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A Anunciada na arte

É bela, está maravilhada. Parece grande, embora seja de média dimensão. É a “Anunciada”, de Antonello de Messina, definida como «uma das obras mais sedutoras de toda a história da arte». A sua veste deixa a descoberto uma pequena parte do peito, que ela, no entanto, se apressa a cobrir; o vestido apenas se entrevê. A mão direita está inclinada para a frente; o crítico Roberto Langhi define-a «a mais bela [mão] que eu conheço na arte».

A pintura, realizada em 1465, encontra-se normalmente em Palermo, na galeria do palácio Abatellis. Atualmente, até 2 de junho, está exposta no palácio real de Milão. Há também outra “Anunciada” do mesmo artista, em Munique. Aqui, o aspeto dela é o de uma jovem repleta de admiração, com a boca semiaberta a indicar a maravilha.

Diferentemente de dezenas, talvez de centenas, de outros pintores, Antonello não retrata a cena da Anunciação, mas coloca em relevo Maria e aprofunda a sua atitude. A Virgem, apanhada de surpresa, está inicialmente incrédula, como dizem as suas próprias palavras, transmitidas no Evangelho de Lucas: «Como é possível? Não conheço homem». O anjo responde: «O Espírito Santo descerá sobre ti, sobre ti estenderá a sua sombra o poder do Altíssimo».

Em ambas as pinturas diante da Virgem está um livro aberto, mas só no de Palermo se lê a letra “M”, inicial do Magnificat. Na narrativa evangélica, no entanto, as palavras de Maria são diferentes da do cântico. Ela diz: «Eis-me, sou a serva do Senhor, aconteça em mim o que disseste». Antonello não faz compreender este discurso, mas detém-se no instante do espanto, quase que a fazer dele um instantâneo. O manto de cor azul escuro enquadra o rosto de Maria, sereno na pintura de Palermo, espantado no de Munique.



Imagem Antonello de Messina


Nos séculos seguintes as Anunciações multiplicam-se: parece quase que todos os grandes pintores tenham querido cimentar-se com o tema, compreendendo-lhe a importância, o significado profundo. Entre os máximos da Idade Média citemos Ambrogio Lorenzetti, Simone Martini e Giotto. Entre os do Renascimento avultam o Beato Angélico, Piero della Francesca, Pinturicchio, Leonardo e o sumo Rafael.

A figura de Maria é por vezes a da simples jovem, mas mais frequentemente a da rainha. A acentuar esta característica, o anjo está habitualmente genufletido diante dela, reconhecendo na criatura humana que tem à sua frente a futura “Rainha dos Ceús, Senhora dos Anjos”.

Aquele rosto, onde o sorriso aflora como uma tomada de posse, por Domenico Bigordi, dito o Ghirlandaio, insere-se no ambiente doméstico. Ele pinta a casa repleta de objetos, que significam o amor pelas coisas e as pessoas. Com efeito, Ghirlandaio é um pintor que ama a casa como forma de posse, como propriedade de muitas coisas. Na cozinha, por exemplo, é possível ver os pratos, os frascos, as balanças e os objetos amados. É um pintor que narra com uma grande forma de amor a atmosfera do lar, demonstrando assim a sua participação na vida da casa.



Imagem Robert Campin


A tendência a inserir o grande acontecimento da Anunciação num cuidado ambiente doméstico é ainda mais manifesto na pintura nórdica. Aqui chega-se ao extremo oposto: no tríptico “Merode”, de Robert Campin, datado de 1427, a cena decorre num interior burguês, desenhado com extremo cuidado e atenção aos detalhes do quotidiano». Maria, sentada por terra por humildade, está a ler um livro devocional e nem sequer se dá conta da chegada do anjo. O único símbolo é o perfilar-se de um minúsculo Menino Jesus, ao alto, no fundo.

Maneiras diferentes de interpretar o mesmo acontecimento. A quente visão mediterrânica de Antonello, que penetra na alma de Maria quase a sondar-lhe os sentimentos, e o distanciamento nórdico de Campin, que tende para a simples narração do facto.

Jesus incarnou-se por todos os seres humanos, nas diferentes culturas, que os estilos da arte espelham.


 

Paola Cerami
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 26.03.2019

 

 
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