
O sublime e o quotidiano
«Cipriano (200-258) dizia: “Se, na oração, falamos com Deus, na leitura da Bíblia Deus fala connosco.” Jerónimo (347-420), escrevendo a um discípulo recomendava: “Não separes nunca a tua mão do Livro, nem distancies dele os teus olhos.” Cassiodoro (490-583) referia-se à farmácia da lectio: “Como um campo fecundo produz ervas odorosas, utéis para a nossa saúde, assim a lectio divina oferece sempre cura para a alma ferida.” E é ainda a imagem campestre que serve a João Damasceno (675-750): “Batamos à porta desse belíssimo jardim das Escrituras.” Poderíamos multiplicar por mil os aforismos deste tipo, que mostram como a tradição cristã se pensou, desde o princípio, como uma prática de leitura. Uma infinita leitura.»
Seguidamente, fragmento da obra "A leitura infinita", de José Tolentino Mendonça, apresentada a 7 de Maio em Lisboa. O volume reúne textos de teologia e exegese bíblicas. A maioria deles conheceu publicação em revistas desse âmbito ou circulou em edições muito restritas, e foi agora revisto a pensar neste livro.
«Na sua obra monumental sobre o realismo na literatura do Ocidente, Auberbach distingue dois únicos paradigmas como fundamentais: o da Odisseia e o da Bíblia.
O poema homérico trata de forma exaustiva os seus motivos, esforçando-se para que todo seja exacto, articulado, visível: desde as relações de tempo e lugar, aos nexos de causalidade e às vinculações comparativas, nadam na verdade, é deixado como fragmento, lacuna, profundidade ou prega por explorar. O destino dos personagens e das intrigas está claramente ficado. Ocorrem intrincadas peripécias, mas dentro da linearidade das fórmulas predeterminadas. Além disso, o texto helénico é restrito e estático. A existência heróica desenvolve-se no reduto do universo senhoril. E se os enredos possuem uma grande cultura visual e sintáctica, são, no entanto, desconcertantemente simples na representação do homem e do mundo.

«Come este livro...» (Ez 3,1). Bíblia do séc. XII. Mosteiro de Bose, Itália
Na Bíblia, o quadro social que se descobre é plural e amplo: reis destronados por pastores, pequenos proprietários que resistem à opressão de poderosos, cortesãos que caem ou ascendem, deportados, mulheres fortes, indagadores, furibundos, pacíficos, sonhadores, oficiantes. Os personagens da Bíblia são narrativamente desenhados com uma profundidade maior de consciência e destino. A sua presença não é sequer laboriosamente descrita. Por vezes basta um traço, um detalhe, para recolher isso que cada um é de único. Eles são os eleitos, mas experimentam a paradoxal mão do Senhor. David ou Job, Elias ou Ester, os heróis bíblicos sabem os mistérios subidos da vontade divina e todavia permanecem falíveis, expostos à convulsão e ao esmagamento indizíveis, acossados e perseguidos. Esta incerta condição, que tanto os afunda no enigma de Deus, é porem, depois, a possibilidade inaudita da sua revelação. Os contrastes de sombra e luz aí propostos, a ondulação, directa e espessíssima das figuras, torna-as concretas, e mais vulneravelmente históricas que qualquer personagem da galeria homérica. Claro que na Bíblia abunda o sublime, mas soletrado assim num realismo de vida comum, inseparável do ordinário e do quotidiano. Passa também por aqui o seu singular fascínio.»
José Tolentino Mendonça
08.05.2008
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A leitura infinita
Bíblia e Interpretação
Autor
José Tolentino Mendonça
Editora
Assírio & Alvim
Páginas
294
Ano
2008
Preço
€ 20,00
ISBN
978-972-37-1321-3