
O luto e a esperança na música de Messiaen e na poesia de Nelly Sachs, em espaço cénico de Paulo Nozolino
Desta vez são os espectadores que sobem ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. Na quarta-feira, a sala será virada do avesso para uma homenagem ao compositor francês Olivier Messiaen, no dia exacto em que faria 100 anos.
No início, uma imagem é projectada numa gigantesca tela, enquanto Beatriz Batarda lê a poesia de Nelly Sachs, a escritora judia que conseguiu fugir, “in extremis”, ao terror nazi. Beatriz Batarda prefere não revelar os pormenores do inquietante espaço cénico concebido pelo fotógrafo Paulo Nozolino. Mas abre o jogo ao falar dos textos incómodos e violentos de Nelly Sachs, prémio Nobel da ‘iteratura em 1966: “São poemas viscerais mas não são sentimentais. e fosse sentimental tiraria a dignidade deste luto de todas as vítimas do campo de concentração.”
A proposta de juntar estes poemas de Sachs sobre “os seus irmãos judeus” à mais emblemática obra de Olivier Messiaen, “Quarteto para o fim do-tempo”, partiu de António Mega Ferreira, presidente do CCB. E se o ponto de partida era a comemoração do centenário de Messiaen, o ponto de chegada acabou por ser bem mais do que isso. Filipe Pinto-Ribeiro, pianista e fundador do Schostakovitch Ensemble, explica que “houve mesmo um encontro entre linguagens artísticas, ou melhor, um diálogo”. Além do quarteto de Messiaen, “há a tradução inédita de João Barrento do ciclo de poemas ‘Nas moradas da morte’ de Nelly Sachs, há a leitura da Beatriz Batarda e a parte cénica do Paulo Nozolino. Não se trata de ilustração. Todos os elementos entram em ressonância”, diz Pinto-Ribeiro. Na opinião do pianista, este trabalho com relativa independência das partes pode gerar “um contraponto que pode ser mágico.” Até porque, segundo ele, as escolhas dos artistas, dos textos e da música foram “na ‘mouche”. E acrescenta ainda uma curiosidade adicional que torna ainda mais significativa a data da sua (única) apresentação: é que Nelly Sachs nasceu exactamente no mesmo dia 10 de Dezembro em que nasceu Olivier Messiaen. Ela em 1891. Ele 17 anos depois.
Música transcendente, poesia implacável
Beatriz Batarda e Filipe Pinto-Ribeiro falam-nos das histórias cruzadas de Sachs e Messiaen, ligados historicamente por terríveis fios. A alemã Nelly Sachs fugiu para a Suécia uma semana antes da sua anunciada deportação para um campo de concentração (por ser judia). Messiaen, por seu lado, foi feito prisioneiro de guerra em 1940, e foi para um campo de detenção na Silésia. Foi aí que ele compôs “Quarteto para o fim do tempo” e aí o estreou, em condições de privação e de terror: “é talvez uma das estreias mais extraordinárias da história da música”, diz Pinto-Ribeiro. E conta-nos como foi: “Perante os prisioneiros e o Estado-maior do campo, num teatro improvisado. Os outros três músicos eram seus companheiros de prisão. Ele tocou num piano vertical em que as teclas ficavam presas. Mas é curioso, porque Messiaen diria depois que nunca na sua vida foi ouvido com tanta atenção e compreensão.”
Beatriz Batarda chama a atenção para um aparente paradoxo nestas duas vidas: “Ela que era judia não foi vítima, e ele, que não era judeu, foi.” Faz por isso sentido ligar Sachs e Messiaen, “pois lembra-nos que não foi só o povo judeu que foi vítima da tortura, mas tantos outros”. No entanto, o “fim do tempo” que está no título do quarteto não deve ser lido apenas como sinónimo de holocausto, ou imagem para as destruições da guerra. Pinto-Ribeiro pensa que para o católico Messiaen o fim do tempo anunciado pelo “anjo do apocalipse” é sobretudo “redenção, esperança e eternidade”.
A poesia de Nelly Sachs procura também, segundo João Barrento, “superar a dor com uma forma de júbilo”. O tradutor dos poemas acha que há na sua poesia “a consciência de que é preciso não esquecer, não recalcar, mas narrar. Contra os limites da linguagem, e contra o silêncio, que significaria impotência”. João Barrento lembra que Nelly Sachs “tem muitas afinidades com o tom dorido que se nota nos poemas de Paul Celan”, um autor que ele também traduziu. Neste caso, na tradução dos poemas de Sachs, João Barrento preocupou-se essencialmente com “a fluência da palavra dita”, a principal razão, aliás, para lhe ter sido pedida (por Mega Ferreira) uma nova tradução para português destes poemas (a que existia era a tradução de Paulo Quintela).
Beatriz Batarda elogia a tradução de João Barrento: “A poesia dela tem uma espécie de choques de ritmos que o João Barrento traduz muito bem.” Para a actriz a dificuldade é agora “conseguir chegar à voz da Nelly Sachs”. “Eu tenho uma certa tendência para o sentimentalismo, sou muito emotiva, é o meu ponto fraco. Não vou poder sê-lo ao dizer estes poemas. Porque ela não é sentimental, é implacável na violência com que descreve o sofrimento das vítimas dos campos de concentração. Tenho de me colocar no ponto de vista dela.” E uma leitura perigosa, diz ela: “Ser tão neutra que é tudo gelado ou ser tão emotiva que desate a chorar e não consiga acabar o poema. Esses são os perigos.”
Quase no fim do tempo, Filipe Pinto-Ribeiro volta a chamar a atenção para o quarteto do “genial” Messiaen, que interpretará na companhia dos músicos de primeira água que compõem o Schostakovitch Ensemble (Pascal Moraguès no clarinete, Priya Mitchell no violino, Pavel Gomziakov no violoncelo): “É um dos picos da música de câmara do século XX, com alguns dos aspectos mais marcantes da linguagem do Messiaen, os modos de valores e intensidades, o canto dos pássaros, a inspiração religiosa, as cores, o arco-íris.” O pianista revela o seu espanto por ver “tamanha beleza, e tão conseguida, num momento em que supostamente não haveria condições para tal.” E lança a hipótese de uma esperança, de uma terrível esperança: “Nos momentos mais horríveis surge, talvez, o melhor.”
O Catálogo das Aves
Ouvir os pássaros como quem escuta os anjos
Quarteto para o fim do tempo (excerto)
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Pedro Boléo
in Público, 05.12.2008
09.12.2008
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