Como se representa o mistério? Acercamo-nos dele às apalpadelas, conscientes de que os nossos pensamentos, as nossas palavras, as nossas imagens vacilam e conseguem apenas entrever-lhe, pobremente, a realidade.
Mas esta nossa tentativa de aproximação constitui, em todo o caso, um importante património de fé. Pensemos em Andrei Rublev: estamos na segunda metade do século XV quando ele cria aquele que será o mais célebre ícone da Trindade.
O texto bíblico subjacente (Génesis 18,1-15) é o da hospitalidade que Abraão oferece às três personagens celestes que o visitam. Na contemplação deste extraordinário ícone da Trindade, o orante é conduzido ao centro do mistério de Deus.
Com efeito, o que na pintura é focalizado é o Deus único, um só Deus com a mesma natureza divina em três pessoas. Os traços fisionómicos coincidem exatamente, como se fosse a mesma figura mostrada por três vezes, ainda que em três posições diferentes.
As personagens têm o mesmo rosto, a mesma atitude do corpo, as mesmas asas. Além disso, todas têm um cetro na mão e possuem uma auréola para indicar igual dignidade e realeza.
Cada personagem, no entanto, ocupa uma posição diferente no espaço, e são diferentes os gestos, as cores das vestes e o jogo dos olhares. O Pai, de quem provém toda a bênção, olha para a humanidade através do Filho. E o Filho olha para nós através do Espírito Santo.
Rublev