Vemos, ouvimos e lemos
Palavra poética

A atenção, única via para o mistério

Poesia também é atenção, ou seja, leitura em múltiplos planos da realidade à nossa volta, que é a verdade em imagens. E o poeta, que vai desfazendo e recompondo essas imagens, é também um mediador: entre o homem e o deus, entre o homem e o outro homem, entre o homem e as regras secretas da natureza.

Os gregos foram seres desdenhosos da imaginação: a fantasia não encontrou lugar no seu espírito. A sua atenção heróica, irremovível (cujo exemplo extremo é talvez Sófocles) sem cessar estabelecia relações, e sem cessar separava e unia, num esforço permanente de decifração tanto da realidade como dos mistérios. Os chineses meditaram durante milénios do mesmo modo, em torno do maravilhoso Livro das Mutações. Dante, por mais escandaloso que possa soar, não é um poeta da imaginação, mas da atenção: ver almas a contorcer-se no fogo e no azeite a ferver, ou entrever no orgulho um manto de chumbo, é uma suprema forma de atenção, que deixa puros e incontaminados os elementos da ideia.

A arte de hoje é em grandíssima parte imaginação, ou seja, contaminação caótica de elementos e de planos. Tudo isto, naturalmente, vem opor-se à justiça (que de facto não interessa à arte de hoje).

Se portanto a atenção for expectativa, aceitação fervorosa e impávida do real, a imaginação é impaciência, fuga para o arbitrário: eterno labirinto sem fio de Ariadna. Por isso a arte antiga é sintética, e a arte moderna analítica; uma arte em grande parte de pura decomposição, como convém a uma época que se nutre de terror. Dado que a verdadeira atenção não conduz, como poderia parecer, à análise, mas antes à síntese que a resolve, ao símbolo e à imagem – numa palavra, ao destino.

A análise pode tornar-se destino quando a atenção, conseguindo realizar uma sobreposição perfeita de tempo e de espaços, for capaz de recompô-los, de cada vez, na pura beleza da figura. É a atenção de Marcel Proust.

A atenção é o único caminho para o inexprimível, a única via para o mistério. De facto, está solidamente ancorada no real, e só por alusões ocultas no real se manifesta o mistério. Os símbolos das sagradas escrituras, dos mitos, dos contos tradicionais, que durante milénios alimentaram e consagraram a vida, revestem-se das formas mais concretas desta terra: da Sarça Ardente ao Grilo Falante, do Fruto do Conhecimento às Abóboras da Gata Borralheira.

Perante a realidade, a imaginação recua. Em contrapartida, a atenção penetra-a, directamente e como símbolo (basta pensar nos céus de Dante, divina e minuciosa tradução de uma liturgia). Ela é portanto, afinal, a forma mais legítima e absoluta de imaginação. Aquela a que alude sem dúvida o antigo texto de alquimia onde se recomenda que à obra seja dedicada “a verdadeira imaginação e não a fantástica. Entendendo-se com isto, claramente, a atenção em que está presente a imaginação, sublimada, tal como o veneno nos medicamentos. Por um desses equívocos de linguagem tão abundantes, vulgarmente chama-se-lhe “fantasia criadora”.

Pouco importa se a este instante criador, em que se realiza a alquimia da perfeita atenção, conduzam longas e dolorosas peregrinações, ou se nasça de uma iluminação. Estes relâmpagos não são mais do que a centelha (de origem e natureza cada vez mais misteriosas à medida que para cada coisa nos é fornecida uma chave) que a atenção solicita e prepara: como o pára-raios o raio, como a oração o milagre, como a procura de uma rima a inspiração que justamente dessa rima poderá brotar.

Às vezes é a atenção de toda uma estirpe, de toda uma genealogia, que se inflama repentinamente perante a centelha de um deus: “Eu pus os pés naquela parte da vida de lá da qual já não se pode sair pelo desejo de voltar...”.

Este indivíduo da atenção conclusiva, assaltante, o mundo define-o como uma abreviação muito bela, um génio, significando aquele que é habitado por um demónio, que encarna a manifestação de um espírito desconhecido.

Tal como o gigante da garrafa, da imagem a atenção liberta a ideia, e depois novamente recolhe a ideia dentro da imagem: à semelhança, mais uma vez, dos alquimistas que primeiro derretiam o sal num líquido e depois estudavam de que modo se tornava a cristalizar em figuras. Ela opera uma decomposição e uma recomposição do mundo em dois momentos diferentes e igualmente reais. A justiça cumpre assim o destino: esta dramática decomposição e recomposição de uma forma.

A expressão, a poesia que daí nasce, evidentemente não poderá deixar de ser uma poesia hieroglífica: parecida com uma nova natureza. De tal modo que só uma nova atenção, um novo destino, poderá decifrá-la. Mas a palavra desvenda instantaneamente a que grau de atenção nasceu. Desvenda-o com o seu peso, terrestre e supraterrestre: tanto mais respeitado, mais circundado de silêncio e de espaço quanto mais intenso tiver sido o tempo da atenção.

Todas as palavras se oferecem nos seus múltiplos significados, análogas às falhas de uma coluna geológica: cada uma diferentemente colorida e habitada, cada uma reservada ao grau de atenção de quem a deverá acolher e decifrar. Mas para todos, quando for pura, tem um pleno dom, que é total e parcial ao mesmo tempo: beleza e significado, independentes e todavia inseparáveis, como numa comunhão. Como naquela primeira comunhão que foi a multiplicação dos pães e dos peixes.

A palavra do mestre, diz um conto hebraico, parecia a cada um um segredo destinado ao seu ouvido e a nenhum outro; de modo que cada um ouvia como sua, e completa, a história maravilhosa que ele contava nas praças públicas e de que todos os recém-chegados não ouviam senão um fragmento.

Cristina Campo

in Os imperdoáveis

01.08.2008

 

 

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