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«A Fátima cada qual traz a sua devoção, o seu segredo, a sua orfandade, a sua busca»: Crónica de uma peregrinação

«A Fátima cada qual traz a sua devoção, o seu segredo, a sua orfandade, a sua busca»: Crónica de uma peregrinação

Imagem D.R.

«Há muito eu tinha vontade de ir a Fátima em peregrinação, por metáfora de passagem nesta vida. Em quatro anos seguidos desde 2003 fiz a caminhada, seis dias de retiro absoluto, de reflexão em que adorar, amar, agradecer, foram palavras e sentimentos em mim a cada passo, como o tinham sido há anos em São Paulo para a comunhão da minha primeira filha.»

É com estas palavras que a escritora e jornalista Leonor Xavier inicia o seu "Diário" na mais recente edição do "Jornal de Letras", que tem precisamente "Fátima" como tema de capa.

Com a peregrina estão três centenas de «homens e mulheres, os mais expressivos ou os mais calados, na fragilidade das suas circunstâncias, na vivência da sua fé. Até chegarem a Fátima, seis dias inteiros hão de passar, como um fio que escorre sem parar».

Na bagagem, «pouco volume e peso, o essencial que a natureza peça, tudo para o corpo, que a alma estará em esforço e sossego, a todas as horas». E o terço «à mão», escreve a autora, que recentemente lançou o livro "Peregrinação - Testemunhos que nos unem", com depoimentos de personalidades do meio artístico, cultural e académico português.



«Aplico-me na oração, levanto os braços, revolvo os dedos, percebo o dedo do pé já magoado com bolha, o ardor da dor cresce.» À chegada, sente que a «cumplicidade» entre os peregrinos «foi tecendo laços». «Entre as árvores, filtrada a luz, a voz do padre, o silêncio total no momento da consagração»



Sete de maio, primeiro dia de caminhada, de Sacavém a Vila Franca de Xira: «Com a missa, logo de manhã, a devoção a Maria é proclamada, ela é a figura principal, invocada por palavras e gestos e melodias e será, nestes dias».

«Depois de chegada a Fátima, cumprida a peregrinação, acredito que o regresso à realidade será mais leve para a maioria daqueles que à minha volta ajoelham, fazem o sinal da cruz, repetem ou repescam os gestos aprendidos na infância, ou na hora de conversão recente.» Durante o trajeto sentirá «uma emocionada compaixão por tudo e por todos».

A primeira noite «foi ruidosa e mal dormida, a água quase fria no corpo, a adaptação ao desconforto, na presença quase promíscua de tantas mulheres, em camarata de quartel».

Ao segundo dia «abrem-se as sensações». «Chega-nos um gole de água, vai nascendo um murmúrio de conversa que em futuras etapas será de quase confissão segredada».

«Chove sem parar» na manhã de 9 de maio, os passos rumam da Azambuja para Santarém. «Aplico-me na oração, levanto os braços, revolvo os dedos, percebo o dedo do pé já magoado com bolha, o ardor da dor cresce.» À chegada, sente que a «cumplicidade» entre os peregrinos «foi tecendo laços». «Entre as árvores, filtrada a luz, a voz do padre, o silêncio total no momento da consagração.»



Na direção à Cova da Iria, a 12 de maio, a caminhada é a «mais dura e difícil». Com o santuário à vista, «grupos e mais grupos se misturam, agora são multidão na chegada



Depois das fábricas e do trânsito dos primeiros dias, Leonor Xavier saboreia na estrada para Vale de Figueira «a terra lavrada, colorida, fértil». E as paisagens interiores.

«Devagar, vão-me surgindo as conversas mais privadas. Oiço as confidências, os desabafos, os casos. As histórias das mulheres murmuradas baixinho. Os lutos, as perdas, as traições, os abandonos, os abortos, as vergonhas, as vinganças. As recasadas que sofrem por não terem acesso a comunhão. A mesma dor em pessoas de vidas alternativas. A homossexualidade reprimida. A culpa, o sacrifício, a penitência. Desejo uma renovação na Igreja, para que todos sejam incluídos nas suas diferenças.»

Até Alcanena, no dia penúltimo, «o cansaço é compensado pela passagem das horas», e ao longo do caminho há gente que «abre a porta da casa, e gente que oferece água, uma maçã, um doce aos peregrinos. Bons gestos de aceitar».

Na direção à Cova da Iria, a 12 de maio, a caminhada é a «mais dura e difícil». Com o santuário à vista, «grupos e mais grupos se misturam, agora são multidão na chegada. A Fátima cada qual traz a sua devoção, o seu segredo, a sua orfandade, a sua busca. A sua verdadeira razão, cumprida».



 

SNPC
Fonte: "Jornal de Letras"
Publicado em 23.05.2017

 

 
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