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A ambulância literária

«É possível que eu me esteja a transformar num ser humano», afirma a protagonista de “The uncommon reader”, de Alan Bennett, depois de ter descoberto as alegrias da leitura. Como que a dizer que os livros, e portanto as palavras, podem curar, produzir mudanças positivas, salvar. De tudo isto, além da simpática rainha inglesa tracejada no pequeno volume citado, está também convicto o italiano Cono Cinquemani, nascido em 1980, autor e realizador, para além de fundador do Pronto-Socorro Literário, que desde 2017 permanece em itinerância.

«O que faço, juntamente com outros voluntários, é deslocar-me a todas aquelas realidades periféricas que, em Itália, não têm nem biblioteca nem livraria.» O objetivo é devorar quilómetros a bordo da ambulância literária (um utilitário branco), para levar, aos lugares privados de espaços culturais, livros e, sobretudo, palavras.

O Pronto-Socorro Literário desloca-se de norte a sul, e quando chega ao local programado é como se desse vista a hospitais de campanha. Os voluntários, vestidos de médicos, propõem aos pacientes literários cartões, nos quais é possível assinalar uma de cinco emoções ou personalidade (ciúme, tristeza, ira, stress, timidez). No seguimento desta triagem, prescrevem, mediante uma “receita”, um livro, que pode ser um clássico ou uma novidade.

Trata-se de uma experiência está a alcançar sucesso, conseguindo, entre outros feitos, avançar não só entre os jovens – crianças e adolescentes –, como também nos adultos, que se deixam guiar neste percurso empático, de cura, de possibilidade de renascimento.



Os livros maioritariamente prescritos? «Seguramente “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott, um ótimo romance para combater a tristeza, com o exemplo das irmãs March, as quais conseguem superá-la, fazendo forças das suas “fraquezas”»



«Eu, com o Pronto-Socorro Literário, não inventei nada de novo; as bibliotecas itinerantes remontam ao século XIX. Mas ao adentrar-me no mundo editorial, na sequência da publicação do meu primeiro livro, fiquei perturbado pela descoberta que no nosso território são 687 as vilas ou povoações sem o letreiro de uma livraria ou um cartaz que conduza a uma biblioteca pública. Em resumo, nasce desta exigência, e depois também do estudo da metodologia relativa à biblioterapia, o meu desejo de dar vida àquilo que podemos definir muito propriamente como um serviço», explica Cinquemani.

Um serviço, sim, um serviço para a comunidade, para quem está à procura de palavras para definir as suas emoções; palavras para dar um nome àquilo que se experimenta, para encontrar conforto, remédio, solução, mas também para rasgar o manto de solidão que tantas vezes envolve os habitantes destes lugares.

«Não nos detivemos nem sequer durante os vários confinamentos devidos ao coronavírus; no sentido que, não nos podendo deslocar para outras cidades e regiões, diariamente, três vezes por dia, a rede social do projeto Lab5 dirigiu-se aos mais pequenos, através de leituras de fábulas de Gianni Rodari», assinala.

Com as primeiras reaberturas, o Pronto-Socorro Literário voltou à estrada, de encontro aos seus pacientes. Os livros maioritariamente prescritos? «Seguramente “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott, um ótimo romance para combater a tristeza, com o exemplo das irmãs March, as quais conseguem superá-la, fazendo forças das suas “fraquezas”; depois, entre os volumes mais aconselhados, em situação de stress, está sem dúvida “À espera no centeio”, de Salinger: aos adolescentes fazemos compreender que Caulfield passou por certas situações de dificuldade, tendo conseguido concretizar uma espécie de revolução interior.»



«Os nossos conselhos de leitura não têm prazo de validade, assim como as palavras não têm prazo de validade; e, de resto, precisamos de palavras para narrar o que nos rodeia e para nos narrarmos, para nos compreendermos e para comunicar»



Para os que marcaram o quadradinho da timidez, a prescrição propõe muitas vezes Giacomo Leopardi, «tímido por antonomásia, e é como se, através das palavras, nos livros do grande poeta de Recanati as pessoas desenvolvessem uma espécie de vizinhança, compreendendo que não estão sós». Também acontece que, com frequência, graças a colaborações com bibliotecas ou editoras, os livros são fornecidos diretamente pelo Pronto-Socorro Literário.

«Estamos convictos de que o livro certo lido no momento certo salva-te de algo, até de ti mesmo. Por isso, plenamente conscientes da importância das palavras, não temos intenções de nos determos: continuaremos a assinar milhares de receitas literárias e a confrontarmo-nos com centenas de pessoas de todas as idades, realizando também projetos paralelos (os itinerários literários são disso exemplo oportuno) do ponto de vista editorial, prosseguindo com as iniciativas do Lab5, que abarcam também a filosofia e a educação ambiental», refere Cinquemani.

«Os nossos conselhos de leitura não têm prazo de validade, assim como as palavras não têm prazo de validade; e, de resto, precisamos de palavras para narrar o que nos rodeia e para nos narrarmos, para nos compreendermos e para comunicar.» É com as palavras – neste caso dos livros e de quem os escreveu –, com as palavras belas a contrapor aos gestos que por vezes se traduzem em violência, que não só se pode enfrentar o velho problema de como permanecer humanos, mas também e sobretudo o de como cada pessoa se tornar ela própria e abrir-se ao outro. É a lição do Pronto-Socorro Literário.


 

Enrica Riera
In L'Osservatore Romano
Imagem: D.R.
Publicado em 17.02.2022

 

 
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