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Deus dos silêncios e das longas gestações

Hoje, mais que nunca, é importante mudar o conceito de Deus, que ao longo dos séculos fizemos falar, dando-lhe formas que só exprimiam os nossos desejos: «Ezequiel – o Senhor dirigiu-me a palavra –, denuncia abertamente aqueles que se creem profetas em Israel e profetizam segundo os seus desejos…» (Ezequiel 13, 1). Trata-se de repensar a conceção de Deus, sempre representado como alguém que está no alto e que nos está a ver. (…)

Deus não está em silêncio, fala através de diversas vozes, factos, acontecimentos, e nós não estamos habituados a darmo-nos conta daquilo que está a suceder à nossa volta, dentro de nós. Ao longo da história Ele falou e fala através dos profetas, daqueles que sabem compreender o seu tempo. Os sinais dos tempos são importantes.

Deixámo-nos de habituar ao silêncio. O ser humano contemporâneo cai numa inquietação. Está habituado ao ruido de fundo permanente, que o torna doente e o sossega, e sem ele parece perdido. Um rumor que se torna como droga e torna a pessoa dependente em todos os sentidos.



«Quem é capaz não só de gritar/ mas também de escutar/, entende a resposta./ Esta resposta é o silêncio./ É o silêncio eterno./ Quem é capaz não só de escutar,/ mas também de amar,/ entende este silêncio/ como a palavra de Deus»



Deus, então, torna-se difícil de compreender; antes, queremos defini-lo e pensá-lo como uma entidade que vê, que escuta os nossos lamentos, as nossas perguntas, as nossas necessidades. Escutar Deus significa pormo-nos perguntas sobre nós próprios, sobre o planeta, sobre a sociedade, para que o todo tenha um sentido, para que o todo encontre um equilíbrio.

Deus permanece mudo para quem não o sabe escutar. Devíamos tornar a fazer a experiência de Elias, que foge para o monte, exausto das suas experiências e do povo, onde compreendeu quem era Deus, não aquele que faz ruído, vento impetuoso, tempestade, terramoto, mas apenas brisa ligeira que só quem se põe à escuta é capaz de escutar.

Fascinou-me sempre aquele Deus que não quer ensurdecer-nos no fragor do terramoto ou cegar-nos no relâmpago; escolhe revelar-se no sussurro do vento: «Após o fulgor houve o murmúrio de um vento ligeiro» (1 Reis 19, 12). Sim, é no silêncio que o profeta reconhece o Deus que lhe fala. Para mais, o silêncio é a palavra que Deus nos dirige, secreta palavra de amor; assim intui Simone Weil:

«Quem é capaz não só de gritar/ mas também de escutar/, entende a resposta./ Esta resposta é o silêncio./ É o silêncio eterno./ Quem é capaz não só de escutar,/ mas também de amar,/ entende este silêncio/ como a palavra de Deus./ As criaturas falam com sons./ A palavra de Deus é silêncio./ A secreta palavra de amor de Deus/ não pode ser outra coisa a não ser silêncio».



Estou persuadido que este é o dever do padre: dar aos irmãos um alimento sólido, e sobretudo construir comunidades que repartam apenas do Evangelho, comunidades onde também o ministério é pensado e vivido de maneira totalmente diferente: onde o padre não seja o gestor do sagrado, mas o irmão entre irmãos, um mendicante de luz como todos



É tudo menos fácil confiar Deus definitivamente ao silêncio. Todavia, este é o ponto culminante da nossa fé em Deus, «irredutível a uma mitologia entre as outras» (Ch. Theobald). Porém, é uma situação arriscada. E o risco, ou melhor, a tentação, é de preencher o vazio que deriva do silêncio com uma presença substitutiva, e inevitavelmente ilusória. É o risco que corre a Igreja, as Igrejas, os padres.

«Por vezes o vazio não é ausência, mas antes longa gestação. Para os parâmetros do eu, a gestação é sempre excessivamente longa. Mas para os parâmetros da alma, os tempos da espera e da elaboração interior que precede a evidência exterior são sempre aqueles que devem ser» (C. Pinkola Estés).

Como padre, acredito num Deus frágil e pequeno que se manifesta na cruz como um desesperado que morre sozinho; mas acredito também num Deus que te estende a mão quando caminhas no escuro e que nunca te larga, porque te é pai e te repete: «Não temas: Eu estou aqui contigo» (Isaías 41, 10).

Estou persuadido que este é o dever do padre: dar aos irmãos um alimento sólido, e sobretudo construir comunidades que repartam apenas do Evangelho, comunidades onde também o ministério é pensado e vivido de maneira totalmente diferente: onde o padre não seja o gestor do sagrado, mas o irmão entre irmãos, um mendicante de luz como todos: um batizado que parte a Palavra e o pão, mas inserido concretamente na vida dos homens e das mulheres do seu tempo, com tudo o que isso comporta. Será uma utopia, um sonho? A mim agrada-me sonhar e agrada-me empenhar-me para ser um padre homem e humano, e não um administrador do sagrado.

Entretanto, façamos também desta situação pandémica, precisamente porque crítica, uma “longa gestação” de uma nova realidade de vida pessoal e de história comunitária, de modo a podermos repensar e crescer naquela humanidade desposada e abençoada pelo Deus em que continuamos a acreditar.


 

Domenico Marrone
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Mihailo K/Bigstock.com
Publicado em 19.05.2021

 

 
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