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Jesus ressuscitado por amor

Escrevia Máximo o Confessor, grande teólogo bizantino do século VII: «Aquele que conhece o mistério da ressurreição, conhece o sentido das coisas, conhece o fim para o qual Deus desde o princípio criou tudo». Na sequência desta penetrante observação que diz respeito ao acontecimento central do cristianismo, o que é específico da fé cristã, é útil colocar-se uma simples pergunta: porque é que Deus ressuscitou da morte?

Seria demasiado apressado responder que Ele ressuscitou porque era Filho de Deus, portanto estava na ordem normal das coisas. Resposta verdadeira mas parcial. Por outro lado, também não é suficiente ler a ressurreição como o milagre dos milagres: essa interpretação contém certamente uma verdade, porque a ressurreição é o inaudito nesta Terra, é aquilo que contradiz a certeza universal segundo a qual a morte é a última palavra sobre a vida humana. Mas na minha perspetiva, é ainda uma explicação insuficiente…

Procuremos, portanto, fazer um percurso mais aprofundado. No Antigo Testamento a morte é o sinal por excelência da fragilidade humana. Cada um traz dentro de si «o sentido do eterno», a ânsia de eternidade, e todavia é obrigado a constatar a inexorável presença da morte como aquilo que se opõe fortemente à sua vida.

Com um olhar naturalista, pode ainda admitir-se que a finitude humana é, de alguma forma, uma necessidade biológica, como o é para toda a criatura; mas essa justificação não extingue dentro de nós o sentimento de que a morte, precisamente por não permitir que algo de nós permaneça para sempre, ameaça fortemente o sentido da nossa vida: a morte e a suma injustiça! Cada ser humano, «debaixo do Sol», encontra sentido na medida em que sabe viver dos gestos que permanecem no tempo: mas se tudo passa, se tudo acaba com a morte, que sentido tem a nossa existência?



Uma leitura inteligente dos Evangelhos, e depois de todo o Novo Testamento, conduz à conclusão de que Ele ressuscitou porque a sua vida foi ágape, foi amor vivido para os outros e para Deus até ao extremo



Aqui entra em jogo a reflexão humaníssima que cada homem e cada mulher fazem desde sempre e em todas as culturas: viver é amar. Todos os seres humanos percecionam que a realidade indigna da morte por excelência é o amor. Quando, com efeito, chegamos a dizer a alguém «amo-te», isso equivale a dizer «eu quero que tu vivas para sempre». Pode parecer banal repeti-lo, e todavia permanece verdadeiro: a nossa vida encontra sentido apenas na experiência do amar e do ser-se amado, e todos estamos à procura de um amor com os traços de eternidade.

A graça de um livro com o Cântico dos Cânticos colocado no coração das Sagradas Escrituras consiste precisamente no facto de que nele se fala do início ao fim de amor, de amor humano. Na conclusão do livro, lê-se uma afirmação extraordinária; a amada diz ao amado: «Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão; os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas» (8,6).

Aqui se chega a uma consciência presente em numerosas culturas, que sempre percecionaram uma ligação entre amor e morte (pense-se apenas no célebre binómio grego “eros”-“thánatos”). A Bíblia, com o seu canto, ilustra-nos que amor e morte são os dois inimigos por excelência: não a vida e a morte, mas o amor e a morte! A morte, que tudo devora, que vence inclusive a vida, encontra no amor um inimigo capaz de resistir-lhe, até a derrotar. Por outras palavras, se é verdade que o Antigo Testamento não tem páginas claras sobre a ressurreição dos mortos, no seu coração está, no entanto, a consciência de que o amor pode combater a morte. E isto não é pouco!

Tendo presente este horizonte, podemos regressar à nossa pergunta: por que é que Jesus ressuscitou da morte? Uma leitura inteligente dos Evangelhos, e depois de todo o Novo Testamento, conduz à conclusão de que Ele ressuscitou porque a sua vida foi ágape, foi amor vivido para os outros e para Deus até ao extremo: «Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim», para retomar o versículo joanino que abre a narração da última ceia, marcada pelo gesto do lava-pés.



Com a sua vida e a sua morte, Jesus mostrou ter uma razão pela qual morrer e, portanto, uma razão pela qual viver: o amor pelos outros, vivido quotidianamente e com simplicidade, gratuitamente e livremente, esse amor que não pode morrer!



Jesus foi ressuscitado por Deus em resposta à vida que viveu, ao seu modo de viver no amor até ao extremo: poderemos dizer que foi o seu amor mais forte do que a morte – amor ensinado aos discípulos ao longo da sua vida (com toda a sua vida!), e depois condensado no novo mandamento: «Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei» - a causar a decisão do Pai de chamá-lo da morte à vida plena.

Dito de outra maneira: se Jesus foi o amor, como podia ficar contido no túmulo. É esta a pergunta que se esconde por trás das palavras pronunciadas por Pedro no dia de Pentecostes: «Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte, pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte»… Como era possível que o amor permanecesse presa dos infernos? Verdadeiramente, a ressurreição de Jesus é o selo que Deus colocou na sua vida: ressuscitando-o dos mortos, Deus declarou que Jesus era verdadeiramente a sua narração, e manifestou que no amor vivido por aquele homem foi dito todo o essencial para o conhecer.

É nesta ótica que podemos compreender também o caminho histórico realizado pelos discípulos para chegar à fé em Jesus ressuscitado e Senhor. O que aconteceu na aurora pascal, na aurora daquele «primeiro dia após o sábado»? Algumas mulheres e depois alguns homens, discípulas e discípulos de Jesus, foram ter ao sepulcro e encontraram-no vazio: enquanto ainda estavam perturbados por esta novidade inaudita, tiveram um encontro na fé com o Ressuscitado, próximo do túmulo, na estrada entre Jerusalém e Emaús, nas margens do lago de Tiberíades… E é significativo que Jesus não lhes tenha aparecido fulgurante de luz, mas que seja apresentado com traços humaníssimos: um jardineiro, um viandante, um pescador.

Além disso, Ele manifestou-se na forma com que ao longo da sua existência tinha narrado a possibilidade do amor. Por isso, Maria de Magdala, ouvindo-se chamada pelo nome com amor, responde logo: «“Rabbuni”, meu mestre!»; os discípulos de Emaus reconhecem Jesus ao partir do pão, ou seja, no sinal recapitulador de uma vida oferecida para todos; o discípulo amado, que o reconhece presente na margem do lago de Tiberíades, grita a Pedro: «É o Senhor!». Em síntese, a vida de Jesus foi reconhecida como um amor transparente, pleno, e aqueles que o viram viver e morrer dessa maneira acreditaram na força do amor mais forte do que a morte, até confessar que com a sua vida Ele tinha verdadeiramente narrado que «Deus é amor».



O único preço que o cristianismo nos pede para ser vivido e compreendido em profundidade é o do amor. Isto é, somos chamados a imergirmo-nos no amor de Deus, esse amor de cujo cânone, regra e forma é o amor de Cristo, que gastou dia após dia a vida pelos outros: então a nossa vida poderá ter um sentido, uma direção, um sabor



Iluminados por esta consciência, os discípulos realizaram depois um caminho inverso, que os conduziu a recordar, narrar e por fim inscrever nos Evangelhos a vida de Jesus nos caminhos da Galileia e da Judeia. Compreenderam que Jesus tinha narrado o amor de Deus com as suas palavras, com a sua maneira de estar no meio dos outros, de encontrar os doentes e os marginalizados, de perdoar a mulher adúltera, de aceitar o gesto de amor da pecadora, de chamar Judas de «amigo», precisamente quando por sua culpa era preso…

E depois de ter narrado esse amor durante toda vida – até dizer, na cruz, «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» –, poderia ficar prisioneiro da morte? Com a sua vida e a sua morte, Jesus mostrou ter uma razão pela qual morrer e, portanto, uma razão pela qual viver: o amor pelos outros, vivido quotidianamente e com simplicidade, gratuitamente e livremente, esse amor que não pode morrer!

Sim, o único preço que o cristianismo nos pede para ser vivido e compreendido em profundidade é o do amor. Isto é, somos chamados a imergirmo-nos no amor de Deus, esse amor de cujo cânone, regra e forma é o amor de Cristo, que gastou dia após dia a vida pelos outros: então a nossa vida poderá ter um sentido, uma direção, um sabor… É por isso que quando somos incapazes de esperar na ressurreição, é porque na verdade não acreditamos que o amor possa ter a última palavra: acreditar e esperar a ressurreição é uma questão de amor, porque só o amor provocou a ressurreição de Jesus.

Forte como a morte é só o amor, mais forte do que a morte foi o amor vivido por Jesus Cristo: é isto que nós, cristãos, deveremos anunciar, com humildade e discrição, a todos os homens e mulheres. Afirmar simplesmente que «Jesus ressuscitou» é uma bela notícia, mas demasiado breve para ser verdadeiramente Evangelho para todos os seres humanos: como poderemos vê-la? Talvez inclusive os não crentes estejam interessados em percorrer um caminho no qual se parta do pressuposto de que o amor é capaz de combater a morte, até vencê-la.

Eis o sentido profundo da ressurreição de Jesus, eis como este acontecimento pode falar a todos os nossos irmãos e irmãs em humanidade.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: James Turrell | D.R.
Publicado em 15.04.2019

 

 
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