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A Filosofia de Maurice Blondel e as suas contribuições para a ação dos cristãos

Maurice Blondel nasceu em 1861, morreu em 1949, e a maior parte da sua história pessoal passou-se em França. Um cristão católico convicto que procurou dar inteligibilidade da sua fé no ambiente intelectual, hostil e pouco religioso no qual se inseria. O seu pensamento filosófico contribui para a reflexão teológica e ajuda-nos a pensarmos o nosso momento presente.

Para Blondel, a Filosofia não deve ignorar a realidade de fé, ao contrário, deve interessar-se pelo mistério e pelas questões de fé para tentar explicitá-las. Ambos os saberes (Filosofia e Teologia) preocupam-se com o sentido e o destino do ser humano, e tentam responder a tais questões. Assim, ele propõe uma reflexão que conduz à aceitação dos próprios limites da razão, com uma abertura ao dom sobrenatural (intellectus quaerens fidem), pois a razão aspira ao infinito, mas não o atinge, devendo reconhecer a sua insuficiência e acolhê-lo como dom (cf. BLONDEL, La Pensée II, 1934, p. 370). Blondel elabora uma “Filosofia orante”, compreendendo que a razão não alcança o objeto divino, e coloca-se na expetativa para o acolhimento do dom desejado. O pensamento tem um limite, e essa insuficiência é a possibilidade de expansão.

Na sua reflexão, Blondel propõe uma maneira nova de pensar a Metafísica. Embora não tenha escrito um tratado, todo o seu sistema filosófico expõe a sua ideia acerca da Metafísica. Ela é considerada como a ciência do além, superior e interior ao ser humano. Centra-se no absoluto e compreende-se a partir da ação dos seres. Para tanto, ele não parte de ideias abstratas, mas do concreto singular, no qual o universal subsiste. Dessa forma, a ação humana é o centro da filosofia e onde ocorre o encontro entre o querer e a inteligência.



Teoria e prática, razão e fé, pensamento e ação, não são dicotómicos, mas complementares e necessários uns aos outros. Por isso, o nosso pensamento deve refletir uma atitude, a fé deve ser intelectiva e os atos quotidianos consequentes do que se pensa, crê, espera e ama



Desta maneira, Blondel elabora uma Metafísica como modo de viver e pensar, e supera a dicotomia entre teoria e ação, entre a razão pura e a razão prática, porque o seu ponto de partida é a ação. Uma orientação teórica tem valor se incide na prática real, a práxis deve ser fidelidade ao que se experimenta por meio da fé. Por isso, as verdades de fé e as tensões escatológicas não são meras abstrações, mas implicações para as atitudes da vida presente.

A partir de sua obra principal (L’Action - 1893), Blondel sustenta que a ação é parte genuína dos seres humanos, por isso, objeto de compreensão racional por parte da Filosofia. O objetivo da ação é a conquista do ser, que é presença, mistério e aspiração a uma plenitude não encontrada. Blondel divide o estudo da ação em duas partes: primeira, uma teoria da ação que visa especificar a possibilidade da Metafísica (função, sentido e valor da ação); na segunda parte, trata-se de dar crédito à prática, às ideias que nascem dela.

Blondel promove uma filosofia praticante, na qual o ser humano assiste e coopera no desenvolvimento das tendências que conduzem à finalidade desejada. A ciência da ação tenta manifestar a originalidade do dinamismo intrínseco da ação, pelo que a especulação esclarece e enriquece a prática.

A ação deve ser toda do ser humano, mas como se fosse toda dependente da vontade de Deus, numa síntese entre as vontades humana e divina, na qual uma não pode nada sem a outra (cf. BLONDEL, L’Action, 1893, p. 385). A ação é o ponto de encontro e de cooperação e o lugar de comunhão entre o ser humano e a sua destinação própria (Deus), onde o ser humano ascende à finalidade para a qual foi criado, e o meio pelo qual se configura ao infinito, princípio e fim da ação humana. A comunhão é a consumação da ação plenamente realizada pela participação na caridade, assumindo humildemente a condição de pedinte e aspirante, na docilidade, obediência e abnegação ao dom da graça.



Os cristãos de hoje, como os de todos os tempos, não se podem assustar com as complexas situações desafiantes, porém ousar com criatividade, e com convicção agir em nome daquele em quem colocamos nossa confiança



A orientação e finalidade da ação humana é Deus. Mesmo sendo múltipla e transitiva, elas anseiam a unidade, que atrai e impulsiona a ação. O ser humano é livre na medida em que age conforme a sua orientação e finalidade. Assim, a filosofia blondeliana destaca a dialética da presença e de possessão, da invocação e da receção. Em ambos os casos manifesta-se a ineficácia da ação humana de dar-se ou de procurar-se através das suas próprias forças.

O acolhimento ou rejeição do dom superior que introduz à vida divina representa o drama de toda a criação gemente. A abnegação adquire a possibilidade de um desenlace glorioso, não porque o agente faz tudo, mas porque espera tudo, e esperar, para o cristão, significa operar. A abnegação é docilidade e submissão à tendência e aspiração de comunhão, todo o ato tende a ser comunhão. A vida em ato é o lugar da comunhão e da conexão universal, tendendo a unificar-se sem jamais alcançar uma unidade estável.

De acordo com Blondel, a reflexão deve atentar na prática onde a realidade está presente e atuante, impulsionando para a unidade, por meio da diversidade, e atraindo para a plenitude do fim último. Com isso, o filósofo ajuda-os a refletir o ser cristão, que significa também agir, na atualidade.

Blondel considera que teoria e prática, razão e fé, pensamento e ação, não são dicotómicos, mas complementares e necessários uns aos outros. Por isso, o nosso pensamento deve refletir uma atitude, a fé deve ser intelectiva e os atos quotidianos consequentes do que se pensa, crê, espera e ama. Não podemos viver uma fé sem uma vivência efetiva, apenas baseada em normas, doutrinas ou num código de condutas. A fé é a vida de Cristo presente na vivência dos cristãos. As nossas ações devem testemunhar a fé que temos. Os cristãos de hoje, como os de todos os tempos, não se podem assustar com as complexas situações desafiantes, porém ousar com criatividade, e com convicção agir em nome daquele em quem colocamos nossa confiança.

A esperança cristã de novos céus e nova terra (cf. 2 Pedro 3,13) não consiste apenas na construção de uma sociedade sem males. Aguardamos mais do que coisas para esta realidade do aquém, os nossos olhares voltam-se para o alto, embora com os pés fixos neste chão. Temos já a realidade futura, mas ainda não plenamente. Somos seres aspirantes e ansiantes da plenitude definitiva, responsáveis pelo destino e sentido pessoais, e itinerantes na expectativa do dom que vem e impulsiona na busca do próprio destino. O ser humano atual, acostumado com a liquidez do momento presente, deve encontrar, por meio do testemunho cristão, a eternidade, a plenitude e o infinito que dilatam e orientam as nossas ações para a meta na qual a nossa liberdade se realiza.

Por fim, a nossa postura diante da contemporaneidade não pode ser de assombro e ocultamento. O cristão deve colocar-se em êxodo constante para o advento do dom do Reino vindouro (cf. FRANCISCO, Evangelli Gaudium, n. 20). O nosso êxodo deve ser também presente nas ações quotidianas e nas relações com o próximo, vivendo o amor que temos como herança de Deus para nós. A sociedade e a cultura anelam pela transcendência, pela luz que o cristão recebeu. Que os nossos atos brilhem diante das pessoas, para que vejam e louvem àquele que buscam (cf. Mt 5,16).


 

P. Marcus Mareano
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Brasil, Faculdade de Teologia
Imagem: Maurice Blondel | D.R.
Publicado em 11.02.2021

 

 
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