvisado. Lá fora, chovia; sobre o meu saco-cama, pingava. Via os contornos da entrada da gruta em contraste com o céu noturno, levemente iluminado pela luz da lua: o recorte da rocha parecia-se com o perfil de um inca. Cerrei os olhos e escutei: silêncio total. Quando estava a entrar no sono, despertei sobressaltado com um grito estridente. Sonho? Algum animal? Encolhi-me e procurei tranquilizar o coração. A água continuava a pingar sobre mim, mas eu permanecia imobilizado, evitando fazer o menor ruído. Medo? Sim, muito!... Continha a respiração, em escuta atenta. Silêncio, nada mais que silêncio e o segredar das gotas a cair sobre mim, como se eu me tivesse transformado em rochedo e chão.

O dia nasceu. Levantei-me, fiz um café solúvel com água fria e subi para as ruínas, mesmo ali na escarpa da montanha. Aos meus pés, um precipício que se prolongava até ao rio, bem longe. Do outro lado do rio, uma segunda encosta, imponente, de onde caía o longo fio branco de uma cascata. A neblina subia do vale em direção às ruínas onde eu estava, chávena de café frio na mão; por detrás, o ameaçador passe de 4 mil metros que eu teria de transpor daí a pouco. Também dali deslizava uma neblina sinistra que se encontrava com aquela que vinha do vale, entrelaçando-se em dança mística. No meio, permanecia eu, como que hipnotizado e dissolvido naquela beleza vertiginosa. No meu coração borbotavam majestáticos acordes sinfónicos, mas a obra que mais me apertava o peito naquele lugar e naquela ocasião era Années de pèlerinage (Primeiro ano: Suíça), de Franz Liszt. Talvez porque tinha consciência de que era um buscador sedento e frenético, faminto de novas lonjuras. Não via os pés, pois estava escondido na nuvem. «Ó Neblina, minha irmã, alento branco encerrado em molde nenhum, / Regresso a ti, alento branco e sem voz, / Palavra ainda não pronunciada» (Kahlil Gibran). Olhos humedecidos, lentes dos óculos embaciadas, corpo molhado e frio, dos meus lábios saiu um hino de louvor em homenagem à comunhão insólita e íntima. E refletia que a sensação de diluição na natureza é das experiências mais sublimes e aterradoras com que o ser humano se pode deleitar.

Os olhos secaram, o sol brilhou e eu devolvi os passos ao caminho. Mas a emoção de união mística permanece indelevelmente gravada na minha pele. Ainda hoje escuto o grito estridente indecifrável, como que a despertar-me para o que é eterno na minha efemeridade; ainda hoje sinto a diluição acompanhada pelos acordes de piano de Liszt murmurando mensagens de perenidade.








 

Adelino Ascenso
Imagem: Mark Skalny/Bigstock.com
Publicado em 15.07.2019

 

 
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