

A convicção de que «a fé cristã deve respeitar o pluralismo que marca muitas sociedades hoje em dia», ao mesmo tempo que «também deve poder contribuir para a reflexão de todos sobre o que tem a ver com a construção do ser humano», constitui a motivação do livro “A fé cristã no espaço público”, de Domingos Terra, apresentado esta quarta-feira, em Lisboa.
A investigação do sacerdote jesuíta, publicada pela Universidade Católica Editora, começa por centrar-se na «clarificação concetual», »conceções» e «debilidades» da laicidade, entendida como «lógica de configuração da vida coletiva de muitas sociedades e, portanto, de definição do lugar dado à fé cristã no seio delas».
O docente da Faculdade de Teologia examina, seguidamente, «o convívio da fé cristã com a laicidade», explicando o que aquela «aceita e requer» e «o reconhecimento do lugar da religião», presumindo «que se requeira aprendizagem de ambas as partes.
A partir dos pressupostos anteriores, o estudo pensa «a intervenção pública da fé cristã, tendo em conta o que esta é: as oportunidades que comporta e as exigências que enfrenta», nomeadamente no debate público e na comunicação social.
No quarto e último capítulo, discute-se «a tangibilidade da fé cristã no conjunto da sociedade, assumindo que deve ser possível localizar o que lhe é próprio no seio desta», designadamente o denominado «cristianismo cultural».
Introdução
Domingos Terra, SJ
In “A fé cristã no espaço público”
O Conselho das Conferências Episcopais da Europa efetuou, em 1996, um Simpósio com o título «A religião, facto privado e realidade pública. O lugar da Igreja nas sociedades pluralistas». Parece ter sido sobretudo por sugestão dos bispos da Europa central e oriental. Anos antes, tinham caído os regimes comunistas nesta zona do continente. Terminara um tempo em que a fé cristã não se podia exprimir em público, vendo-se confinada à esfera privada ou, então, a espaços muito restritos. Agora, começava uma nova era com a implantação da democracia. Mas verificava-se que esta transformação abria caminho a outras com as quais a referida fé se via de novo numa situação desconfortável. Antes, havia a opressão como fruto duma ação política. Agora, havia a marginalização como resultado duma evolução que decorria com naturalidade. Surgia uma tendência que punha a fé cristã à margem da vida da sociedade e a empurrava outra vez para a esfera privada. Ora, se os bispos da Europa central e oriental eram quem mais sentia a necessidade de refletir sobre a dimensão pública da fé cristã, os da parte ocidental do continente decidiram também tratar este tema. Apesar de não terem vivido a opressão dos regimes que impunham o ateísmo, viam-se perante a onda de secularização que afetava as diversas áreas da atividade humana e da vida coletiva. Na verdade, enfrentavam, há mais tempo, aquela evolução que se sentia agora nas jovens democracias da outra metade do continente e que ia pondo a fé cristã de lado.
Passadas duas décadas, verifica-se que a dimensão pública da fé cristã permanece uma preocupação para a Igreja do velho continente. É claro que as transformações sociais e culturais, que naturalmente vão acontecendo, podem trazer sempre consequências para a dita dimensão. Mas também se encontram certas visões da laicidade, adotada em muitos países, que a põem claramente em causa. Tem-se do papel do Estado, da dinâmica da sociedade e do próprio ‘viver juntos’ uma conceção que não dá grande margem para a expressão pública da fé cristã. É, portanto, neste contexto que surge a reflexão que vamos empreender. Aborda-se a presença da fé cristã no espaço público com a motivação própria dum crente e também a preocupação de honestidade intelectual. Não se pretende abarcar todas as facetas do tema, dado que não seria fácil consegui-lo. Mas procura-se uma sistematização que permita ter dele um bom conhecimento. Tenciona-se ficar com uma ideia ampla do que essa presença da fé cristã implica. Fala-se da sua relação com a sociedade, da sua relação com o Estado, da sua participação no debate público, da sua contribuição para o conjunto social, do seu recurso aos média, do legado histórico que deixa a todos, enfim de atitudes que ela própria precisa de desenvolver.
Embora a nossa reflexão se interesse, em primeiro lugar, pela fé cristã, usa-se nela bastante a palavra ‘religião’. Deve-se ao facto de boa parte da bibliografia, que se dedica ao tema que estudamos, se referir à religião em geral e não tanto à fé cristã em particular. Daí que, falando de religião, se esteja a pensar na referida fé. A reflexão situa-se no espaço geográfico das sociedades que habitualmente se designam modernas. São aquelas com que estamos familiarizados e em que se defende a democracia e o pluralismo. O itinerário da reflexão apresenta quatro capítulos. No primeiro, estuda-se a laicidade, dado que constitui a lógica segundo a qual se configura atualmente a vida coletiva das sociedades em que nos movemos. Trata-se da arquitetura que define os contornos do lugar atribuído à fé cristã no quadro delas. No segundo capítulo, examina-se o convívio que essa fé pode estabelecer com a laicidade, de acordo com o que esta determina. Presume-se que ele implique uma aprendizagem de ambas as partes. No terceiro capítulo, já com as implicações da laicidade clarificadas, pensa-se a intervenção pública da fé cristã, tendo em conta o que esta é. Examinam-se as oportunidades que comporta e também as exigências que enfrenta. Finalmente, no quarto capítulo, discute-se a tangibilidade da fé cristã no conjunto da sociedade. Assume-se que deve ser possível localizar o que pertence a essa fé no seio desta.
NB: Esta transcrição omite as notas de rodapé.