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450º Aniversário da Fundação do Seminário Conciliar de Braga

Os edifícios passam, a cruz e os desafios permanecem

Para trás ficaram Merano e Bolzano. Colinas e colinas de macieiras alinhavam, pelo centro, rápido e verde, o itinerário. Mais de dezoito mil hectares. Abraçados por vinhedos, lembravam versos de um cântico de cânticos. E começámos a associá-las a um rito de aproximação. Miguel Neto abria as ruas. Pedro ajustava as lentes escuras a precaver-se da luz. João Carlos, que meditava na incerteza dos calções, acolitava o Pe. Juvenal. Ao lado, os jogadores do Torino demoravam-se nas fachadas. E, nas pedras, viam fintas e trabalho de grupo. Onde está a cruz?, perguntam os diáconos. Não se via. Ah! Está ali por detrás dos andaimes! Eis o sinal que logo ocorreu: a Igreja continua, como na catedral de Trento e sempre, em obras. Todavia, a cruz permanece!



Imagem «Como a macieira entre as árvores do bosque» | © Joaquim Félix


Diante dessa cruz, no dia 15 de julho de 1563, os padres conciliares decidiram, pelo decreto Cum Adolescentium Aetas, que as dioceses deveriam construir Seminários para a formação inicial dos clérigos. São Bartolomeu dos Mártires, que se distinguira nas sessões conciliares pela crítica profética, a favor da reforma da Igreja em sintonia com o Evangelho de Jesus, logo se empenhou a edificar um Seminário em Braga. Não foi tarefa fácil. Mas, vencidas as resistências, o Seminário Conciliar de S. Pedro começou a construir-se em 1571. Ainda inacabado, recebeu os primeiros alunos em 1572. Situava-se no Campo da Vinha. O edifício é identificável nos mapas antigos de Braga, no de 1594, conhecido por ‘Mapa de Gerog Braun’, e no ‘Mapa da Cidade de Braga Primas’, desenhado por André Soares, provavelmente em 1756. Desse edifício pode ver-se, em ilustrações antigas, a fachada principal. Encimava a porta principal uma epigrafia com a menção do fundador, Bartolomeu dos Mártires, do decreto tridentino para a criação dos Seminários, e a data de 1572, ano do início da sua atividade. Tal inscrição distribui-se em duas lápides. Neste momento, encontram-se apeadas no jardim do antigo paço episcopal.



Imagem Retrato coevo do Arcebispo S. Bartolomeu dos Mártires, pintado por António Maciel | Galeria dos Arcebispos de Braga | © Rui Ferreira

Imagem Uma das lápides que encimava a porta do Seminário Conciliar de S. Pedro | Jardim do antigo Paço Arquiepiscopal | © Joaquim Félix


Em 1881, por iniciativa de D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa, o Seminário transferiu-se para o Colégio de S. Paulo. E passa a denominar-se Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo. Do primeiro edifício, mais tarde demolido, transitam peças para a nova sede, entre outras, a porta, que é integrada na fachada do Colégio. Desloca-se assim a portaria para o Campo de Santiago.

Instaurada a República e a ‘Lei da Separação’, o edifício do Seminário é convertido em quartel para o Regimento de Infantaria 29. Depois de passar por diversas casas, constrói-se um novo edifício, na rua de Santa Margarida, aberto em 1934. Mais tarde, em 1948, os militares saíram do edifício do Campo de Santiago, do qual se fez o ‘auto de cessação’ e transmissão do património para a Diocese. Nessa altura, subdivide-se a comunidade do Seminário: os alunos de teologia continuam no edifício de Santa Margarida, os de filosofia passam para ‘Santiago’.



Imagem Regresso do Regimento de Infantaria 29 ao Seminário Conciliar no Campo de Santiago. Povo assistindo à sua chegada | Illustração Catholica, nº 15. Braga, 11 de outubro de 1913 | © D.R.


Em 1975, foi necessário dar apoio aos portugueses voltaram das ‘colónias’ ultramarinas. Em gesto de genuína hospitalidade, a Diocese disponibiliza o Seminário de Santiago. Para libertar a casa, reintegram-se os alunos no Seminário de Santa Margaria. Os ‘retornados’ permanecem no Seminário até 1985. À sua saída, o edifício encontrava-se em más condições de habitabilidade.



Imagem Seminário Conciliar, da rua de Santa Margarida| © Joaquim Félix


Depois de maturada a ponderação, pareceu melhor fazer obras e adequar o edifício para a toda a comunidade do Seminário Conciliar. Os primeiros alunos transferem-se para as renovadas instalações, em 1995, inauguradas a 17 de dezembro por D. Eurico Dias Nogueira. No ano seguinte, fazem o mesmo os demais. A igreja de S. Paulo, também em avançado estado de degradação, seria reabilitada no ano 2000. E, em 2011, constrói-se a capela Árvore da Vida, premiada pelo ArchDaily com o prémio para melhor arquitetura religiosa. Enfim, o Seminário Conciliar é uma obra inacabada. A cruz, porém, permanece por trás do toldo dos tempos.



Imagem Dedicação da Capela Árvore da Vida, 20.10.2011 | © Marta Santos


Programa das comemorações

No dia 4 de outubro, realizou-se na igreja de S. Paulo, em Braga (Largo de S. Paulo), o primeiro concerto comemorativo do 450º aniversário da fundação do Seminário Conciliar de Braga. Foi interpretado pelo organista André Bandeira, no órgão de tubos construído por Manuel de Sá Couto, em 1832, cujo restauro filológico se concretizou, em 2017, pela empresa organeira italiana Giovanni Pradella Bottega Organara.

Nesse dia, D. Jorge Ortiga, na qualidade de primeiro responsável na formação dos candidatos aos ministérios ordenados, fez uma breve alocução, apontando o horizonte das comemorações, que deveriam, segundo ele, ser mais do que um «mero chronos». Antes, deveria constituir-se como um «autêntico kairós». O desafio seria ultrapassar a lógica dos ‘eventos’, para, como dinamismo kairológico, «interpretar processos».

Processos estes que, segundo ele, devem inscrever-se na sequência e dinamismo sinodal, que está já a ser praticado. As suas palavras são claras: «O único processo a interpretar é o sinodal. A sinodalidade não é metodologia ou estratégia. É escuta do Espírito por aquilo que ele quer dizer à Igreja através de cada pessoa. Ora, trata-se do discernir no Espírito o Seminário de hoje e para hoje. É escuta aberta. Há muitos documentos onde o Espírito fala. Mas a partir deles pode haver intuições novas. (…) Há um esquema de um Seminário. A tradição não pode ser negligenciada. Sabemos o que se pretende, os caminhos podem ser diferentes. Ser Seminário Conciliar é honra que não pode entrincheirar-se em esquemas que podem estar anquilosados. Aí se joga o novo jeito de ser padre hoje.»

Insistindo na valorização do enquadramento das comemorações no contexto da prática sinodal, interpela-nos a todos a cuidar da reflexão sobre os seminários, sobretudo num momento em que precisam urgentemente de mudanças profundas: «A celebração destes 450 anos do Seminário Conciliar acontece num momento em que a Igreja quer tomar consciência, com tudo o que isso implica, da sinodalidade como constitutiva do seu ser agir. Nenhuma pessoa ou instituição deve pretender caminhar sozinha. Somos um corpo interdependente. Trata-se de revigorar a consciência dum seminário que não é só lugar de formação, que deve ser cuidada pelas equipas formadoras e convenientemente aproveitado pelos seminaristas, mas graça para toda a Igreja Arquidiocesana, a acompanhar, conhecer e, sobretudo, amar. Os seminários podem ter menos seminaristas, mas pertencem a todos. Descurá-los é condicionar o presente e o futuro da Igreja.»



Imagem Programa das Comemorações | © Seminário Conciliar de Braga


Por conseguinte, as comemorações dos 450 anos da fundação do Seminário Conciliar de Braga prosseguirão, ao longo do ano de 2022, com outros concertos, celebrações, artigos na imprensa (v.g. doze artigos no jornal Diário do Minho, da autoria de Rui Ferreira) e publicações, um congresso, exposições, um ciclo de cinema e atividades de dinamização da pastoral vocacional. Além dos antigos alunos, nas efemérides, serão envolvidas as instituições eclesiais, académicas (em particular da Universidade Católica Portuguesa) e da sociedade, a fim de se dignificar uma das mais emblemáticas obras de S. Bartolomeu dos Mártires, fundador do seminário.

No congresso, que será de âmbito internacional, procurar-se-á fazer um balanço histórico do modelo dominante durante séculos, mas trabalhando a historiografia voltada para a dimensão mais reflexiva, que permita problematizar e refletir sobre os desafios que atualmente se colocam. O que hoje já não mais fará sentido nos seminários? Será oportuno investir numa ‘destotalização’ do seminário, segundo os modelos de ‘separação’, articulada com outros contextos de formação? De que modo superar a polemizante ‘dialética dos modelos’? Que contextos e referências para, com avaliação e competências, evitar o que sucedeu com experiências conhecidas que faliram? Quais são os principais pilares da formação nas ‘boas práticas’? Que requisitos para a formação, no ambiente da sociedade secularizada, tendo em conta a dimensão basilar, a humana, e as outras dimensões específicas? Mais: se vivemos num tempo em que as estruturas eclesiais comunitárias (famílias, paróquias, movimentos eclesiais, etc.) se encontram em crise, como implementar, sinodalmente, o serviço dos ministérios eclesiais na sua relação intrínseca ao serviço do Povo de Deus e do mundo? Que relações se têm promovido entre os seminários e as culturas juvenis? Com o massivo afastamento eclesial dos jovens, que portas abrir para os ministérios ordenados? Como interpretar hoje a ‘secularidade’ (o serviço no mundo) dos padres diocesanos? Que peso terão as questões disciplinares e como, na fidelidade ao Espírito, se poderá ser responsorial segundo as exigências do Evangelho de Jesus neste tempo? Em que medida os seminários são ‘lugares habitáveis’, do ponto de vista da higiene das linguagens e vivências (até da hospitalidade à marca do tempo), e das espiritualidades? Que relação, na cooperação e autonomia, com a academia? Quais as conceções de ‘pastoral das vocações’ que se praticam, e com que bases se aprofunda o ‘discernimento’? Como se está a cuidar a fase de ‘transição’ do seminário para as primeiras experiências apostólicas? De que modo se potencia, eclesial e socialmente, o serviço dos ‘ex-seminaristas’?

Estas e outras questões serão debatidas durante o congresso, que não esquecerá um outro, também ele internacional, que se realizou em 2010, sobre do Presbítero, «À escuta da Palavra», cujas atas, estudos (coletivos, de especialistas e grupos laicais) e conclusões foram publicados pela Paulinas Editora. Promover-se-á, bem assim, uma análise interdisciplinar da obra «Transparências. Jovens e a arte de discernir», publicada igualmente pela Paulinas Editora em 2016. Mais informações serão fornecidas ao longo do ano, para que os interessados possam participar presencialmente ou, na eventual impossibilidade, aceder à reflexão que se virá a produzir.

O programa das comemorações contará com outros momentos de reflexão e fruição, de natureza cultural e vocacional. Aproveitem! Consultem, se desejarem, o Programa e sigam o Facebook ‘Faz Sentido’ dos Seminários Arquidiocesanos de Braga.



 

Joaquim Félix
Imagem de topo: Goldquest/Bigstock.com
Publicado em 23.12.2021

 

 

 
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