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De Saramago a Stephen King, literatura que fala de Deus

«É preciso ler a literatura, colocar-se em sintonia, mudar de registo. É preciso perguntar-se qual é o contributo que só a literatura pode exprimir, procurar o que nenhuma teologia concetual saberá formular e que, ao contrário, a literatura exprime, a seu modo, com vigor»: assim se lia num editorial da edição italiana da revista Concilium no longínquo 1976, num número completamente dedicado ao debate entre teologia e literatura.

Agora a revista volta a colocar a questão, estendendo-se a múltiplos mundos literários, da América do Norte à do Sul, da África à Ásia. Como justamente sublinhava Milan Kundera em “A arte do romance”, esta forma particular de expressão surgida na Europa com a modernidade soube interpretar e sondar provavelmente melhor que a filosofia o mistério do ser humano. Mistério que permanece fascinante, ainda que muitas vezes insondável, e que é continuamente indagado mesmo depois do veredito do filósofo Adorno, segundo o qual era impossível fazer poesia depois de Auschwitz.

Como escreveram dois argutos indagadores da relação entre sagrado e literatura, Ferdinando Castelli e Luigi Pozzoli, poetas e escritores do séc. XX têm o mérito de ter libertado Cristo do museu dos grandes personagens do passado, inclusive quando se relacionaram com Ele numa atitude de oposição. «Em lugar daquele Deus impassível e algo surdo, inexoravelmente perdido com o avanço impetuoso do mundo moderno, começou a surgir na literatura de Novecentos, de maneira cada vez mais tangível, um Deus descido à Terra, humilhado junto dos humilhados, capaz de responder ao grito de dor que se ergue de uma humanidade cada vez mais desfigurada e abandonada»: assim comentou Enzo Bianchi a parábola dos autores do século passado, destacando como «dos romances de Bernanos às poesias de Ungaretti é a imagem de um Deus dolorido para o ser humano, que sofre, luta, geme junto às feridas de cada vivente, a emergir progressivamente como imagem autêntica (e profundamente evangélica) do divino a quem a angustiada desesperação da humanidade se dirige».



É a explosão da palavra que se manifesta nos místicos e místicas, como lembrou Michel de Certeau, para chegar aos nossos tempos em figuras como Simone Weil e Dorothy Day. Uma escrita “selvagem” que abre espaços infinitos e que pode novamente reanimar o pensamento teológico do séc. XXI



Sublinha-o também Jean-Baptiste Sèbe no seu ensaio, centrado na relação entre Cristo e os escritores modernos e contemporâneos. Sèbe cita Saramago e Bobin para recordar que, para além das múltiplas e contraditórias representações, Jesus Cristo permanece uma pedra de tropeço para o escritor: «Aquele que nunca escreveu nada – à exceção de alguns sinais traçados na areia – continua a ser um objeto de inspiração inesgotável». Por seu lado, a investigadora argentina Cecília Avenatti de Palumbi nota como a teologia após o concílio Vaticano II (1962-1965) encontrou na literatura uma linguagem revitalizadora. São justamente citados os nomes de Charles Moeller e Adolphe Gesché (mas também von Balthasar, Guardini, Lubac) neste esforço que, durante um certo período, pareceu ser unidirecional: os teólogos olhavam para a literatura e não vice-versa. Extinta a grande época da literatura católica francesa de Novecentos, que teve os seus máximos representantes em Mauriac, Bernanos e Julien Green, um período quase inigualável, o processo de influência recíproca foi interrompido.

Pensemos inclusivamente num autor como Stephen King, que tem um dos seus pontos de força na manipulação de temas religiosas ou relacionados com a esfera do sagrado, a morte antes de todos. Para não falar de Philip Dick, que já foi definido como o Kafka do séc. XX. Ou Cormac McCarthy, de “A estrada”, viagem de um pai e de um filho à procura de uma vida possível no fio do fim do mundo. É precisamente a McCarthy que Sèbe dirige a atenção: a criança representa o verbo, a palavra, o que torna possível o humano num mundo implacável. Se a criança continua viva, se consegue conservar a palavra, «então quer dizer que Deus continua a falar». Já Heather Walton relança no seu artigo a ideia da «teologia através do “life writing”». Com a escrita autobiográfica, que compreende memórias, diários de viagem, ensaios pessoais e que tem o seu modelo nos Evangelhos e nas “Confissões” de Agostinho, escancaram-se mundos inteiros.

É a explosão da palavra que se manifesta nos místicos e místicas, como lembrou Michel de Certeau, para chegar aos nossos tempos em figuras como Simone Weil e Dorothy Day. Uma escrita “selvagem” que abre espaços infinitos e que pode novamente reanimar o pensamento teológico do séc. XXI, dando vida àquela que Parazzoli definiu há anos como «teologia narrativa». Uma escrita teológica que acaba por aproar, segundo o poeta português José Tolentino Mendonça, a uma «leitura infinita»: a possibilidade para o leitor de interpretar, enriquecendo-os, os textos narrativos.



 

Roberto Righetto
In Avvenire
Trad. / edição: SNPC
Imagem: Veneratio/Bigstock.com
Publicado em 23.02.2018

 

 
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