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Poesias completas de S. João da Cruz

Numa colaboração inédita entre editoras portuguesas, a Assírio & Alvim, a Cotovia e a Relógio d’Água lançaramuma colecção de bolso reunindo alguns dos principais autores clássicos e contemporâneos: trata-se da Biblioteca Editores Independentes. No número 29 da colecção encontramos as “Poesias Completas”, de S. João da Cruz.

Do prólogo (José Bento): Na sua poesia confluem os cancioneiros, os temas tradicionais glosados «a lo divino» (designação, acaso intraduzível, para o que consiste em fazer variar um poema ou alguns versos profanos para lhes dar um significado religioso, e que foi um recurso muito seguido no «Siglo de Oro» espanhol), a Bíblia (o “Cântico Espiritual”, parte do “Cântico dos Cânticos”, que cita em diversas passagens, a “Chama de Amor Viva” e a “Noite Escura” têm reminiscências deste poema bíblico), a poesia de Garcilaso, acaso a de Frei Luis de León (é possível que S. João da Cruz tivesse assistido em Salamanca a aulas do grande mestre agostinho, e tenha tido acesso a manuscritos dos seus poemas, o que poderia tê-lo influenciado na adopção da «lira» – estrofe de cinco versos: o primeiro, o terceiro e o quarto com sete sílabas; o segundo e o quinto com onze sílabas, com rimas segundo o esquema a B a b B, introduzida em Espanha por Garcilaso na sua Canção V – no “Cântico Espiritual” e na “Noite Escura”). Conheceria S. João da Cruz a tradução que Frei Luis de León fez do “Cântico dos Cânticos” cerca de 1561?

Raras vezes como nos grandes poemas de S. João da Cruz a crítica sentirá as suas limitações e a fragilidade de alguns dos seus juízos: esgotadas as minuciosas e indispensáveis pesquisas textuais, detectadas as fontes, explicitado o pensamento subjacente a estes poemas, o crítico fica frente a frente com eles na sua nudez total, e o que acontece então não pode ser senão um acto de amor, pois tudo o mais sobra, é inútil. Talvez se desmoronem alguns preconceitos: o “Cântico Espiritual” tem um tema que não é original – vem do antiquíssimo “Cântico dos Cânticos –, como não são originais algumas das suas imagens, dos seus símbolos. Assim, o que faz a sua grandeza? Porque supera poemas que, a uma leitura superficial, parecem mais originais e inovadores? Porque permanece nele algo inexplicável após tantas explicações, inclusive as que o poeta escreveu?

Pela beleza e ousadia das imagens, pelo recurso a símbolos de extraordinária força, pela transformação de uma voz antiga de que inteiramente se apropria, pela emoção profunda e simultaneamente contida que transmite, por atingir um mistério que não se desvela nunca, podemos afirmar com Carlos Bousoño que S. João da Cruz é um poeta “humano, humaníssimo, mais humano ainda, em algum sentido essencial, que outros poetas do «Siglo de Oro», pois se parece mais ao que, em consideração imediata, é para nós o modelo melhor da humanidade: a saber, um contemporâneo nosso.”

S. João da Cruz não reflecte na sua obra este mundo impiedoso, a não ser no seu anseio de fazer da sua escrita e da sua acção como director espiritual (ambas têm um único fim, que, aliás, é o mesmo da sua vida) um meio de conduzir a Deus. Torturas, prisão, dificuldades de toda a ordem, calúnias, não o fizeram mudar: pouco bem esperaria dos poderosos e tudo queria fazer por todos. Nunca se queixou de nada nem acusou ninguém, para dar testemunho de uma vontade que no silêncio e na solidão aspirava sempre e exclusivamente ao máximo.

A obra poética de S. João da Cruz não ocupa mais que umas 40 páginas; a sua obra em prosa é extensa, grande parte constituída pelos comentários aos três poemas que são não só o ponto culminante da sua poesia como três dos mais belos poemas da língua espanhola e porventura de qualquer língua, tradicionalmente intitulados “Cântico Espiritual”, “Chama de Amor Viva”, “Noite Escura”.

 

Chama de Amor Viva

Canções da alma
na íntima comunicação de união de amor de Deus.

Oh chama de amor viva,
que ternamente feres
da minha alma o mais profundo ponto!,
já que não és esquiva,
acaba já, se queres;
rasga o tecido deste suave encontro.

Oh cautério suave!
Oh deleitosa chaga!
Oh toque delicioso! Oh mão querida,
que à vida eterna sabe,
toda a dívida paga!,
matando, a morte transformaste em vida.

Oh lâmpadas de fogo,
em cujos resplendores
as profundas cavernas do sentido,
escuro e cego, logo
com estranhos primores
calor e luz dão junto ao seu querido!

Quão manso e amoroso
acordas em meu seio,
onde em segredo, solitário, moras;
e em teu aspirar gostoso,
de bem e glória cheio,
quão delicadamente me enamoras!

S. João da Cruz

Prólogo: José Bento

03.09.2008

 

 

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Capa

Poesias completas

Autor
São João da Cruz

Editora
Assírio & Alvim
Cotovia
Relógio d'Água

Colecção
Biblioteca Editores Independentes

Páginas
144

Ano
2008

Preço
€ 6,00

ISBN
978-972-371-292-6






















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