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Jesus «Super-homem» e «Homem-aranha»: A incredulidade diante do escândalo da incarnação

O escândalo” do nascimento de Jesus, decorrente da sua incarnação – o facto de Ele, Filho de Deus, ter assumido a natureza humana – foi muitas vezes difícil de aceitar, e até negado, ao longo da história da Igreja, tornando-se ponto de partida para heresias, bem como maneiras de pensar e entender a fé cristã, que hoje, embora assumindo diferentes modalidades, permanecem. O teólogo italiano Gianluca De Candia esclarece alguns equívocos.

 

Comecemos por Maria…

Nada é mais real do que Maria de Nazaré. Há uma grandíssima realidade que dá pontapés no seu seio de carne. Erraremos se pensarmos que devemos traduzir a conceção virginal de Jesus numa metáfora. E entre as formas teológicas que procuraram fazer isto há a antiga perspetiva de uma conceção “per aurem”, uma conceção através da escuta. Há anos encontrei uma ilustração da anunciação [do anjo] em que Maria lê o Antigo Testamento, e quando se coloca à escuta de Deus é-lhe insuflado, através de um tubo, o Menino Jesus, o Verbo “belo e pronto”, que da boca do Pai chega diretamente à orelha da Virgem. Maria aparece aí como a contentora servil do “Lógos” – e por isso o papa Bento XIV proibirá esse tipo de representações.

É evidente que durante demasiado tempo Nossa Senhora realizou uma função meramente instrumental, como a de uma santinha, ou foi rechaçada para um capítulo marginal da dogmática, daqueles que se podem ler com os olhos entreabertos, ou até saltar por cima.

 

Porque é que Maria é tão importante no plano teológico?

Não é suficiente pensar a incarnação só como a manifestação de Deus, e a teologia aprendeu-o. Porque o risco de limitar tudo a mera representação está à espreita. E, consequentemente, o corpo do Menino em Belém, o corpo martirizado na cruz, deposto e ressuscitado, torna-se apenas um holograma.

Quando os estudantes me perguntam para resumir, numa imagem, as discussões cristológicas [sobre Cristo] dos primeiros anos, respondo com um exemplo que talvez o faça rir.

 

Estou pronto a correr o risco…

Gosto de recorrer a duas imagens que, de resto, correspondem a um sentimento que hoje está bastante espalhado. Digo que a identidade do Deus-Homem foi pensada ou como a do “Homem-Aranha” ou como a do “Super-homem”. O “Homem-Aranha” era um homem normal, que depois de ter sido picado por uma aranha, sofre uma transformação surpreendente. Analogamente, muitos pensam que Jesus foi um homem, um homem excecional, decerto, que a certo ponto da sua vida foi “adotado” por Deus (é a velha heresia do adocionismo).

Depois há o segundo modelo, que pensa Jesus como um “Super-Homem”, como um ser que não nasceu na Terra, mas que veio de outro planeta, e que agiu com superpoderes (como quer a heresia docetista).

Em ambos os casos, eliminam violentamente o “escândalo” da incarnação. No Natal é preciso meditar neste mistério, e Maria é quem nos provoca a desatar os dois reducionismos. Evidentemente, se ela não é uma mulher real, que realmente concebeu na sua carne o Filho de Deus, também Jesus não é um homem real. A arte figurativa ocidental foi a única a ter defendido este protagonismo de Nossa Senhora.

 

Afirma que o maior feito de Miriam não foi a fuga para o Egito, nem o parto de fortuna num estábulo, mas o assistir ao lento emergir do homem Jesus, de quem ela própria aprendia a descobrir-se filha. Porquê?

Jesus não é um meteorito que se precipitou sobre a Terra, mas tornou-se historicamente aquilo que foi desde sempre: Ele cresceu na consciência da sua identidade de Messias, de ser o Filho de Deus – imaginemos, então, a sua mãe!

Desde os anos do grande silêncio em Nazaré, ambos tiveram de aprender a natureza do mistério que o envolvia. Para Maria tratou-se, antes de mais, de um mistério doloroso, porque a distanciamento do “Lógos” do seio do Pai teve de imprimir-se também na sua vida de mulher, na renúncia aos seus projetos de vida com José, e no afastamento do filho.

Desde o dia da anunciação até a 7 de abril do ano 30 da nossa era, Maria pôs-se à escuta daquela voz silenciosa, aprendeu o que significa fazer a vontade do Outro. E consentiu nesse risco não com o espírito condescendente de uma submissa, mas com apaixonada participação. É isso que a tornou «filha do seu Filho», como diz Dante, ou seja, incarnou a mesma liberdade de Jesus, uma medida de liberdade que nos arranca do nosso minúsculo eu, porque se exprime no fazer-se dom de si.

 

Maria não confiou, desde logo, no Eterno?

Confiar-se a Deus é um risco, é aceitar aquilo que não se deixa compreender imediatamente. O evangelista Lucas repete que Maria «meditava no seu coração». O verbo grego significa “colocar em conjunto”. Isto quer dizer que Maria escolheu obedecer a acontecimentos que não se encaixavam imediatamente, ordenou peças esparsas de uma verdade maior. É preciso uma grande força de alma para fazer este exercício.

De resto, cada vez que o Filho se lhe dirige, a palavra nos Evangelhos é sempre para lhe “negar” algo, como aquele «não sabias?», quando tinha doze anos; ou como quando, em Caná, responde: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo?». E de cada vez Maria tem de decifrar o segredo dessas palavras e aprender a reagir aos aparentes “não” de Deus – muito mais do que compreender tudo, porque Ele responde sempre, mas a seu modo.

 

Qual é o possível futuro e cumprimento do cristianismo na sociedade?

Alan de Lille (c. 1120-1203) redigiu um hino, a meu ver extraordinário e comovente, em que declara a incarnação do Verbo como algo que não é compreensível através das sete artes liberais. As estrofes declinam, progressivamente, a união do Verbo divino com a natureza humana segundo as regras da gramática, retórica, aritmética, música, geometria, dialética e astronomia, e concluem-se sempre com a mesma frese: “In hac Verbi copula stupet omnis regula” (cada regra olha atónita o Verbo assim composto).

Creio que hoje, mais que nunca, precisamos de declinar o cristianismo na linguagem daquelas que são as “artes liberais” do nosso tempo, e de as levar ao máximo da tensão e contradição. Trata-se, em definitivo, de nos reapropriarmos da Palavra e das práticas de Jesus para além daquela irritante retórica dos pregadores baratos que ao dizer «amor» ou «comunidade» ou «perdão» ou «Natal» não sabem realmente do que falam, não só porque não transportam na sua carne os estigmas teológicos daquelas palavras, como não se preocupam em estudar-lhes o peso antropológico, filosófico, psicológico, sociológico, político, económico.

O cristianismo terá um advento e um natal na Europa se souber ser apresentado como uma coisa séria, como desafio para a nossa inteligência e oportunidade para a nossa liberdade.


 

In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 21.12.2020

 

 
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