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Cinema e espiritualidade: Cinco filmes de 2016 que vale a pena (re)ver

Cinema e espiritualidade: Cinco filmes de 2016 que vale a pena (re)ver

Imagem D.R.

5. "Human", de Yann Arthus-Bertrand

São três os grandes eixos desde documentário do fotógrafo e cineasta Yann Arthus-Bertrand. O mais significativo é o testemunho do rosto. Em primeiros planos vão passando mulheres e homens, meninas e meninos de todas as raças, religiões e países. Sofre um fundo negro o olhar fixa-se nas emoções e nas palavras que em forma de confissão nos falam da felicidade e do sofrimento, da violência e do amor, do trabalho e da família.
O segundo eixo são as imagens aéreas do mundo e da humanidade. Nelas se recolhe a beleza das formas do mundo, as paisagens que acompanham os homens, a dureza escondida do meio natural, a cor deslumbrante nas suas variações de Oriente a Ocidente, de Norte a Sul.
E sobre o fundo da mundanidade, a comunidade, os seres humanos como coletivo que respira formando um corpo que vai desde os adeptos do futebol ou da música aos exércitos, dos devotos aos que erguem um "castelo" humano. Os seres humanos que habitam a Terra.
O último eixo é a banda sonora composta por Armand Amar, músico francês de origem marroquina e nascido em Jerusalém. O seu trabalho mostra-nos a diversidade das músicas do mundo trespassadas por uma poderosa força espiritual que chega a mostrar a dimensão sagrada do canto que se faz dança e que acompanha a viagem pela humanidade.









4. "O filho de Saúl", de László Nemes

O jovem realizador húngaro volta a abrir a ferida e leva-nos de novo a visitar Auschwitz numa descida até ao mal radical. As suas opções estéticas resultam de uma admirável coerência com o que dolorosamente nos mostra, a sombra alargada de Béla Tarr, de quem foi ajudante de câmara, marca o estilo.
A narração em primeiros planos deixa ao fundo o horror e mostra-nos as suas devastadoras consequências nas pessoas. O acompanhamento da câmara nas costas do protagonista deixa o espetador com a morte nos seus calcanhares.
O magistral fora de campo não só assinala a linha que não se pode trespassar, não se fará ficção da verdade mais penetrante, mas também nos mostra que perturba mais aquilo que não se vê. O som estremece substituindo as imagens para assinalar a marca de matar que tritura os seres humanos. É um poderoso chamamento a reconhecer o mistério da iniquidade.









3. O herói de Hacksaw Ridge, de Mel Gibson

Excessivo e genial. Mel Gibson é um homem de extremos, mas a fé das suas personagens faz parte da sua matriz original. O soldado Desmond Doss nega-se, por motivos religiosos, a levar consigo armas para os combates durante a II Guerra Mundial mas converte-se num herói ao salvar as vidas dos seus companheiros feridos, e inclusive dos seus inimigos.
As convicções pacifistas do protagonista, um surpreendente Andrew Garfield reconvertido de "Homem-Aranha" num contido e profundo objetor, brotam de uma experiência dura marcada por pai violento e traumatizado pela guerra.
É pena que algumas deixas patriotas e as concessões à violência sangrenta velem, só parcialmente, um grande exercício de cinema e de fé.









2. "Agnus Dei - As inocentes", de Anne Fontaine

A cineasta francesa realiza a sua melhor película neste drama sobre mulheres entre o horror e a vida. Uma comunidade de monjas de clausura polacas que foram agredidas e violadas por soldados do exército soviético no fim da II Guerra Mundial. Uma enfermeira agnóstica de uma missão médica do exército que se prontifica a ajudá-las, partilhando o seu sofrimento. A desorientação da superiora que, querendo contornar o mal, o multiplica. A vida que ajuda a fé a seguir em frente desde a maternidade como força transcendente. O encontro de cristãos, judeus e agnósticos entre a dor e a compaixão.
As monjas ajudadas pela generosidade corajosa da jovem médica a quem reconhecem como um dom, e ela mesma abençoada por este encontro e pela sua relação com aquela comunidade de orantes feridas. Os pequenos recém-nascidos como uma irrupção da luz que permite olhar para diante mais do que recordar um passado traumático. Uma canção à vida que não só é biologia, mas que também sabe a eternidade.









1. "Milagre no rio Hudson", de Clint Eastwood

Não se trata de uma das obras-primas de Clint Eastwood mas é um grande filme, completado aos 86 anos. A apresentação de um modelo ético de referência em Sully, o piloto que pousou o seu avião no rio Hudson. 208 segundos é o tempo para tomar uma decisão - foi a correta? A investigação posterior ao acidente permite ao espetador situar-se perante o determinante factor humano, na sua vulnerabilidade mas também na sua dignidade.
A atuação de Tom Hanks como o capitão Chesley "Sully" Sullenberger é comovedora. O herói humilde que sabe colaborar e que afirma que não fez mais do que tinha de fazer, como o servo inútil do Evangelho.









 

Peio Sánchez Rodríguez
Diretor do Departamento de Cinema da Arquidiocese de Barcelona (Espanha), diretor da Semana de Cinema Espiritual
In "Religión Digital"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 06.01.2017

 

 
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