
Estado deixa ruir igreja do século XIX
A Igreja de Santo António de Campolide, em Lisboa, é um apelo aos sentidos: range em estereofonia com a ventania que se esgueira pelos buracos do telhado, cheira aos quilos de tecto trabalhado que se abatem e amolam as tábuas de madeira do pavimento, sorve a água da chuva e esguicha-a aos litros para as 22 banheiras de bebé que lhe atapetam o chão. Classificado como imóvel de interesse público em 1993, o templo novecentista, pertença do Estado português, continua a ruir sobre as cabeças dos 300 paroquianos que o frequentam semanalmente sem que seja feita qualquer intervenção.
A primeira denúncia data de 2001, quando o patriarcado de Lisboa alertou o Ministério das Finanças (MF) e o então primeiro-ministro António Guterres para a situação de "remedeio" em que vivia a igreja paroquial, mas sem sucesso. Em Julho de 2006, o provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues, enviou ao primeiro-ministro José Sócrates uma outra missiva alertando-o para o "avançado estado de degradação do imóvel e da área envolvente". Há dois anos, a lista de ameaças elencada por aquele responsável já era extensa: a igreja confiscada pelo Estado à Companhia de Jesus em 1910 apresentava uma "infiltração grave das águas pluviais", possuía "elevados riscos de incêndio" e "condições de estabilidade muito duvidosas, o que justificou, por cautela, a interdição do uso parcial".
Contudo, e após nova intervenção do provedor de Justiça em Maio de 2007, este "harmonioso exemplo da arquitectura revivalista da época de tipologia neo-românica" - palavras do Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar) -, continua a ruir, ainda que a sua classificação como imóvel de interesse público obrigue o proprietário Estado a realizar obras de conservação. Como a posse do edifício nunca foi devolvida à Igreja, a paróquia encontra-se impedida de angariar fundos privados ou de obter subvenções públicas para recuperá-lo.
"É a chamada pescadinha de rabo na boca: o Estado não faz o que deve e nós não intervimos porque não nos deixam", censura o pároco João Nogueira. "Em Novembro enviámos para o MF, conforme sugestão do próprio, uma carta solicitando a criação de uma comissão que avaliasse o imóvel, a fim de que pudéssemos adquiri-lo por um preço simbólico ou real. Voltámos a contactá-lo em Abril e nada. Daqui a pouco já não há nada a fazer, só a lamentar".
Entretanto, continuam as missas, porque a catequese já não mora na Igreja de Campolide, depois de anos a decorrer sob uma rede metálica que apanhava os flocos de tecto que insistiam em nevar sobre as cabeças. E persistem também as recolhas diárias do entulho que descarna o esqueleto de madeira do edifício. O pároco lidera o ziguezague por entre as paredes escoradas. Ainda este Inverno foi ao hipermercado comprar mais seis banheiras de bebé. "Ao ver-me todo ataviado de banheiras, a senhora da caixa deixou escapar um "oh coitado", mal imaginando que não eram para bebés, mas para este verdadeiro spa do menino Jesus".
Entretanto a freguesia de Campolide deverá agir judicialmente caso não sejam tomadas medidas para reabilitar a igreja paroquial até ao fim do mês. A assembleia local encarregou a junta de pedir uma condenação à "prática de acto administrativo legalmente devido" contra o Ministério das Finanças, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (ex-Ippar) e Câmara Municipal de Lisboa.
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Imagens da igreja de Santo António de Campolide (2.ª série)
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Catarina Prelhaz
in Público, 10.05.2008
12.05.2008
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