

Santa Maria della Pace
A relação da Igreja com os artistas está bem documentada. A crescente autonomia e secularização dos meios artísticos, particularmente nos últimos duzentos anos, correspondeu – nos meios eclesiásticos – a um crescente desinteresse pelo múnus querigmático da arte.
Na vida da Igreja, em lato sensu e salvo honrosíssimas exceções, a arte passou para o domínio da gestão do património e da museologia.
Entre arrufos e reencontros, certas clivagens condicionaram posições como a de Gottfried Benn, que afirmou que «Deus é um mau princípio estilístico. Quando alguém se torna religioso, isso fatalmente abranda a sua expressividade». Não significa que a arte tenha abdicado da transcendência; abdicou apenas da Igreja. Tornou-se – em muitos contextos – uma alternativa «laica» aos tradicionais domínios da espiritualidade cristã, lugar de convergência de propostas no âmbito da «meta-religião», da «crença substituta» [expressões de George Steiner], reflexo – por um lado – de uma persistente nostalgia de absoluto e – por outro lado – de uma relação legitimamente difícil com a Igreja nas suas estâncias clericais.
Noutra perspetiva, apesar da revalorização da estética teológica nos meios eclesiais desde meados do século XX, a experiência religiosa de abertura à transcendência, nas suas múltiplas expressões, considera ainda que a arte é prescindível e meramente instrumental; admite-a, mas não sem suspeição; procura regulá-la, domesticá-la; e considera-a teologicamente pouco profunda e teologalmente pouco comprometida.
Com mais ou menos paternalismo, antes e depois do II Concílio do Vaticano, a Igreja promoveu uma reflexão com o intuito de perceber e corrigir as dimensões do fosso que a separava dos meios artísticos. Na encíclica Mediator Dei [1947], Pio XII evitou uma atitude refratária e propôs uma reaproximação prudente.
Passados uns anos, em 1961, João XXIII arriscou afirmar que a arte cristã tem um carácter quase sacramental, «como veículo e instrumento de que o Senhor se serve para nos dispor aos prodígios da graça».
No contexto do Concílio, o capítulo VII da constituição Sacrosantum Concilium refletiu sobre a arte cristã, não arriscando muito mais do que Pio XII arriscara. Ainda assim, foi afirmado que a Igreja deve considerar e aceitar historicamente os paradigmas artísticos, do mesmo modo que deve ser exigente e criteriosa no sentido de não aprovar expressões artísticas medíocres. Afirmações como estas permitiram acolher e possibilitar o desenvolvimento de inúmeras correntes renovadoras.
Paulo VI, em 1964, admitiu que a Igreja se tinha lamentavelmente desinteressado dos meios artísticos, tinha limitado a criatividade daqueles que se mantiveram na comunidade eclesial e tinha sido responsável por um afastamento que resultou num mau serviço à arte, à beleza e à liturgia.
É justo reconhecer que, na sequência do Concílio, foi percorrido um caminho de reaproximação e que essa reaproximação não foi inconsequente. Importa, no entanto, passados mais de cinquenta anos, promover uma profunda reflexão sobre o estado das coisas, à luz da Carta aos Artistas que João Paulo II escreveu em 1999 e do encontro que, passados dez anos, Bento XVI promoveu com artistas de todo o mundo na Capela Sistina.
Fotografia: © Filipe Monteiro
Esta reflexão foi motivada por um desenho de Rodolfo Silva: Santa Maria della Pace.
Há uns anos, quando lecionava na Escola das Artes, no Centro Regional do Porto da Universidade Católica, entre outros alunos inesquecíveis, conheci o Rodolfo Silva: culto, interessadíssimo, sempre carregado com pastas e papéis, tão empenhado na formação académica, como na formação artística, no atelier de Daniel Gamelas, no Porto.
A sua obra incide no desenho de representação e interpretação da figura humana. Frequentou a Florence Academy of Art, como bolseiro dessa prestigiada academia, e tem complementado a sua formação com reconhecidos artistas, como é o caso de Patrick Byrnes, Anthony Baus, Savanah Tate Cuff e Glenn Vilppu.
Em 2019, pedi-lhe que concebesse uma representação de Santa Maria da Paz, em referência à igreja de Santa Maria della Pace, onde preferencialmente me silencio nas minhas estadas em Roma.
"Santa Maria della Pace" | Rodolfo Silva | Fevereiro 2020
"Santa Maria della Pace" | Rodolfo Silva | Junho 2020
Partilho aqui a arte de Rodolfo Silva, não apenas com o propósito de divulgá-la, mas porque acredito que só convocando e investindo nas novas gerações de artistas, podemos redescobrir a necessidade do múnus querigmático da arte. Sabemos que é muito importante a gestão do património. Sabemos também o quanto é importante o investimento no âmbito da conservação e restauro desse património. Mas não podemos investir mais em restauradores do que em artistas, porque guardar o passado – à luz do Evangelho – não pode ser maior do que guardar o futuro.