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Evocação

Guardini e Couturier: origens do diálogo da fé com arquitectura e as artes no século XX

Relembramos aqui duas personalidades de relevo no movimento litúrgico europeu, na primeira metade do século XX. As suas reflexões e compromissos pastorais, no âmbito do diálogo entre a liturgia e as artes, são expoentes da renovação teológica e cultural mais vasta que conduziu ao Concilio Vaticano II. Romano Guardini (1855-1968) e Marie-Alain Couturier (1897-1955) representam modos distintos de convergência entre a renovação litúrgica e a arquitectura e as artes do seu tempo. Ambos são sacerdotes, respectivamente diocesano e dominicano, e ambos dedicaram a esta tarefa, como por vocação específica, os anos mais fecundos das suas vidas. Guardini, inseparavelmente teólogo e pedagogo no contexto da pastoral universitária, vive e trabalha na Alemanha. Couturier, ele próprio artista, director da revista L'art sacré, crítico de arte e mediador da encomenda de muitas obras da Igreja a artistas de vanguarda, viveu e trabalhou principalmente em França. A reflexão e obra destes homens de Igreja continuam actuais, ajudando-nos a acompanhar os desenvolvimentos da renovação litúrgica decorrentes do Concílio e a estimular o diálogo com as artes, ainda incipiente no nosso país.

 

Guardini e a formação litúrgica dos cristãos

Romano Guardini é apresentado com frequência como o grande responsável da extensão do movimento litúrgico para além do âmbito monástico, ao encontro da vida da Igreja nas comunidades paroquiais. Guardini reconhece na liturgia a matriz privilegiada da experiência religiosa de todo o cristão. Sendo a liturgia cristã mestra do sentido religioso da vida, implica no entanto uma capacidade de percepção simbólica, isto é, um duplo movimento de apreensão e expressão da interioridade através dos signos exteriores. Esta capacidade simbólica da experiência humana, comum à experiência religiosa e artística, parece-lhe de tal importância, que o seu subdesenvolvimento na cultura ocidental representa um risco real de paganismo.

Guardini compreende a dimensão estética como parte integrante de uma unidade orgânica do fenómeno humano que lhe é anterior. A sua atenção centra-se na educação de um olhar contemplativo, não alheio ao exercício poético e artístico, onde a liturgia e o quotidiano da vida se potenciam mutuamente.

Neste sentido a liturgia é, para o Guardini educador e assistente do movimento juvenil de Quickborn (1920-1939), como uma pedagogia prática da fé, e uma via privilegiada da formação da personalidade cristã. Trata-se em primeiro lugar, dizia Guardini, de formação e não de informação litúrgica, de uma iniciação que não pro-cede esclarecendo a origem e significado dos ritos, mas ensinando a olhar, e ver, na forma corpórea, o acontecimento espiritual, manifestando assim a estrutura sacramental dos signos sagrados. Num pequeno livro intitulado precisamente Signos Sagrados, Guardini introduz-nos à experiência litúrgica das “coisas mais simples”, o umbral, a luz, o altar, o gesto, o pão, etc.

Esta determinação em penetrar os signos materiais da espiritualidade humana, na liturgia como na cultura, levou-o a ser interlocutor privilegiado dos arquitectos que no contexto da reconstrução da Alemanha, se interessaram pelo movimento de renovação litúrgica. Entre eles o seu discípulo de Quickborn, arquitecto Rudolf Schwarz. O diálogo é fecundo. Dele saem intuições refontalizadoras acerca da essência do edifício-igreja na tensão entre os valores da arquitectura e do espaço litúrgico, entre a assembleia participativa e o santuário, unificadas pela centralidade simbólica do altar e pela unidade da acção litúrgica. No prolongamento deste diálogo, o arquitecto Emil Steffann e o padre oratoriano Heinrich Kahlefeld, concebem a igreja de S. Lourenço (1955), em Munique, que é hoje um clássico da arquitectura do movimento litúrgico. Retomando o arquétipo da basílica ocidental, Steffann reorganiza a orientação principal do espaço segundo o eixo menor da nave, para uma disposição da assembleia mais envolvente do altar. A sóbria contenção de formas, arquitectónicas e decorativas, reverte em favor de uma atmosfera clara e da concentração na acção litúrgica.

 

Couturier e o diálogo com a arte do seu tempo

O padre Couturier viveu de forma dramática o divórcio entre a fé e o poder da imaginação e da sensibilidade, como reflexo da decadência da arte sacra do seu tempo. No seu entender, a mediocridade expressiva da celebração da fé, mediada por ambientes e obras de qualidade artística inadequada, estaria na origem de uma debilitação da força espiritual da liturgia, afectada por um espírito do tempo, funcional e materialista.

Por outro lado, Couturier reconheceu nas vanguardas artísticas do seu tempo um outro sinal dos tempos, uma atitude radical de inconformismo, de busca de autenticidade e anseio do absoluto. Esta atitude, ainda que de religiosidade difusa, constitui, no seu entender, um estímulo espiritual eficaz, capaz de expressar e induzir uma disposição humana, propedêutica apenas, mas necessária para acolher a radicalidade evangélica. “Não existe arte sacra - escreve ele - onde não há uma atitude essencial do homem diante da realidade sagrada.” Defende que a arte sacra tem, antes de mais, que ser arte, e que a Igreja deve reconhecer o talento dos artistas, não necessariamente cristãos, e chamá-los a colaborar consigo.

Esta posição é portadora de uma complexidade que é necessário discernir hoje, ainda que a arte do nosso tempo não seja menos ambígua nem menos estimulante que a arte das vanguardas artísticas do século XX. A equiparação da arte sacra a uma arte de aspiração religiosa latente nas obras de artistas crentes e não crentes, não lhe dá um estatuto de arte cristã, mas um estatuto propedêutico ao mistério, de disposição da pessoa e da comunidade para o acolhimento da Palavra, no contexto da acção litúrgica. A arte sacra seria assim equiparada ao silêncio do mundo, necessário à profundidade da escuta, sobre o qual é pronunciada a Palavra da Revelação. Seria também semelhante à ressonância sensorial e afectiva, pela qual a Palavra se incorpora nos elementos do mundo atribuindo-lhes um significado novo. Foi, no entanto, no conhecimento particular das obras de arte e na relação pessoal com os artistas que Couturier reconheceu o valor religioso da arte, e discerniu a sua adequação aos lugares de culto.

O padre dominicano representa assim um momento originário, radical, de atenção à arte do nosso tempo, cultivando uma atitude pastoral, de abertura e diálogo com os artistas, de grande proveito, também, para a compreensão afectiva da fé, mediada pela experiência estética. O seu impulso prolongou-se, fecundo e discernido, na pessoa do padre Régamey, e no lastro da revista L'art sacré, como testemunho crítico e impulsionador da produção e qualidade da arte sacra.

 

P. João Norton de Matos, sj
© SNPC | 10.04.10

Foto
P. Romano Guardini

















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Foto
Pe. Marie-Alain Couturier

















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