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A angústia de Deus em humana carne

Em Lucas 22, 42, encontramos o momento literalmente decisivo para a humanidade crente em Cristo e no que Cristo significa. Todos os outros atos – presentes em todos os Evangelistas, sinópticos ou idioópticos – apenas por meio deste especialíssimo ato ganham sentido definitivo. Este sentido definitivo corresponde ao absoluto de possibilidade ontológica que geralmente recebe o nome de «salvação».

Esta «salvação» significa, primeiro, a possibilidade de perenidade eterna, em Deus, do ser humano, em sua plena forma real espiritualizada (de que o corpo, também como forma, faz parte), depois, esta perenificação como ato de ontológico bem. Não basta a ‘eternização’ do ser humano para que este seja ‘salvo’. Uma perenificação segundo o sofrimento e a dor, segundo a angústia da manifesta ausência de sentido – de Deus como «o sentido» –, é precisamente o que se dá a conhecer imageticamente no mito do inferno (mito em seu sentido forte, não em comum redução positivista); tal perenificação é a antítese da «salvação».

Segundo este último modelo, não há «salvação». No entanto, a um nível muito mais profundo, e porque tudo se joga precisamente na antítese ontológica entre o eterno infinito em ato e o absoluto do nada, ainda que em restrição de «nada-pessoal» (o ‘meu’ possível nada; o nada possível de mim), mesmo que o que de mim sobra seja algo como o absoluto da dor e do sofrimento, no sentido da ausência de Deus (sem-sentido absoluto), porque, literalmente, isso que sobra não é nada, quer dizer, ainda é algo, tal supera, na dor e no sofrimento, isso que ‘é’ o nada, também nada de dor e de sofrimento.



A resposta/não-resposta do Pai permite ao Filho toda a liberdade. Então, permanecendo a angústia, que permanece até ao último suspiro, a pergunta permanece também, competindo a quem pergunta responder



Sem ironia, dada a grandeza antropológica do que aqui se tange, pode dizer-se, sendo cartesianamente fiel, que, no exemplo de dor dado, «se sofro, logo, existo». Existo apenas como sofredor, mas existo. O absoluto de mim como ato próprio e irredutível, ainda que como exclusivo ato de dor e sofrimento, é; intransitivamente é. Há um eu que é puro sofrimento: todavia, tal é indiscernível de haver um eu.

Para quem pense que o que acabou de se escrever é meramente especulativo, lembra-se que houve e há, neste preciso tempo nosso, milhões de seres humanos cuja vida, existência, pouco mais foi, pouco mais é, do que um ato de sofrimento, talvez sem qualquer luz de esperança, sendo, assim, já ‘neste mundo’, indiscernível de um inferno. Este último, claramente, não-mítico.

Percebido o que acabou de ser dito, intui-se melhor o que Lucas narra em 22, 42. Sabendo o que o esperava em termos de escolha e seus imediatos e mediatos resultados, o Homem-Deus/Deus-Homem, Jesus, em ato de sofrimento, sofrimento tanto maior quanto a inteligência própria de quem sofre, porque sabe melhor isso por que sofre e para que sofre, solicita a intervenção do Pai.

«Pater, ei boulei parenegke touto to poterion ap’emou; plen me to thelema mou alla to son ginestho», «Pai, se queres, afasta este cálice de mim; todavia, não a vontade minha, mas a tua se faça».



Esta terrível cena, em que o drama humano atinge o seu auge de angústia, de cujo desfecho tudo o mais depende, funciona como paradigma, não apenas teológico, mas antropológico universal, para isso que é o ato de escolha, de que depende sempre quer isso que é o possível futuro de quem escolhe quer, em e por cada escolha, o futuro do mundo



Os amantes do poder pelo poder, facilmente se projetam sobre este pedido e nele percebem uma luta entre vontades. Ora, não se trata de uma luta entre vontades, mas da expressão da angústia humana vivida ao nível em que apenas a perfeição divina do Homem pode estar: a morte, o que significa em termos de cessação do movimento mundano, a morte como negação do mundo, do mundo a que se veio como meio de reencontro com a pureza da possibilidade do sentido – sentido possivelmente divino como absoluto de bem dado e a fazer; mundo dado para o bem e em bem a construir-se –, morte como culminar de uma vida de amor que se sabe irá ser mundanamente terminada em excruciante dor e sofrimento.

Nesta inteligente fragilidade, atinge a humanidade a sua maior grandeza, grandeza de isso que intui o absoluto da diferença entre ser e não-ser no mundo e do mundo.

Quem quer, em absoluto, não ser? Quem quer, em absoluto, sofrer para acabar em não-ser? Apenas o Homem pode querer tal. Apenas o Homem pode desejar que tal não aconteça.

Todavia, não o pode querer. A morte é independente, em última instância, da vontade humana. E ainda bem que é, sob pena de todos os candidatos a tiranos se poderem eternizar, impassíveis de morte porque assim a sua vontade o determinou.

No entanto, na grandeza própria da sua presença – que se pode negar, assim a eliminando –, Jesus pode querer não morrer. É o único que tal pode.



Ninguém vai escolher por mim, porque ninguém pode escolher por mim, nesta que é a mais profunda semelhança entre mim e o Jesus que se fez Cristo ao querer ir para o encontro possível com a morte



Então, a questão, na verdade, não é tão dirigida ao Pai quanto a si próprio: que pode o Pai responder, que não arruíne todo o drama da presença de Jesus no mundo? A resposta que Deus, o Pai, dá a Deus, o Filho, é a única logicamente possível e compatível com isso que é a presença voluntária, necessariamente voluntária, de Deus no mundo, na Pessoa do Filho: resposta nenhuma, que é resposta plena do sentido de absoluta liberdade humana.

A resposta/não-resposta do Pai permite ao Filho toda a liberdade. Então, permanecendo a angústia, que permanece até ao último suspiro, a pergunta permanece também, competindo a quem pergunta responder.

Ora, esta resposta já não é da ordem da palavra, mas de um outro «logos», o sentido do ato realizado com a mediação, com a linguagem da carne: é em carne que Jesus, o Cristo, responde, pondo-se a caminho da morte, possível fim humano de tudo, possível princípio divino e humano de tudo.

Esta terrível cena, em que o drama humano atinge o seu auge de angústia, de cujo desfecho tudo o mais depende, funciona como paradigma, não apenas teológico, mas antropológico universal, para isso que é o ato de escolha, de que depende sempre quer isso que é o possível futuro de quem escolhe quer, em e por cada escolha, o futuro do mundo, numa imbricação de escolhas que constitui o tecido ontológico do mundo humano.

E eu, que escolho?

Ninguém vai escolher por mim, porque ninguém pode escolher por mim, nesta que é a mais profunda semelhança entre mim e o Jesus que se fez Cristo ao querer ir para o encontro possível com a morte.

Assim se pode morrer quotidianamente para o mal; assim se pode nascer quotidianamente para o bem.

Santos passos pascais,


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Marc Chagall
Publicado em 26.03.2021

 

 
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