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A guerra sou eu: essência ética da guerra

A guerra na Europa – que é a parte geograficamente ocidental de um supercontinente que inclui isso a que se chama «Ásia», numa continuidade geomórfica incompatível com qualquer erudita partição geopolítica – anunciava-se há muito tempo e apenas quem tal não quis perceber não percebeu tal. Forma de inteligência possível.

A guerra, que é sempre um ato político, pois apenas pode acontecer na relação entre dois ou mais seres humanos, pode ter condicionantes, mais ou menos próximos e poderosos; pode suceder no seio de chamados movimentos históricos (são todos os de origem humana, o que nada diz de propriamente específico); pode ser (o que significa, no mesmo acto lógico, que pode não ser) complexa; pode ser concomitante com questões psicológicas, sociológicas, culturais várias; etc.

A guerra pode estar relacionada com tudo isto. No entanto, a menos de anedótica acidentalidade – “entrámos em guerra por causa do meu espirro na cimeira!” –, pode tudo o que se mencionou existir, até cumulativamente, que tal não implica necessariamente que haja guerra. A razão para tal é antropológica e ética; e apenas.



Sendo um ato de vontade, a guerra é sempre um ato ético, de imediata consequência política. Não tem de ser entre estados ou semelhantes ficções da teoria política; pode ser entre apenas dois seres humanos



Não é preciso ser-se muito inteligente para se perceber que, mesmo com todos os fatores elencados (sobretudo o «etc.»), os possíveis inimigos podem nunca passar a ser reais, concretos, inimigos.

Que falta, então, estando todas tais realidades condicionantes ou supostamente determinantes reunidas?

O que falta é vontade.

É a vontade e apenas a vontade que é determinante. A vontade é sempre ato pessoal, unipessoal (a vontade de um povo não é uma prosopopeia, é uma impossibilidade, pois não há propriamente uma ‘amálgama algébrica’ das vontades individuais).

Estando todas as condições reunidas, pode nunca haver vontade de que haja guerra. Sem esta vontade, não pode haver guerra, pois esta não é um acontecimento natural, não é um acontecimento fortuito, não é um acontecimento mecânico, digam os néscios o que disserem.

Para que haja guerra, tem de haver um primeiro ato – que pode ser concomitante de ambos (ou de todos, se forem mais do que dois) os lados, se não formos muito exigentes em termos de pormenores cronológicos: em que nanossegundo? – para que possa haver guerra.

Está para surgir na humana história o arco que disparou por si próprio a flecha (não está para surgir, no entanto, a armadilha que, mal concebida, o faça; mas, então, é esta estupidez pragmática que se transforma no primeiro ato de guerra, por prolepse de incompetência); ou o míssil balístico que faça o mesmo, salvo incompetência. A incompetência pode ser um ato de guerra, por paixão ou ação. Não se muda a qualidade da questão.



A guerra depende, assim, exclusivamente, de quem pratica o primeiro ato que a põe em movimento. O mais, é retórica, mais ou menos mercenária, com aspeto mais ou menos racional, quiçá, “científico” (é sempre bom saber-se a que voz de que dono estes “cientistas” obedecem)



Sendo um ato de vontade, a guerra é sempre um ato ético, de imediata consequência política. Não tem de ser entre estados ou semelhantes ficções da teoria política; pode ser entre apenas dois seres humanos: eu, em ato de guerra, agrido-te para me apoderar de uma possibilidade ontológica própria tua.

É isto o ato de guerra, seja feito pelo patrão ganancioso ao trabalhador assim escravizado; pelo trabalhador ao patrão assim roubado – a guerra é sempre um roubo, em termos técnicos –; pode ser de um império a um alheio povo, vizinho ou longínquo, a fim de usar os bens próprios deste em seu benefício (diferença para o comércio – que é justo, ou é guerra –, em que ambas as partes beneficiam, sem assinalável diferença de bens resultantes para qualquer uma delas).

A guerra depende, assim, exclusivamente, de quem pratica o primeiro ato que a põe em movimento. O mais, é retórica, mais ou menos mercenária, com aspeto mais ou menos racional, quiçá, “científico” (é sempre bom saber-se a que voz de que dono estes “cientistas” obedecem).

Ora, como o velho Platão bem explicou na sua Politeia, a vontade de quem faz guerra coincide sempre com o apoderar-se de um qualquer bem próprio de um qualquer outro: é o mito de Giges, tão bem entendido por Tolkien, no seu Senhor dos Anéis.



Candidatos a tiranos é o que não falta neste mundo. Estes formam a oligarquia – iludida – que acolita os tiranos em funções, na mira de um dia poderem ser eles a ocupar o lugar do tirano. Os oligarcas são sempre, todos, tiranos falhados



Se se retirar toda a possibilidade de responsabilização ao candidato a tirano, se este souber que, faça o que fizer, nada lhe sucede como consequência de seus atos, por mais pérfidos que sejam, então, sendo ele o que é, como não, precisamente, realizar-se sendo o que é, um ser humano parasita que vive roubando o que é próprio dos outros?

Tal não se aplica apenas a “hitleres” ou a “estalines” ou a outras entidades que aquelas tipificadas paradigmatizam. Aplica-se a todos os seres humanos que agem de modo a agredir o outro no sentido de parasitar o bem que ao outro pertence de direito. Este direito não é o dos poderosos que escrevem ou mandam escrever o ‘direito positivo’ – as ‘leis’ de Nuremberga, por exemplo –, mas um direito antropológico, ontológico, que se funda no que é incoativamente próprio de cada ser humano como acervo de suas inalienáveis possibilidades.

Neste sentido ontológico, único verdadeiramente válido, quem tem o direito de agredir o outro, de o parasitar, de lhe roubar o que lhe é próprio como sua única possibilidade, exatamente própria?

Quem faz tal é, por definição, o tirano.



As consequências sobre quem se recusa a pensar a guerra na sua essência antropológica e ética são apenas justiça poética, como quando a bomba destinada aos inocentes explode nas mãos do potencial assassino



Ora, candidatos a tiranos é o que não falta neste mundo. Estes formam a oligarquia – iludida – que acolita os tiranos em funções, na mira de um dia poderem ser eles a ocupar o lugar do tirano. Os oligarcas são sempre, todos, tiranos falhados.

Não admira, assim, que tantos oligarcas – alguns muito bem disfarçados – apoiem ações parasitárias perpetradas pelos tiranos, mesmo por os que, em aparente paradoxal situação, se situam no campo “inimigo”.
Quantas pessoas conhecemos que, se tivessem o poder militar de Hitler ou de Estaline fariam algo de muito semelhante, dado que o desejo de poder que possuem tal indica? O que não dispõem é da instrumentalidade eficaz que lhes permita passar do desejo à vontade.

Esquecendo a necedade comum relativa à questão da guerra, percebe-se agora melhor o que se passa a este da Europa Ocidental, oeste da Europa não Ocidental?

Não?

Então, o movimento próprio da guerra uma vez posto em ato pelo ato de agressão irá encarregar-se de explicar. Algumas das consequências sobre os inocentes são terríveis e obscenas. Todavia, as consequências sobre quem se recusa a pensar a guerra na sua essência antropológica e ética são apenas justiça poética, como quando a bomba destinada aos inocentes explode nas mãos do potencial assassino.

O fim da guerra é a destruição da humanidade.

Quem não perceba tal, insista na guerra.

Os outros podem trabalhar pela paz.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: palinchak/Bigstock.com
Publicado em 17.03.2022

 

 
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