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A esclerose do coração que nos impede de viver: Itinerário de um sacerdote que se perdeu na hiperatividade

«O silêncio de Deus dissolveu as minhas certezas como neve ao sol. As palavras que colocava nele rebentaram como bolas de sabão. Encontrei-me nu e mudo, transtornado, à beira de uma ausência. Sobre uma aresta entre nascimento e morte, entre origem e fim.»

Estas palavras, escritas por Raphäel Buyse, acompanharam-me durante as semanas de quarentena, juntamente com outras de igual radicalidade que tecem as páginas de “Autrement, Dieu”. Trata-se de um livrinho ágil, mas de grande intensidade, no qual o autor, sacerdote francês, narra a experiência radical de espoliação interior vivida durante um período de crise pessoal.

Sacerdote brilhante, mas consumido por uma hiperatividade pastoral que o conduz a perder-se a si próprio, Buyse decide retirar-se durante três anos para o mosteiro beneditino de Clerlande, a poucos quilómetros de Bruxelas. Esse é o seu “Iabbok”, o lugar da sua luta com Deus, como Jacob com o anjo. Quando bate à porta dos monges, o P. Raphäel dá-se conta de que o Deus em que até então tinha acreditado era um Deus demasiado exigente, demasiado desumanizador, um Deus feito à imagem de si próprio: «Tinha-o vinculado aos meus desejos e aos meus sonhos; tinha-o confundido com os fantasmas provenientes do profundo da minha fragilidade; construí-o como uma resposta que preenche a minha solidão. As imagens que fazia dele confundiam-se com as de mim próprio».



Esta é uma das grandes intuições do sacerdote: não existe dicotomia entre Deus e ser humano, porque Deus quer «a unificação profunda da pessoa»



Até então tinha procurado Deus «para além do humano», como se Ele pretendesse o sacrifício da humanidade de quantos querem ser seus discípulos. Esmagado entre a busca da aprovação dos outros e um serviço a um Deus sufocante, Buyse põe em causa tudo aquilo que até então tinha sido a sua fé. Entre os claustros de Clerlande, intui que perdeu a rota no «frenesim de edificar pedra sobre pedra um templo-igreja que Deus talvez não espere tão-pouco de nós».

Está aqui uma das chaves-mestras do seu caminho: o Deus cristão não é um Deus que armadilha o ser humano com expetativas cada vez maiores, mas é um Deus da liberdade, do gratuito, da paz, um Deus «que se retira como o mar. Amável na sua ausência». Porque Buysce faz a experiências (tantas vezes narrada pelos místicos) do silêncio de Deus, esse silêncio capaz de escavar na profundeza, inclusive de descarnar, destruindo certezas consolidadas como se fossem simples «bolas de sabão».

Lia estas páginas nos dias da epidemia, nas semanas de dor e da oração, do silêncio e da solidão. Compreendia que aquilo que Buyse narrava era a experiência de muitos, no tempo do sofrimento físico ou moral. Compreendia que muitos estavam a cumprir a sua luta junto do “Iabbok”, buscando no silêncio de Deus a sua presença, a sua palavra, o seu mistério.

Mas após a noite da alma, Buyse experimenta o surgimento da aurora sobre uma fé nova, sobre uma vida nova: «Depois de Clerlande, balbucio a minha fé num Deus que não espera nada do ser humano, que dele se desapegou e o deixa existir». Esta é uma das grandes intuições do sacerdote: não existe dicotomia entre Deus e ser humano, porque Deus quer «a unificação profunda da pessoa». Deus não nos quer apesar da humanidade que nos caracteriza, mas ama-nos por aquilo que somos, por aquilo que transportamos na nossa vida. É uma certeza que aplaca o tumulto interior: «Então abandonei as perguntas sem resposta, e sobretudo as respostas sem pergunta».



«Se Cristo nos salva, é do pânico, do medo de um Deus apresentado como alguém que nos quereria fazer pagar o direito de viver. Se nos liberta, é da religião que legitima muitas formas de poder e influência. É do sentido de culpa que envenena a existência e impede de viver, dançar, amar»



Entre os claustros do mosteiro, seguindo a sabedoria da regra beneditina e a sabedoria concreta de Madeleine Delbrêl, o P. Raphäel desmobiliza o exército do seu ego. Compreende que a via a empreender para encontrar o Deus do Evangelho é a de viver a sua humanidade em plenitude, vencendo as tentações de amputar partes de si como se fossem desagradáveis a Deus; dá-se conta, com efeito, que há pessoas que «se concentraram em Deus para remover a questão do ser humano: a busca de Deus pode ornar-se uma forma de demissão da existência».

Estas palavras caíam-me na alma enquanto os meios de comunicação e as redes sociais se enchiam de respostas fáceis a perguntas radicais sobre o mistério de Deus e o mal do mundo: falar de Deus para dar um passo atrás em levar a sério a vida e as suas contradições?

Mas o Evangelho narra um Deus incarnado. Um Jesus de Nazaré que «unifica a vida daqueles que seguem os seus passos». Um Cristo que salva. Mas de quê? «Da desumanidade e da cisão (…). Se nos salva, é da escassa fé que temos na vida, nele, na sua presença. Da nossa indiferença, dos fechamentos, das escleroses do coração que nos impedem de viver. Se nos salva, é do pânico, do medo de um Deus apresentado como alguém que nos quereria fazer pagar o direito de viver». Jesus de Nazaré liberta o ser humano: «Se Cristo nos liberta, é das certezas nas quais o fechámos; é das catequeses com o selo de garantia, das fórmulas mágicas e daqueles pequenos ritos que por vezes afloram a nevrose. Se nos liberta, é da religião que legitima muitas formas de poder e influência. É do sentido de culpa que envenena a existência e impede de viver, dançar, amar».



«Os rebeldes do Espírito são mais obedientes dos que os sábios filhos da lei», porque «sem eles a Igreja seria uma velha instituição estagnada»



A um Deus assim, então pode-se consentir. Porque de um Deus assim, que ama o ser humano inclusive na sua carga de fragilidade, que ama gratuitamente sem esperar seres humanos perfeitos, pode confiar-se. Mas fiar-se de Deus quer dizer também fiar-se da vida, habitando-a com serenidade e liberdade, com coragem e responsabilidade. Por isso Buyse, após três anos, deixa Clerlande: compreende que o seu lugar não é no mosteiro; sente que deseja voltar ao mundo, cujas estradas têm de ser percorridas com consciências novas, com esperanças renovadas, mas sobretudo com a alegria simples que sabe valorizar o “aqui e agora”, sem angústias pelo futuro e sem pesos do passado. Viver assim significa «salvaguardar momentos de recolhimento», defender instantes de solidão, significa «estar, simplesmente, aonde a vida nos levou». Redescobrir o valor do hoje, evitando corridas loucas que não se controlam e que consomem a vida.

São pensamentos que caem como bálsamo no tempo da pausa forçada, quando tendemos entre um legítimo desejo de voltar a percorrer as nossas cidades e o perigo de voltar à habitual corrida do quotidiano que devora tempo, relações, reflexões, oração.

O convite que Buyse dirige – sem poder imaginar aquilo que viria a acontecer neste 2020 – é de permanecer em nós próprios, defender o nosso espaço humano mais íntimo, redescobrir aquilo que nos habita na profundidade, e aí edificar, com paciência e serenidade, a nossa vida. Daqui derivam as suas reflexões sobre o amor, sobre o sacerdócio, sobre a Igreja, vistos como lugares onde estar com humanidade. Essa Igreja na qual se pode residir sem forçosamente conceber-se como homens e mulheres tomados por mil compromissos oficiais. Essa Igreja amada «por aquilo que se pode tornar», porque «como muitos outros, a sonho mais simples, mais fraterna, mais comprometida ao longo das linhas de rutura, mais próxima das novas expetativas dos contemporâneos, menos dividida em compartimentos estanques, mais livre no tomar a palavra e na liturgia». Na certeza de que «os rebeldes do Espírito são mais obedientes dos que os sábios filhos da lei», porque «sem eles a Igreja seria uma velha instituição estagnada». Essa Igreja que ele quer habitar e servir, com fidelidade e audácia.

O importante, diz Raphël Buyse, é ter a coragem de colocar perguntas radicais à vida, de pôr-se a caminho e avançar com pequenos passos, mas avançar sempre, porque «para se tornar humano é preciso manter-se em caminho, não ficar imóvel».

Assim se descobrirá o rosto de «Deus diferente», um Deus mais humano, um Deus que salva e liberta já no presente. Um Deus diferente que poderia ser o dom destes dias de silêncio, de reflexão e de esforço. Um Deus diferente que nos espera no nosso “Iabbok”.


 

Sergio di Benedetto
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa de "Autrement, Dieu" (det.) | D.R.
Publicado em 21.05.2020

 

 

 
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