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Polifonias para a glória de Deus

Polifonias para a glória de Deus

Imagem Bruce Springsteen | D.R.

Como é sabido, "culto" e "cultura" têm a mesma matriz filológica e, um pouco livremente, poder-se-ia dizer que o "cultivo" comum deveria ser a beleza. Ora, uma das manifestações supremas do belo explode na música, onde humano e divino se cruzam. O famoso doutor Schweitzer, que era um importante teólogo e um grande filantropo, mas também um excelente organista, no seu ensaio sobre Bach citava esta instrução que aquele sumo compositor endereçava aos alunos sobre a maneira de executar o baixo contínuo, ou seja, a linha mais grave da composição, destinada a reger os acordes dos instrumentos mais "polifónicos": «Deve-se produzir uma harmonia eufónica para a glória de Deus ou para o deleite da mente. Como para toda a música, o fim e a causa final deverão ser a glória de Deus e a recriação da mente». É evidente como Bach liga o louvor do culto (no topo das suas partituras colocava a sigla SDG, isto é, Soli Deo Gloria) e o prazer estético cultural.

Na semana passada, no Vaticano, realizou-se um congresso internacional, repleto de participantes, que quis fazer o ponto da situação sobre meio século de música litúrgica, a partir precisamente da única instrução eclesial universal, a "Musicam sacram", de 1967, logo após o Concílio Vaticano II, tendo-se procurado evitar os justificados mas estéreis lamentos e as tímidas tentativas de apologia. O título do convénio foi "Música e Igreja: culto e cultura". As vozes dos intervenientes, e sobretudo dos relatores provenientes de todo o mundo (não faltava, naturalmente, o testemunho luterano, dado que a Reforma protestante, eliminando ou, pelo menos, obscurecendo as artes figurativas, se confiou prevalentemente à linguagem musical, como precisamente atesta Bach), serão objeto de verificação no corpo vivo da Igreja e, espera-se, de algum renascimento e até, em mais de um caso, de resipiscência.



Naturalmente, a harmonia da música não consegue elevar-se sobre o clamor, o fracasso, o discurso fútil que geram perversão e mal. Em certos períodos, porém, deixavam-se intactos muitos oásis de beleza: pensemos apenas no século XVIII de Mozart



Não queremos nem podemos agora espremer o suco daquelas jornadas que, a par da necessária tutela da grandiosa e suntuosa herança do passado, optaram por estimular um diálogo com as novas gramáticas musicais, sem prejuízo da conotação específica que tem o ato litúrgico. Aliás, a coragem de dialogar com a novidade e até com a praça por parte da harmonia sacral do templo foi muitas vezes a linha condutora da música litúrgica. Só para dar um exemplo, pense-se na perturbação que deveria criar a sobreposição progressiva da puríssima monódia do gregoriano por parte da polifonia, com a sua simultaneidade de vozes e sons dotados de uma distinta individualidade. E todavia nasceram obras-primas, como a "Missa papae Marcelli" ou o "Sicut cervos", de Palestrina, só para invocar um exemplo evidente. E o mesmo pode repetir-se para a música barroca.

Um desfecho que não marcou apenas o culto mas também a cultura, se é verdade aquilo que em "Lágrimas e santos" (1937) escrevia o ateu Emil Cioran: «Quando escutardes Bach, vereis nascer Deus (...). Depois de uma sua oratória, uma cantata, uma Paixão, Deus deve existir (...). E pensar que tantos teólogos e filósofos desperdiçaram noites e dias a procurar provas da existência de Deus, esquecendo a única!». Mas já no século VI um escritor latino como Cassiodoro não hesitava em advertir, na vertente mais ética, que «se continuarmos a cometer injustiça, Deus deixar-nos-á sem a música».



Não nos forçamos logo ao desconcerto de um rap dos Public Enemy, dos Ice-T, Puff Daddy, ou ao "heavy metal" e ao vários filões do "hard" ou do "punk" rock. Há já, com efeito, "clássicos" inclusive na contemporaneidade musical. Naturalmente só a evocamos agora do ponto de vista do encontro entre música e espiritualidade, e então bastaria apenas citar o inesquecível Leonard Cohen



Naturalmente, a harmonia da música não consegue elevar-se sobre o clamor, o fracasso, o discurso fútil que geram perversão e mal. Em certos períodos, porém, deixavam-se intactos muitos oásis de beleza: pensemos apenas no século XVIII de Mozart. A propósito, é de assinalar uma deliciosa "execução" ensaística a quatro mãos entre uma conhecida musicista, a francesa Claire Coleman, e o teólogo argentino Fernando Ortega. O título do livro é um pouco banal, "Com Mozart", o subtítulo é retórico, "Uma experiência do humano", mas felizmente o conteúdo é muito original. Dizendo em poucas palavras, é uma releitura das jóias compostas pelo génio de Salsburgo entre 1781 e 1781 - "Idomeneo", "Rapto do serralho", "Bodas de Figaro", "Don Giovanni", "Così fan tutte" e "Flauta mágica" -, distribuindo-as sobre uma dupla escansão da trilogia de Dante de inferno, purgatório e paraíso. Falávamos de um duplo itinerário, um como expressão da "humana comédia", com as primeiras três obras, o outro com a "divina comédia", que do paraíso com um salto transcendente posterior introduz o Reino, ou seja, no coração do próprio Deus. E aqui, contrariamente àquilo que eu próprio teria especulado, o sétimo e último círculo transcendente é confiado não ao "Requiem" mas à "Clemência de Tito". Ler para crer, e para partilhar (ao menos) esta e outras propostas interpretativas oferecidas num percurso talvez heterodoxo mas sugestivo.

Mas neste ponto das esferas celestes descemos à acidentada superfície da nossa contemporaneidade, onde o ouvido treinado às harmonias supremas e celestiais de um Bach ou de um Mozart pode encontrar-se desnorteado e ensurdecido (é curioso que "absurdo" derive de "surdo"...). Na verdade, cada época recriou, regenerou e chegou mesmo a degenerar os códigos harmónicos segundo novas e inéditas sintaxes. E então procuramos adaptar o ouvido aos modernos diferentes comprimentos de onda. Não nos forçamos logo ao desconcerto de um rap dos Public Enemy, dos Ice-T, Puff Daddy, ou ao "heavy metal" e ao vários filões do "hard" ou do "punk" rock. Há já, com efeito, "clássicos" inclusive na contemporaneidade musical. Naturalmente só a evocamos agora do ponto de vista do encontro entre música e espiritualidade, e então bastaria apenas citar o inesquecível Leonard Cohen, que recentemente nos deixou.



É um deleite o contínuo contraponto que Monda tece entre cultura, espiritualidade e música a partir desse fascinante "Thunder road", de Springsteen, que abre o álbum "Born to run", com a expetativa de que «um salvador se erga destas estradas» porque é lá que nos «espera o paraíso» e, por isso, «procuraremos chegar à terra prometida», ainda que partindo de «uma cidade cheia de perdedores»



É, contudo, igualmente difícil não pensar - libertando-o de todas as polémicas, ainda que legítimas, respeitantes ao Nobel que lhe foi atribuído - no "menestrel" Bob Dylan, como o seu simbolismo poético que para muitos de nós é confiado a "Blowin' in the wind", ou seja, ao vento e à poeira do deserto bíblico. É interessante que o número 4000 de uma revista importante como a "Civiltà Cattolica", de fevereiro último, acolha um breve mas intenso artigo precisamente sobre Bob Dylan, cuja «canção sopra ainda no vento», como diz o título. E o autor, o jesuíta Claudio Zonta, consegue construir o palimpsesto religioso do cantautor judeu americano - encontrando uma citação livre do Evangelho de Lucas (16, 13): «Indeed you’re gonna have to serve somebody / Well, it may be the devil or it may be the Lord / But you’re gonna have to serve somebody».

Mas para um clássico ainda mais contemporâneo, eis Springsteen, "The boss", nascido em 1949, que um extraordinário professor de religião, Andrea Monda, nascido em 1966, jornalista, escritor e apresentador televisivo, levou para a escola: o título do seu retrato do compositor norte-americano é, precisamente, "Springsteen na aula", fazendo-o tornar-se um companheiro de banco não só para os muitos "temas didáticos" que embebem os seus textos, mas também porque fitam palavras densas como "faith", "redemption", "saviour", "promised land" e um tema exigente, a religião, com o seu corolário de moral e filosofia. E é um deleite o contínuo contraponto que Monda tece entre cultura, espiritualidade e música a partir desse fascinante "Thunder road" que abre o álbum "Born to run", com a expetativa de que «um salvador se erga destas estradas» porque é lá que nos «espera o paraíso» e, por isso, «procuraremos chegar à terra prometida», ainda que partindo de «uma cidade cheia de perdedores». Muitas outras sugestões nos oferece Monda para conduzir para o hoje musical o nosso ouvido um pouco refratário e adaptá-lo a outros ritmos, até porque, interrogado por Beppe Severgnini, Springsteen confessava: «O imaginário católico, assim como a Bíblia, é um modo extraordinário de exprimir a viagem do homem, do espírito humano. Eu regresso instintivamente a essas imagens».









 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In: "Cortile dei Gentili"
Trad.: SNPC
Publicado em 16.03.2017

 

 
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