
A Bíblia ama esconder-se
Vinte ou trinta séculos depois de terem sido escritos, os livros da Bíblia ainda são uma caixa de surpresas?
Os exegetas judeus dizem que cada texto pede que subamos quarenta e nove degraus, que quer dizer também sete vezes sete, símbolo do infinito. As interpretações que os textos sugerem são infinitas. Por isso o texto é sempre surpreendente. O processo de revelação ainda não terminou, continua em cada leitor. Cada vez que alguém se aproxima desses textos, é sempre capaz de descobrir caminhos novos até ao seu interior, até ao seu coração.
E essas descobertas têm a ver com a época que se vive? Ou seja, a palavra da Bíblia, que remete para o eterno, está sujeita, afinal, à temporalidade e à circunstância?
A Bíblia tem a espessura do tempo, tem uma espessura histórica inalienável. Por isso é importante percebermos tanto o ponto de origem daquela palavra como o seu ponto de chegada. O processo de comunicação - e a Bíblia é fundamentalmente um processo de comunicação, como o é a literatura - só fica concluído quando o leitor actual é capaz de ler, de interpretar, de compreender, de praticar a palavra, de realizar a intencionalidade da palavra.
Neste sentido, a História não é, de nenhuma maneira, indiferente a este texto... Ele é profundamente histórico. Sabemos que a Bíblia nasceu da vida, das grandes pulsões da história, de uma história agitada pela fé e pela presença do transcendente. Mas também de uma história tangível, muito marcada, em alguns campos até muito limitada. Esta compreensão da história é importante para compreender a própria palavra.
Na Bíblia, descobrimos cruzamentos de histórias terríveis e poesias do sagrado, palavras humanas e mensagens de Deus, episódios históricos e revelações. Como é possível tomar tanta coisa diferente como palavra de Deus?
É exactamente essa diferença que nos dá acesso a Deus. A Bíblia não é um livro, é uma biblioteca. Como uma vida não é só um dia ou uma atitude, mas uma multiplicidade de atitudes. E, tal como numa vida tudo pode ser germinação de uma identidade - quer os momentos de raiva e os momentos de afecto, quer os momentos de conhecimento e de ignorância, quer os momentos de distância e de proximidade -, assim também, no texto bíblico, as possibilidades de acesso são múltiplas e, em certa medida, também contraditórias.
Mas é essa riqueza, essa não linearidade assumida, uma das fortes garantias de que o caminho proposto pela Bíblia é mesmo um caminho sagrado, um caminho para o transcendente. O que me assustaria era que o caminho fosse muito linear, muito claro, muito definido. É exactamente por ser, na sua natureza, quase uma linha indefinida, que a Bíblia nos dá maior certeza de que estamos a fazer uma viagem para lá de nós mesmos.
As tentativas de interpretação da Bíblia começaram muito cedo e no próprio texto bíblico, com os oráculos de Jeremias, as leituras de Isaías no Novo Testamento, ou as interpretações de Jesus sobre o Antigo Testamento. Mas, até ao século XJX, o sentido profundo do texto bíblico era desconhecido. Qual é a diferença entre as primeiras tentativas de interpretação e os métodos que apareceram nos últimos dois séculos?
Essa questão é muito importante, porque a interpretação e a exegese bíblicas começam na própria Bíblia. Os livros da Bíblia reagem entre si: relêem-se, apagam-se, opõem-se, confirmam-se. E este processo de releitura edifica a própria palavra. Quando se diz que a Bíblia não tem de ser interpretada e tem de ser lida à letra, está a negar-se, de certa maneira, a própria natureza desta palavra, que é uma palavra em elaboração, em reinterpretação.
Ao longo dos séculos, esta reinterpretação foi feita também pelo lado exterior à Bíblia. Na primeira tradição judaica e cristã, a interpretação inicial é muito espiritual, muito alegórica. Mas já nos primeiros séculos, sobretudo com a Escola de Antioquia, começamos a perceber um interesse pela dimensão histórica do texto. Em alguns Padres da Igreja vemos essa preocupação de não se fixar apenas numa leitura alegórica ou crente do texto, mas de tentar percebê-lo na sua própria natureza.
O esforço heróico de um homem como Jerónimo, no sentido de fazer uma tradução fiel do texto, também é o esforço para conseguir uma interpretação histórica e científica do próprio texto. A interpretação não começa com a exegese, começa com a tradução, esse esforço para mudar o texto de uma língua para outra. Nesse sentido, já nos primeiros séculos do cristianismo se percebe a preocupação pela historicidade.
Será a partir do século XVIII que se lançarão as bases para a exegese científica do texto bíblico. Pode perguntar-se porquê só nos últimos séculos. O paradigma do conhecimento mudou. Foi com o Iluminismo, com o mundo das Luzes, que o paradigma deixou de ser mítico-religioso e passou a ter uma formulação científica. Nesse sentido, a Bíblia também se abriu às novas possibilidades que o conhecimento humano trazia.
Quer dizer que o estudo científico da Bíblia ficou devedor, afinal, de movimentos culturais que, em alguns casos, se opunham à dimensão religiosa da vida humana e à própria Bíblia...
Há como que um movimento pendular. Quando nasce um movimento, há uma grande radicalização e o que se acentua é sobretudo a diferença e a ruptura. Depois, há uma assimilação dos ideais desse movimento e, uma vez a poeira assente, pode ver-se a nova paisagem introduzida.
Se, numa primeira fase, as leituras que se faziam da Bíblia eram sobretudo de ataque - dizendo que aquela palavra não era científica ou não era verdadeira, porque o Pentateuco, por exemplo, não era da autoria de Moisés - percebeu-se depois que a Bíblia não pode ser julgada a esse nível. A sua verdade é de outra natureza. E só com o passar do tempo, acalmadas essas primeiras energias de ruptura, é que se percebe que as novas descobertas, em vez de negar, acabam por trazer uma diferente iluminação à leitura dos textos bíblicos.
O Pentateuco não foi escrito por Moisés, muitas das palavras atribuídas a Jesus não foram, afinal ditas por ele. Se a investigação continuar a dizer-nos coisas deste género, o que vai sobrar?
A primeira atitude dos cristãos foi de acreditar que a veracidade e a importância daqueles textos tinha a ver com a sua autoria (por isso temos textos apócrifos com uma falsa autoria, para lhes dar uma autoridade externa) e dizer, em relação aos Evangelhos, que só a «ipsissima verba», o que o próprio Jesus teria dito, é que tem importância. O resto seria palha, adereço, circunstancialismo.
Já se ultrapassou essa fase e hoje percebe-se que o importante não é andar a fazer uma investigação no interior do texto, isolando o que Jesus teria dito, porque de certa maneira isso é-nos inacessível. A Bíblia não é crónica, não é trabalho jornalístico, não é relato biográfico. É uma experiência que nos é relatada através da mediação da vida. Por isso não pode deitar-se fora o circunstancialismo sem nos arriscarmos a deixar de fora o mais importante.
Hoje, a preocupação não está tanto em repartir o texto, em dizer o que pertence a esta fonte ou àquela, mas muito mais em aceitar a globalidade do texto e perceber como ele funciona. E procurar entender como é que a experiência que aqueles homens e comunidades fizeram de Jesus Cristo foi decisiva nas suas vidas a ponto de a transmitirem de uma maneira e não de outra.
A fixação à letra já não é a atitude dos exegetas, mas ela continua ainda muito presente em correntes fundamentalistas, que consideram que a Bíblia deve ser lida tal qual. Estamos perante a recusa do conhecimento e da descoberta do autêntico sentido da Bíblia?
Esse é o drama. Por um lado, há uma exegese, feita nas faculdades e pelos biblistas, que tem em conta todos os avanços das ciências humanas e da ciência literária. Por outro, o nível da crença e o nível pastoral têm uma relação com a Bíblia feita de muito desconhecimento do próprio texto, e que nem sempre consegue aproveitar as descobertas e o que vai sendo dito pela exegese.
Isso cria situações de algum constrangimento no interior da comunidade que lê porque, em contraste com o discurso dos biblistas e dos estudiosos, tais leituras são, frequentemente, muito imediatistas, muito em função de uma necessidade precisa.
Esse é um grande desafio para a Igreja: aprofundar e dar maior consistência à leitura que os crentes e as comunidades fazem do próprio texto bíblico. Para evitar esses fluxos fundamentalistas que são parte da cultura do nosso tempo e que se verificam também no interior da Igreja.
Não se regista também, pelo menos da parte de algumas correntes, um aproveitamento do texto bíblico para justificar o apelo a um conjunto de normas morais?
Essa é uma tentação de há muitos séculos e da qual não nos libertámos completamente: usar ou abusar da Bíblia apologeticamente, fazendo dos seus textos um chorrilho de citações usadas fora do contexto e que servem para afirmações de poder ou de doutrina muito parciais.
Hoje há uma maior consciência de que a abordagem do texto não pode ser instrumental, mas deve respeitar a soberania, a liberdade, a unidade, a força do próprio texto. E, como diz o Concílio Vaticano II, a Igreja é serva da palavra e não é a palavra que é serva da Igreja. A Igreja é que se coloca, como instrumento, ao serviço da experiência narrada e encerrada nesta palavra. E não o contrário.
As grandes rupturas dentro do cristianismo actual passam pelo modo como se lê e encara a Bíblia. Essa foi também uma das grandes causas da ruptura protestante. Qual pode ser hoje o caminho para tornar a Bíblia uma fonte de reconciliação e não uma fonte de mais rupturas?
Hoje, no diálogo ecuménico, a Bíblia representa um dos pontos de excelência para essa comunhão. Caminhou-se muito no sentido de uma leitura ecuménica dos textos. Penso em exemplos de traduções como a «TOB» [Tradução Ecuménica da Bíblia, da sigla francesa] ou a «Bíblia de Jerusalém», que são grandes traduções actuais, feitas por grupos ecuménicos de biblistas.
O campo exegético não é marcado entre católicos e protestantes, mas é hoje um campo aberto, de livre circulação.
É possível fazer exegese entre cristãos e judeus - pelo menos no que diz respeito aos textos do Antigo Testamento?
Tanto é possível que há um conjunto de exegetas que reabilitaram os métodos judaicos de leitura e interpretação da Bíblia, o que traz uma grande riqueza à leitura. A quantidade de abordagens ao Antigo Testamento feitas segundo as tradições rabínicas são inúmeras e conhecem um grande sucesso entre os leitores. Esta é também uma aproximação importante.
Há uma grande pluralidade de métodos de interpretação bíblica: histórico-crítico, sincrónico, de análise literária, de libertação, feminista, etc. Esta pluralidade não é inimiga de uma leitura correcta da Bíblia?
Não há uma leitura exclusiva da Bíblia. O grande perigo é acharmos que existe “a” leitura. O que existe são leituras. É preciso sentir que a palavra ama esconder-se. A palavra é um horizonte para onde se caminha, mas a palavra está sempre além, fica sempre por dizer. A palavra é um interdito. Conseguimos dizer, entre as nossas palavras, a palavra. Muitas vezes, é o silêncio o que melhor traduz a experiência que nós temos da leitura da palavra.
A pluralidade dos métodos é necessária, O documento da Comissão Bíblica Pontifícia [de 1993] sobre a exegese católica, por exemplo, revela uma sensatez extraordinária ao dizer que não existe um método, mas existem métodos, e ao ajudar a perceber o valor e os limites de cada um deles.
Esta tese vai ao encontro da própria natureza das hermenêuticas, que são favoráveis ao recurso a múltiplas ferramentas. Não existem, hoje, hermenêuticas puras. O que há são hermenêuticas predominantes mas que se apoiam em recursos diferentes. E hoje, para a abordagem da Bíblia, é preciso recorrer a metodologias muito diversas. Quando pensamos que só existe um caminho e que se é o dono ou o dominador da verdade, estamos a um passo do fundamentalismo.
Abrimos a “Nova Bíblia dos Capuchinhos” e lemos, no início do Evangelho de São João: “No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus.” Abrimos a tradução ecuménica em português e lemos, no mesmo passo: “No princípio de tudo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e ele mesmo era Deus.” A linguagem da tradução deve adaptar-se aos públicos a que se dirige? Ou cada tradutor inspira-se e traduz da forma como a sua aproximação pessoal o conduz?
Defendo que devemos ser o mais fiéis possíveis ao texto original. O nosso esforço não deve ser em relação ao leitor, transformando o texto para ele ser perceptível, mas em apresentar o texto tal como ele é, respeitando a força desse corpo, da sua natureza e mesmo da sua dificuldade.
Fizeram-se várias tentativas no sentido de facilitar, o que acaba por colocar os leitores numa certa menoridade ou indigência. O que devemos é potenciar a capacidade de os leitores perceberem, saborearem e compreenderem a beleza de textos que são muito diferentes do modo como correntemente esses leitores falam ou escrevem.
Desse ponto de vista, as traduções em língua corrente não são, então, as melhores.
Percebo as intenções dessas traduções e dou muito valor ao esforço. Mas creio sinceramente que acabamos por desvirtuar muito o texto e o que poderia ser uma aproximação ao mundo bíblico.
Como se traduz a Bíblia? Qual é o exercício que o tradutor faz?
Primeiro, tem de ser um exercício de aprofundamento em relação ao texto. Mergulhar no mundo do texto, no contexto e nos vários contextos. Depois, ser fiel ao texto, ao estilo, ao ritmo, à sua musicalidade interior, para podermos passar o texto de uma maneira fiável. A nossa grande fidelidade tem de ser em relação ao texto.
A Bíblia é um grande texto literário e não podemos fazer dela um texto tão desfigurado que pareça um almanaque ou um folhetim. Todos perdemos quando um grande poema na língua original acaba por ser um trocadilho ou um conjunto de frases desarmonizadas. Ficamos todos a ganhar se um grande poema em hebraico é também um grande poema em português.
José Tolentino Mendonça
in A Leitura Infinita, ed. Assírio & Alvim
Entrevista conduzida por António Marujo
Texto publicado originalmente na revista «Ler», n.º 46 (1999)
22.10.2008
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