
Livro de horas do Convento da Cartuxa
Outra vez. O rosto d'Ele outra vez a sorrir-me. Não. Eu sei que não é um sonho. Sei bem que é o rosto d'Ele que me sorri. Que me aparece realmente para me compensar de tanta entrega, de tão verdadeira entrega, de tão abnegada dedicação. Sei que é ele pela forma como me sorri. O Seu rosto longilíneo, as Suas barbas, o Seu cabelo comprido. Mas sobretudo o Seu olhar. Que me dá força para seguir nesta solidão, neste silêncio, nesta distância de tudo e de todos. Nesta proximidade com ele. É por isso que me sorri. Como que a dizer-me: "Anda, prossegue a tua caminhada para junto de Mim". E é bom ouvi-Lo. E é bom vê-Lo. Outra vez.
A seta que diz «Convento da Cartuxa» antecede uma estrada estreita e ladeada por árvores, a fazer lembrar os filmes de David Lynch. De certa forma, apercebemo-nos de que estamos prestes a entrar num outro mundo. Um mundo feito de silêncio e solidão. Um mundo interdito a mulheres. Um mundo impossível para a maioria de nós.
Ao fundo, com ciprestes de um lado e do outro, fica a entrada do convento.
O silêncio chega a ser agressivo. Talvez porque nos habituámos vezes de mais ao ruído. Mas talvez também por não ser bem um silêncio, aquilo que se ouve. É mais uma ausência. Como se estivesse desabitado, o convento. Pelo menos, desabitado de corpos. Como se só as almas ali existissem. Sossegadamente.
São doze as almas e os corpos que habitam o Convento da Cartuxa, em Évora. Doze almas e corpos que escolheram viver assim. Sem contacto com o mundo exterior, praticamente sem receber a visita da família, sem falar uns com os outros, a não ser duas tardes por semana. Doze pessoas que abdicaram de tudo para se dedicarem em exclusivo a Deus.
Uma grade de ferro separa o mundo dos silêncios, das solidões e das ausências do mundo dos seus contrários. Uma grade de ferro separa a casa de Deus, como é chamada, das casas e das vidas dos Homens. Os monges costumam dizer que a grade separa a liberdade de dentro das prisões de fora.
A vida do convento começa por volta das seis e meia da manhã. No interior das celas, os monges principiam as suas orações. De joelhos no chão, mãos postas, cabeça baixa, olhos cerrados. Palavras murmuradas, segredadas, orações, pedidos, preces. O sino toca lá fora, quebrando o silêncio e lembrando que, afinal, há gente a viver por detrás dos muros, da grade, para lá da estrada cinematográfica.
A (...) missa do dia é, religiosamente, às 7h45 da manhã. É uma liturgia cantada e as vozes masculinas entoando o canto gregoriano remetem-nos indiscutivelmente para uma ideia de paz. Mas, uma vez mais, trata-se de uma paz peculiar. Uma paz talvez demasiado pacífica, se é possível a redundância. Uma paz demasiado despida do resto.
No Convento da Cartuxa, os monges dividem os dias em três partes, de oito horas cada. Oito horas para a oração, oito oras para o trabalho, oito horas para o descanso. Mesmo quando trabalham, nunca o fazem em equipa, nunca o fazem em parceria. Cada um tem a sua tarefa, definida numa Tábua de Avisos que é preciso consultar. Cada um faz o seu trabalho em silêncio, cada um torna depois á sua cela, onde permanecerá de boca fechada, sem dirigir palavra a ninguém, a não ser ao Senhor. É assim todos os dias, excepto duas tardes por semana, em que se juntam todos para partilhar emoções e conversar sobre a vocação que os une e, contraditoriamente (ou não), os afasta.
Ao meio-dia, novo som a quebrar o vazio. É o chiar das rodas do velho carro de madeira que transporta o almoço de cada monge. O irmão encarregue da entrega empurra o carrinho até à porta de cada cela, abre a portinhola que dá acesso à ministra (espécie de antecâmara da cela) e aí pousa o tabuleiro com o almoço. Cada monge, recolhido em oração no interior da cela, escutará estes movimentos e, a seu tempo, tratará da recolha do tabuleiro. Até as refeições são feitas em silêncio e isolamento.
Para o padre Antão, a viver há 40 anos no Convento da Cartuxa, em clausura, esta estranha forma de vida é a única que lhe permite concentrar-se no único fim, no único objectivo que tem, enquanto estiver na terra: a dedicação total a Deus. O padre, irrepreensivelmente vestido de branco com um capuz a cobri-lhe a cabeça, chega mesmo a fazer a comparação com os desportistas. Também eles têm alguns dias de retiro, antes de cada competição, para que se compenetrem bem naquilo que é o seu objectivo. A lógica da clausura é a mesma, mas levada às últimas consequências. Os mesmos da Ordem Cartusiana consideram que a forma como a sociedade está organizada não lhes permite tamanho empenho. O isolamento é o único meio possível para atingir um fim maior.
Durante o ano, há vários candidatos à vida de clausura cartusiana. Os noviços vêm sobretudo em busca da solidão que lhes falta fora das grades. Depois, os meses passam, e a maioria desiste. É também a solidão que os empurra para fora do convento. Vinham em busca dela. Saem para fugir dela. A solidão não é para todos.
As celas dos monges são consideradas mosteiros dentro do mosteiro. É lá, em total recolhimento, que cada uma das doze almas se encontra mais intimamente com Deus. É lá que são feitas as orações mais profundas, é ali que o encontro é mais forte. Cada cela não é mais que um T1 com quintal. Não há televisão, nem rádio, nem música de qualquer espécie. O único contacto com o mundo pode ser feito de duas maneiras: ou através da leitura de obras trazidas da biblioteca, ou através do cuidado com as plantas cultivadas em cada jardim particular. Para os monges, esta jardinagem privada é de extrema importância, até porque crêem que "o contacto com a Criação eleva ao Criador".
São duas da tarde e os claustros estão desertos. Há uma luz meridional que incide em cada arco, projectando a sua sombra no chão de pedra. São as sombras as únicas habitantes dos claustros imensos. As portas das celas estão fechadas. Lá dentro, os cartuxos isolam-se de tudo. Privados de uma liberdade para alcançarem outra, inatingível, incompreensível, impossível para quem não sentiu nunca o chamamento. Uma estranha forma de vida. Uma estranha forma de liberdade.
Veja o "trailer" do filme "O Grande Silêncio", sobre a vida dos monges cartuxos.
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Sónia Morais Santos
in DNA, 22.03.2003
Publicado em 27.12.2007
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