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A autêntica beleza precisa de relação e espanto

O latim “bellus” (belo), do qual deriva “beleza”, é diminutivo de uma forma antiga de “bónus” (bom), próximo do nosso “bonito”. Na cultura grega arcaica, a “beleza” (“kalokagathia”) indica o ideal de perfeição física e moral do ser humano. É concebida como um valor absoluto doado doado pelos deuses ao ser humano, e é frequentemente associada aos feitos de guerra do herói homérico e à sua audácia, bem como ao comportamento moralmente “bom”, e portanto capaz de provocar admiração e emulação. Como o herói que a incarna, a beleza – a verdadeira – é um mistério que tos alcança, envolve e transfigura. Se se tem coração e olhos para percecionar a sua presença, encontra-se na natureza não violada, no rosto de uma criança não abusada, nos olhos de uma mãe, nas mãos de um pai que trabalha, no bisturi de um cirurgião que opera, na mulher respeitada na sua feminilidade e na sua dignidade, no jovem que prepara com paixão o seu futuro.

Aqui habita e pede para ser reconhecida e encontrada a beleza. Mas ela deve poder encontrar morada também nas nossas cidades, porque «uma cidade má – repetia David Maria Turoldo – embrutece os homens». Assim como embrutece e empobrece uma igreja má, um governo mau, uma escola má. Antes e além que de ministros do culto, homens de governo, professores ou outros, o nosso mundo precisa de “diáconos da beleza”. «O que hoje nos ocorre é um sobressalto, um fascínio, um enamoramento, a emoção pela beleza encerrada no fragmento» (A. Casati). A verdade sem beleza é gélida, é teorema, é asserção doutrinal, não faz estremecer o coração. O próprio bem e a virtude, sem beleza, tornam-se pesados, acabam por sufocar. Sem beleza, a vida reduz-se a vazia teatralidade, a coreografia perfeita mas sem alma: palavras proclamadas, cantos bradados, gestos repetidos. Sem olhos que perscrutam e coração que bate, não há beleza.

«A beleza é para os buscadores de fissuras, de limiares secretos, de fios quase invisíveis. Limiares não tanto a transpor com alma predatória, mas sobre os quais permanecer, deles entrevendo e experimentando emoção, comoção. A beleza é para os buscadores de um outro, esses que resistiram à sedução da quantidade, da grandeza exterior, da exibição» (A. Casati). Quantidade, grandeza exterior e exibição são os verdadeiros inimigos da beleza que gera vida. Não fazem parte do pavimento de que é calcetada a via do amor para o belo. Constituem, antes, a antecâmara da solidão, ou melhor, do isolamento que marca, por vezes de maneira obsessiva, a vida de quem é incapaz de caminhar pelo percurso marcado já ao início pela história da humanidade. Quanto desvelo divino naquele «não é coisa boa que o homem esteja só» (Génesis 2,18) e no ter posto Eva junto a Adão! Este dom autoriza-nos a tornar a expressão «não é coisa boa que o homem esteja só» em «não há beleza onde não há relação».



«É preciso irradiar a beleza daquilo que é verdadeiro e justo na vida, porque só esta beleza arrebata verdadeiramente os corações e os dirige a Deus»



Em resumo, depois ou junto à dupla belo/bom, capaz de gerar vida, mas exposta ao egoísmo divisivo e predatório do ser humano, há outra dupla que torna possível e fecunda a beleza. É a dupla beleza/relação. Essa mesma relação que, desde as primeiras páginas da Bíblia, parece estar tanto no coração do Criador. Deus plasma do solo toda a espécie de animais e condu-los para o homem, para ver como ele os nomearia, mas entre os animais não encontra uma ajuda para o homem, então «formou com a costela, que tinha tirado ao homem, uma mulher, e a conduz ao homem» (Génesis 2,22).

A narrativa bíblica não tem o propósito de desvelar-nos a origem científica da mulher; antes, pretende entregar-nos uma mensagem bem mais importante. Pretende revelar-nos quem é a mulher, de que riqueza a sua beleza é portadora para a vida do homem, e qual é o seu lugar numa criação que, no próprio Deus, despertou espanto e maravilha. O sentido da narrativa bíblica é que o homem e a mulher contribuem para a harmonia e beleza do projeto divino quando estão um diante da outra com toda a riqueza daquela expressão, que continua a mobilizar os estudiosos da Bíblia: «Não é bem que o homem esteja só: quero fazer-lhe uma ajuda que lhe corresponda» (Génesis 2,18).

A tradução grega dos Setenta apresenta o excerto de formas diferentes: quero fazer-lhe «uma ajuda diante dele», «uma ajuda semelhante a ele», «um apoio diante dele», «alguém como ele que o ajude», «ajuda a ele correspondente». Suscita muito interesse em mim a tradução hebraica com «quero fazer-lhe uma ajuda para ele contra ele», com o acrescento do comentário: «Se o homem o merece, é uma ajuda, de outra maneira é contra ele» (“Geneses Rabbah”, comentário judaico ao livro do Génesis). Após a iniciativa de Deus, começa o desafio para o homem e para a mulher: viver o outro/a e a sua beleza como dom a quem, por sua vez, doar-se, ou transformar o outro ou a outra de dom a presa sobre a qual se apõe o selo de propriedade mortificante e exclusiva. Esta segunda possibilidade destrói a relação entre a mulher e o homem, e torna-os cegos perante cada expressão de beleza de que o outro ou a outra é portador/a.



A educação para o belo é muito mais do que educação para a estética. É, essencialmente, educação para a relação, para o maravilhamento e para o espanto. Com as pessoas, com a Criação e com tudo aquilo que nos rodeia



O próprio significado do corpo, lugar da relação, é desfigurado e traído todas as vezes em que se torna mercadoria, transformado para nosso prazer e privado da possibilidade de se exprimir e fazer-se portador da beleza que o caracteriza. «É preciso irradiar a beleza daquilo que é verdadeiro e justo na vida, porque só esta beleza arrebata verdadeiramente os corações e os dirige a Deus», é a tarefa que nos foi confiada pelo cardeal Carlo Maria Martini. Irradiar beleza é, obviamente, totalmente diferente de reduzir a beleza a instrumento, para que eu diga sim a um produto, a uma ideia, a um projeto. A beleza, neste caso, é instrumento de sedução, útil para empurrar-me em direção a qualquer coisa, que não é necessariamente boa e verdadeira.

Destaca-se, assim, a unidade entre aquilo que é belo, bom e verdadeiro. A beleza torna-se só um elemento do mercado. Diante da traição da ideia de belo e da beleza, e perante uma beleza cada vez menos percecionada como dom ao qual corresponder, sem a explorar e desfigurar, emerge a necessidade de assumir a educação para o belo e para a beleza como bem a perseguir, e não como bem a possuir. Uma beleza que, também graças ao empenho de cada um de nós, pode continuar a dar e a ser geradora. Quanto a mim, a educação para o belo é muito mais do que educação para a estética. É, essencialmente, educação para a relação, para o maravilhamento e para o espanto. Com as pessoas, com a Criação e com tudo aquilo que nos rodeia.


 

D. Nunzio Galantino
In Avvenire
Imagem: vvoevale/Bigstock.com
Publicado em 26.10.2020

 

 
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