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A “biblioteca” do papa Francisco

Os oito anos de pontificado do papa Francisco, que se assinalam amanhã, 13 de março, podem analisar-se de muitas maneiras. Mas há um aspeto que é como uma varanda panorâmica debruçada para o seu magistério: as citações literárias disseminadas nos discursos, nas entrevistas e nos documentos. Pense-se, só para referir alguns exemplos, que na “Querida Amazónia” se faz referência a dezasseis autores, entre os quais Pablo Neruda, que na “Fratelli tutti” coexistem Vinícius de Moraes e Virgílio, que na “Amoris laetitia”, juntamente com Agostinho e Inácio de Loiola se encontram os sul-americanos Jorge Luis Borges, Octavio Paz e Mario Benedetti, cujos versos de amor, recomenda Bergoglio, deviam ser repetidos a cada dia num casal: «As tuas mãos são a minha carícia,/ o meu despertar diário/ (…) Se te amo, é porque és/ o meu amor, o meu cúmplice e tudo/ e na rua, lado a lado,/ somos muito mais que dois». Para o papa, com efeito, o ser humano «é um ser narrativo», e por isso um guia para aquela que alguém definiu «a biblioteca de Francisco» é útil também para voltar a percorrer os seus oito anos na cátedra de Pedro.

De resto, começou logo após ser eleito. Durante a primeira missa na capela Sistina disse, com as palavras do poeta francês Léon Bloy, «quem não reza ao Senhor, reza ao diabo». Desde então nunca mais parou, abraçando de Manzoni e Dostoievski a Hölderlin e Péguy, sem esquecer Dante, a quem prestou homenagem ao receber, em outubro passado, o arcebispo Lorenzo Ghizzoni e uma delegação da cidade de Ravena, para os 700 anos da morte do poeta.

 

Alessandro Manzoni e a misericórdia

Sem pretensões de exaustividade, pode, em todo o caso, fixar-se um ponto de partida e alguns percursos temáticos. O primeiro é incontornável: “Os noivos”, romance que o papa leu pelo menos três vezes e definiu como «um apêndice de Evangeljo». Os motivos são vários. A fé indefetível dos humildes como Lúcia (a «classe média da santidade», como diria Joseph Malêgue, outro autor querido ao pontífice), a história narrada desde a periferia, a visão de um Deus que – como a própria Lúcia recorda ao Inominado - «perdoa tantas coisas por uma obra de misericórdia», e também o tracejado de algumas figuras emblemáticas de pastores, aos quais voltaremos mais à frente. Tudo temas extremamente caros ao papa. Na catequese de 25 de maio de 2015, Francisco não hesitou em indicar em “Os noivos” como um guia para o noivado.

Nos antípodas do mundo de Manzoni, mas em função de singular complementaridade, enconrtamos Robert Hugh Benson, de “O senhor do mundo”, distopia escrita em 1907, na qual se imagina que a fé desaba sob os golpes da mundanidade, não por acaso estigmatizada desde a primeira homilia como pontífice. Por várias vezes o papa citou este romance como uma espécie de campainha de alarme para os cristãos do nosso tempo (assim como com a mesma intenção, num plano mais especificamente político, se referiu a “Sindrome 1933”, de Siegmund Ginzberg). Mais uma razão para insistir na «Igreja em saída» e na recusa do «sempre se fez assim».

 

Tolkien e a Igreja em saída

As referências literárias neste caso vão de Tolkien e Leopoldo Marechal à “Eneida”. Em relação ao primeiro é iluminador o que recordava há alguns anos o atual diretor do jornal “L’Osservatore Romano”, Andrea Monda. Numa homilia proferida em Buenos Aires, no ano de 2008, o cardeal Bergoglio falava do “hobbit” Frodo Baggins, que na “Trilogia do anel” «parte por fidelidade a uma vocação da qual não conhece nem os detalhes nem o resultado final». Um pouco como Abraão, cuja terra Francisco visitou há poucos dias. Ou como o próprio Eneias, o piedoso herói virgiliano, igualmente fiel até ao fim à sua missão.

Escreve o argentino Leopoldo Marechal no romance “Megafón ou a guerra”, narrado numa Buenos Aires das múltiplas periferias: «Tudo está em contínuo movimento no macrocosmo e no microcosmo, de um átomo à galáxia. O problema do homem não está no movimento, mas na quietude». Precisamente na homilia de 14 de março de 2013, o papa Bergoglio disse: «Quando nos detemos, algo está errado. Caminhar sempre, na presença do Senhor, procurando viver com aquela irrepreensibilidade que Deus pedia a Abraão». Poder-se-ia acrescentar “O divino impaciente”, drama sobre S. Francisco Xavier, de José María Pemán, citado a 31 de julho de 2013 na igreja de Santo Inácio, em Roma, como emblema do anseio de evangelizar sem hesitações e demoras. O mesmo anseio que alastra por todo o pontificado.

 

Pastores com odor da arte

Compreende-se assim também a função que Bergoglio confia à literatura e, mais em geral, à arte. Escreveu o P. Antonio Spadaro: «Não um laboratório de experimentação» nem «um círculo elitista», mas «fronteira avançada da comunidade». Uma visão que apela, por um lado, à metáfora do «hospital de campanha», por outro à religiosidade popular, que o papa absorveu desde pequeno, graças também à avó Rosa. Era ela que lhe ensinava as poesias em piemontês de Nino Costa (citado na visita a Turim, em 2015), e sempre como ato de homenagem a ela que aprendeu a gostar de Friedrich Hölderlin, em de maneira especial a lírica «de grande beleza» que o poeta alemão escrveu para o aniversário da sua avó. Por isso, acrescenta o religioso, o papa «ama a literatura e a arte não como um mundo à parte, pomposo, substancialmente burguês», mas «porque amplia a sua capacidade de fazer experiência e permite-lhe estar mais próximo a quem está efetivamente ao lado, compreendê-lo melhor». Pastor com o odor das ovelhas, também neste caso.

A propósito, é oportuno voltar a Manzoni. Entre os eclesiásticos do romance é natural que o preferido de Francisco seja o frei Cristóvão, «campeão de proximidade a todos, mas sobretudo aos mais pequenos, aos mais descartados, aos mais desesperados. E também a quantos se afastaram», como disse a 14 de setembro de 2018 aos Capuchinhos. E é igualmente óbvio que, como sublinhou no Angelus de 15 de março de 2020, «que em tempos de pandemia não se deve ser como “dom Abbondio”».

Mas há uma reflexão também sobre o cardeal Borromeu, igualmente de “Os noivos”, numa entrevista a Austen Ivereigh: «O cardeal Federico é um verdadeiro herói daquela peste em Milão. Num capítulo, todavia, diz-se que passava saudando as pessoas, mas fechado na liteira, talvez por trás da janelinha, para se proteger. O povo não ficava bem. O povo de Deus precisa que o pastor esteja junto dele, que não se proteja em demasia. Hoje o povo de Deus precisa de ter o pastor muito próximo. Precisamente o retrato de consagrado que agrada ao papa e que incarnou na sua vida.

 

Dostoievski e a carne dos pobres

Do mesmo modo na predileção por “Memórias do subsolo”, de Dostoievksi, se pode vislumbrar o amor preferencial pelos pobres. Explicou-o também na entrevista a Ivereigh: «Permito-me dar um conselho: é hora de descer aos subsolo e passar da sociedade “hipervirtualizada”, desencarnada, à carne sofredora do pobre, é uma conversão obrigatória. E se não começamos por aí, a conversão não terá futuro». Assim, não é possível não reconhecer «a cultura do encontro» e o magistério da “Fratelli tutti” nas referências aos poetas Clemente Rebora (veja-se o discurso ao Conselho da Europa) e John Donne («nenhum homem é uma ilha») e ao poema “Martín Fierro”, do argentino José Hernández, inclusivo para todos, do comerciante de Buenos Aires ao imigrado, passando pelo gaúcho do litoral.

 

Abrir processos com a literatura

Uma última anotação, na expetativa das próximas citações. Também com a leitura Francisco tende a abrir processos, mais do que a ocupar espaços. Pense-se no prefácio, assinado no início deste ano, de “Rime a sorpresa”, do jovem poeta italiano Luca Milanese, sinal de uma preferência pelo verde em crescimento, mais do que pelo usado seguro. Ou na visita à casa da escritora Edith Bruck, sobrevivente do Holocausto. E, sobretudo, volta à mente o episódio ligado à sua amizade com Borges, a quem fez ler as narrativas que tinha pedido aos seus alunos para escrever. Borges depois assinou o prefácio daquela recolha, e a experiência criativa teve grande importância no percurso sacerdotal do papa. No fundo é também assim que cresce a capacidade de discernimento de um pastor. E isso confirmou-se amplamente nestes oito anos.


 

Mimmo Muolo
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 12.03.2021

 

 
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