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Leitura: “A casa da alegria”

As páginas do novo livro "A casa da alegria - Reflexões sobre cristianismo e tempo na cultura europeia", de Gabriel Magalhães (208 páginas, 14 €), são como portas abertas para as divisões de uma moradia, que correspondem a uma dimensão da vida de quem acredita em Deus, como o amor, a liberdade, a oração, o milagre ou a ação social.

«Longe de um cristianismo de tristezas e melancolias», o volume que a Paulinas Editora lança nas livrarias na próxima semana propõe que «a fé pode ser uma casa da alegria», e por isso «visa contribuir para que cada leitor possa criar a arquitetura da sua própria felicidade».

Interroga o autor: «O que fazer da nossa crença no mundo atual, tão especialista em descrenças? Onde pousar a velinha de amor que levamos acesa no coração? Dir-se-ia que cada cristão se vê obrigado a encontrar, hoje em dia, um novo tipo de catacumba, onde a sua espiritualidade se sussurra escondidamente».

«Perante este cenário de almas áridas que nos rodeia, alguns crentes sonham regressos aos tempos em que o cristianismo formava parte do bilhete de identidade da maioria das pessoas. Recordam a chama dos passados Natais, em que Jesus nascia no íntimo das gentes, e das Páscoas em que os céus se enchiam de catedrais de foguetório. Fabricam, assim, uma fé em forma de nostalgia», lê-se na introdução.

Se uns vivem de recordações, outros só têm olhos para «mundos futuros em que todos os homens possam enfim ser irmãos. Desenham para o porvir aparições de justiça, de igualdade. Sentem-se, pois, novos peregrinos de uma Terra Prometida».

Gabriel Magalhães não nega a pertinência daquelas rotas, mas o seu mapa é outro: «Um pouco como há muitas moradas no Céu, há na terra muitas veredas para quem segue Jesus. Aquela que aqui apresentarei passa sobretudo pelas encruzilhadas do presente: não se embebe nos encantos de outrora, não exige futuros – mas sabe do passado e contribui para o porvir».

«Depois de um livro sobre a leitura dos Evangelhos [“Espelho meu”], de outro para praticar os rumos da espiritualidade [“O mapa do tesouro”, ambos da Paulinas Editora], surge este dedicado à questão de como introduzir a nossa fé no panorama sombrio da Europa de hoje. Gostava sobretudo que estas páginas libertassem o leitor – e a mim também – desta grande tristeza que, neste momento, nos invade. Somos uma silenciosa elegia, em cada dia que passa. E viver a fé, se for verdadeiramente vivida, deve obrigar-nos a sorrir», assinala.



Encontramo-nos, portanto, perante uma geração que foi obrigada à amnésia da sua alma, exatamente como, no passado, outras foram forçadas ao analfabetismo. E o resultado, como não podia deixar de ser, manifesta-se no nosso empobrecimento coletivo. Pessoas que não chegam a saber que têm espírito também não percebem bem o que devem fazer da sua vida



O escritório da liberdade
Gabriel Magalhães
In “A casa da alegria”

Hoje, no nosso espaço cultural, a liberdade é vista por muita gente como o direito de ajustarmos o nosso comportamento, como uma luva, aos desejos do nosso corpo e aos impulsos obscuros da nossa psique. Dir-se-ia que o objetivo do ser humano consiste em revestir-se da elegância de um animal, que cumpre, sem problemas, o bailado dos seus instintos.

Acontece, porém, que, no caso dos homens e das mulheres, os instintos são só uma parte da nossa casa, e quem neles se centra vê teias e mais teias de aranha invadirem os salões da alma. De tal maneira que o desenvolvimento que se dá em alguém que segue a guia de marcha das suas pulsões, o mapa dos seus egoísmos acaba por ser uma fotografia desfocada, uma pintura esborratada da paisagem que existia em nós. Quem habita apenas o território dos seus impulsos desconhece grande parte da sua geografia pessoal. É isso que acontece a muitos jovens que, neste tempo, são educados para se orientarem pelas químicas mais elementares do seu corpo.

Encontramo-nos, portanto, perante uma geração que foi obrigada à amnésia da sua alma, exatamente como, no passado, outras foram forçadas ao analfabetismo. E o resultado, como não podia deixar de ser, manifesta-se no nosso empobrecimento coletivo. Pessoas que não chegam a saber que têm espírito também não percebem bem o que devem fazer da sua vida. Eliminamos importantes pontos cardeais da bússola da natureza humana, e depois ficamos admirados com o facto de termos uma cultura profundamente desorientada.

Por outro lado, passada a tontura do orgasmo de decidirmos fazer o que nos apetece, percebemos que essa residência do nosso corpo, pela qual optamos, só aguenta no máximo uns noventa, cem anos. Assim, o que era para ser gozo deriva em ansiedade. E é nessa altura que se decide colecionar todos os prazeres que a vida tenha, o que nos leva a transformarmos a nossa carne numa dormência alimentada por todo o tipo de morfinas. A partir desse ponto, ficamos dependentes de tantas coisas: do consumo que nos relaxa as mãos e os olhos, do ócio compulsivo que põe a alma num estado de hipnose, necessário para lhe acalmar os pesadelos. Ficamos, além disso, escravizados pelo dinheiro que ganhamos e com o qual adquirimos o analgésico do bem-estar. E eis que, com o correr dos anos, o nosso corpo se esvai por entre os dedos dos dias e percebemos que, afinal, fomos sempre escravos. Que passámos ao lado de outra coisa, difícil de definir, mas que era o verdadeiro espelho de nós próprios. Suicidámo-nos no facto de querermos viver desfrutando e só para nós. O mundo que nos rodeia enganou-nos: conseguiu que trabalhássemos para gastar e para gozar; conseguiu que nada fizéssemos de original, de diferente, porque isso exigiria uma capacidade de sacrifício que nós não tínhamos. Convencendo-nos de que nos libertava, a sociedade algemou-nos.



Aquilo que nos é dito por Jesus poderia resumir-se da seguinte maneira: faz o que é justo, vai pelo caminho da luz e nenhuma sombra te atingirá. Creio que nunca ninguém fez um convite tão radical ao nosso anseio de justiça



Ora, quando envelhecemos e nos aproximamos da morte, uma tristeza espessa, de chuva que cada vez mais chove, vai pingando, encharcando a nossa vida. Tudo se esboroa. Porque, de facto, usámos a nossa liberdade só superficialmente, só para o exercício de vários prazeres, sem que ela nos tenha servido para na verdade cumprirmos, realizarmos tudo o que éramos. E então, por ventura para que não se perceba a burla de que fomos objeto, enviam-nos para um lar, internam-nos em clínicas e hospitais que nos escondam de tal modo que os mais jovens possam vir a cometer o mesmo erro que nós cometemos.

A liberdade cristã nada tem que ver com isto. Em primeiro lugar, e ao contrário daquela que hoje a sociedade oferece, feita apenas das doçuras de si mesma, o livre arbítrio de Jesus possui dois rostos: um exaltante, de plena felicidade e confiança, e outro duro, difícil, potencialmente trágico. E isto desde logo nos diz que a liberdade que nos está a ser concedida é real, verdadeira. Não se trata de uma vigarice. Porque ser livre é a alegria disso, mas também o risco disso, e o cristianismo não nos quer enganar neste ponto.

Comecemos pelo lado solar, muito luminoso, entusiasmante. Com efeito, normalmente, o ser humano vai colecionando escravidões ao longo da sua vida: depende do seu posto de trabalho, por exemplo, o que significa sentir sobre si a espada de Dâmocles do seu chefe, da sua empresa. Depende ainda desse outro chefe que é o nosso corpo, que, com a má disposição das suas doenças, nos pode envenenar os dias. Muitas vezes, por causa da alcateia dos poderes sociais que nos cercam, fazemos coisas degradantes. Isto chega a um ponto tal que, em certas alturas, no nosso espelho matinal já só vemos a nossa caricatura.

E, para nos consolarmos desta ferida, deste rasgão na roupa da nossa dignidade, que pode ficar em farrapos, lá murmuramos: «É a vida...» ou «Tem de ser...». Na realidade, não se trata da vida, mas, sim, de uma morte à qual, se quisermos, podemos chamar «vidinha» porque se resume a uma existência que se agacha no diminutivo de si mesma. De idêntica maneira, o «tem de ser» fatalista está errado. Sobretudo porque, arrastados por estas dependências, fazemos coisas que sabemos muito bem serem injustas, atrozes mesmo.



Somos, portanto, livres, livres, livres perante qualquer poder social. E tão solto, tão alto é o nosso livre arbítrio, que nada se nos impõe, embora tudo se nos possa sugerir. Está de tal maneira radicado na fé este voo de andorinhas de sermos livres, que sempre que a Igreja deriva para cumplicidades com os tronos e as dominações fica longe de si mesma



Foi assim que os povos se conformaram com tantos regimes horrorosos, cuja ópera de crimes as pessoas sem dúvida ouviam, ainda que fosse em surdina. E foi assim que, em tantos lugares, em tantos momentos, houve gente que se reclinou respeitosamente diante do que era inaceitável. Inaceitável não por qualquer critério estritamente político, mas pela simples iniquidade intrínseca das situações: pelo sabor a mal que trazem consigo. E sempre que isto acontece, ficamos com uma mágoa: uma nódoa na alma difícil de tirar. De resto, não se pense que me refiro a situações do passado: pelo contrário, isto está a acontecer no nosso presente. O mundo contemporâneo transborda crueldades que buscam a nossa cumplicidade.

A proposta cristã, neste contexto, não pode deixar de ser fascinante e muito libertadora. Aquilo que nos é dito por Jesus poderia resumir-se da seguinte maneira: faz o que é justo, vai pelo caminho da luz e nenhuma sombra te atingirá. Creio que nunca ninguém fez um convite tão radical ao nosso anseio de justiça. Usando as próprias palavras de Cristo: «Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo» (Mt 6,33; Lc 12,31). Através da palavra «coisas», o Salvador refere-se aqui aos bens materiais que são um dos mais poderosos grilhões dos nossos dias, e um dos mais sólidos argumentos que justificam, nesse parlamento que todos temos na alma, as nossas escravaturas existenciais. Noutro momento afirma que nada devemos recear porque «até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados» (Mt 10,30; Lc 12,7; 21,18).

A partir deste ponto, o crente não depende de chefes, de empresas, nem do Estado. Não fica sob a alçada dos poderosos e influentes. Contudo, isto não acontece – de modo algum – para que faça o que lhe apeteça, mas, sim, para que atue com toda a correção. E eis que a nossa vida mudou por completo. Trata-se, porém, de uma alteração tão radical, que por vezes sentimos vertigens. Não seguir os ditames das grandezas sociais, das conveniências mais convenientes, assusta, confrange. Mas pouco a pouco, à medida que vamos sendo capazes da nossa dignidade, percebemos que Jesus tinha toda a razão: nada nos acontece, algo nos ampara nesse rumo que seguimos. E desde essa hora somos livres no sentido mais voado da palavra liberdade. De resto, este livre arbítrio, praticado em nome do bem e da justiça, uma vez aprendido, vai aumentando à medida que o exercemos, de tal modo que, em cada jornada que termina, ficou ainda mais livre a nossa liberdade.

Por causa desta liberdade perante o mundo, os cristãos foram capazes de coisas extraordinárias. Resistiram e resistem a todas perseguições. Fizeram frente a injustiças e morreram corajosamente por aquilo em que acreditavam. Na verdade, ainda hoje são muitos os que morrem assim. Num país apanhado numa teia de ódios, como é a Síria, os cristãos revelam a imensidão da liberdade que os habita, ao não recuarem perante rancores armados, torturas, barbaridades.



De aí que exista sempre quem intimamente preferisse um mundo controlado por Deus, que fosse como um comboio com uma linha e um horário, parando nas estações previstas e reduzindo a nossa ação a deixarmo-nos ir sentados na nossa carruagem. Seria mais cómodo. Seria, sobretudo, mais garantido



Somos, portanto, livres, livres, livres perante qualquer poder social. E tão solto, tão alto é o nosso livre arbítrio, que nada se nos impõe, embora tudo se nos possa sugerir. Está de tal maneira radicado na fé este voo de andorinhas de sermos livres, que sempre que a Igreja deriva para cumplicidades com os tronos e as dominações fica longe de si mesma. Sorriamos, portanto, porque Jesus nos libertou de todas as masmorras deste mundo.

Mas precisamente porque esta liberdade se perfila assim, como algo imenso, chegamos ao outro lado dela: a sua dimensão sombria, por vezes mesmo trágica. Com efeito, quem nos garante que vamos ser capazes de fazer as escolhas certas? Quando aparecer a encruzilhada de cada dia, de cada momento, como posso saber que vou seguir o rumo correto? É maravilhoso ser livre, mas bastante preocupante. Tudo podemos ganhar com a nossa liberdade, e tudo podemos perder. A liberdade maravilha, e assusta.

De aí que exista sempre quem intimamente preferisse um mundo controlado por Deus, que fosse como um comboio com uma linha e um horário, parando nas estações previstas e reduzindo a nossa ação a deixarmo-nos ir sentados na nossa carruagem. Seria mais cómodo. Seria, sobretudo, mais garantido. Mas o Senhor quis que cada um fosse o maquinista da locomotiva da sua vida. E pediu-nos mais: que construíssemos, dia a dia, a nossa própria linha de caminho de ferro, ou o nosso barco à vela, o nosso avião, a nossa nave espacial interestelar. Ora, esta liberdade seduz, mas também pesa.

Na verdade, estes dois lados do rosto do nosso livre arbítrio revelaram-se nessa hora dolorosa da Paixão de Jesus. Muitos dos poderes sociais daquele tempo se precipitaram sobre Ele e o cravaram numa cruz: o mesmo lenho em que tantas vezes a vida, comandada, em aparência, por essas dominações, nos prega a nós. Houve um momento em que se julgou que a luz que Cristo representava fora devorada por essa confabulação de sombras. Mas o Filho ressuscitou: ressuscitando, afirmou a nossa liberdade. Porque provou, de uma vez por todas, que não existe poder nenhum no mundo capaz de nos esmagar, de nos destruir se formos pelos caminhos do Senhor. A ressurreição de Cristo foi a maior porta que alguma vez se abriu à liberdade humana. Uma porta que não será fechada. O horizonte que patenteia é para sempre. (…)

Torna-se, pois, muito importante que esta liberdade seja um sorriso mais da nossa alegria. Recordemos o essencial dela: em nada dependemos do mundo, embora em tudo devamos ajudar os nossos irmãos. Nenhum poderoso nos segura no seu punho, visto que vamos pela vida abraçados a Deus. Por outro lado, este sermos livres não acontece apenas na relação com o exterior; também se dá no nosso íntimo, onde devemos ser capazes de tomar boas decisões. De facto, na nossa alma joga-se a complicada partida de xadrez da nossa liberdade.

Recuperemos, pois, o sentido místico, espiritual da carta de alforria que cada ser humano possui. Podemos apreciar e, sem dúvida, apreciamos a liberdade cívica, política. Mas somos livres sobretudo na infinita liberdade de Deus. Não é por acaso que um grande teólogo, José Ignacio González Faus, afirma que as duas palavras que mais se repetem nos Evangelhos são amor, no sentido de «saído das entranhas», e liberdade. Contudo, com as minúcias da erudição, acrescenta que o termo com o sentido de «liberdade» também poderá significar «autoridade». O que não se deve estranhar porque quem é livre manda na sua vida.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 15.03.2019

 

 

 
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