

No regresso de uma reportagem na Sìria que custou a vida ao seu amigo fotógrafo, Jacques é solicitado pelo Vaticano para participar num inquérito canónico sobre a aparição da Virgem Maria à jovem Anna. Numa encenação palpitante em forma suspense, Xavier Gianolli assina um filme que interroga a fé com o respeito de um buscador do invisível.
O objeto do filme é passível de muitos escolhos: caricatura da administração do Vaticano, idealização hagiográfica da jovem visionária, troçar da fé nas suas manifestações ingénuas… O cineasta evita-os, conduzindo habilmente a sua barca, aguilhoado por um questionamento cuja acuidade se deve à sinceridade da sua procura espiritual.
O interesse de Gianolli pelo tema é duplo: por um lado, mostrar a repercussão de um tal acontecimento e a maneira como a Igreja católica o acolhe; por outro, aprofundar os desafios psicológicos e espirituais que as pessoas confrontadas com aquele género de situação irracional.
A personagem de Jacques, espécie de alter ego do realizador, dirige a inquirição enquanto jornalista habitado por um profundo desejo de verdade humana, e Vincent Lindon é convincente no papel. À sua volta, os comportamentos são variados mas igualmente pertinentes, do padre cuja fé precisa de voltar a ser aquecida ao fogo ardente de Anna, passando pelo falsário que a análise científica confundirá.
Quanto à atitude prudente da comissão canónica (a Igreja preferirá sempre assumir o risco de passar ao lado de um verdadeiro fenómeno do que reconhecer uma impostura), sente-se que tem a aprovação do realizador.
Em seis capítulos, o espetador descobre aos poucos a personalidade de Anna, a quem a jovem atriz Galatéa Bellugi empresta um rosto que irradia pureza e inocência. Jacques procura no seu passado e esforça-se por encontrar outra jovem, Méryem, amiga de infância de Anna cujo desaparecimento o intriga.
Para além da dimensão dramática, este frente a frente dá-nos a ver duas atitudes crentes, igualmente sinceras: a oblação mística de Anna e o compromisso ao serviço do pobre de Méryem.
O filme começa na Síria e termina no imenso campo de refugiados de Zaatari, na Jordânia: regresso à realidade após um longo desvio que iluminou o mistério das consciências, sinal de que o realizador não escolheu o tema do filme para nos fazer escapar dos questionamentos do nosso mundo em sofrimento, mas para tentar propor-lhe um sentido.
A encenação é a de um tríler cujas reviravoltas ultrapassam por vezes a verosimilhança, mas que importa! Nos nossos olhos guardaremos as plumas brancas que voam no mosteiro, símbolo de beleza e pureza, e o gesto de Jacques que coloca um joelho por terra para depositar no limiar de uma capela perdida no deserto árabe um pobre ícone resgatado à loucura da guerra.
Antes da data prevista para a projeção no circuito comercial, o filme integra a programação da 19.ª Festa do Cinema Francês, que decorre entre hoje e 14 de outubro, em Lisboa, seguindo depois para mais dez cidades até novembro. "A aparição" pode ser visto esta sexta-feira, 5 de outubro, às 21h30, nos cinemas UCI - El Corte Inglés.