Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Um padre na nova rede social que está a dar que falar

«Um padre para tagarelar.» Decidi intitular assim a primeira “room” na Clubhouse. E foi um grande sucesso. Mas o que é o Clubhouse? O que é uma “room”? Em que sentido tagarelar? Vamos por partes. Clubhouse é uma nova rede social nascida nos EUA que está a ser um sucesso nestas últimas semanas. Por agora trata-se ainda de uma versão beta, de experimentação, desenvolvida apenas para a Apple e acessível por convite. A força do Clubhouse é a palavra “falada”: não há imagens nem vídeo, e também não é possível escrever aos outros utilizadores ou deixar comentários. Fala-se, e é só, dentro de salas propositadamente criadas para oferecer ocasiões de diálogo, partilha e aprofundamento (ou simplesmente para tagarelar disto e daquilo).

Quando um amigo me convidou para o Clubhouse, antecipando-me que só podia falar e escutar as palavras dos outros, disse logo que sim. No fundo, a nossa fé vem precisamente da Palavra, e estou convicto de que esta Palavra pode continuar a falar também uma rede social que gira totalmente em torno à palavra.

Atirei-me e, sem demora, criei uma “room”. «Um padre para tagarelar»: este o título da sala. Eram 22h30 e francamente não esperava que pudesse entrar muita gente. Aliás, eu só queria fazer uma experiência. Estava meramente curioso em compreender como funcionava a Clubhouse, nada mais. Mas tive de mudar de propósitos.

Em poucos instantes entraram dezenas e dezenas de pessoas. Algumas já as conhecia, de outras só ouvi falar no Clubhouse, mas a maior parte era-me totalmente desconhecida. Muitíssimas queriam sobremaneira falar com um padre, mas há muito tinham-se afastado da paróquia; outras tinham perguntas a que nunca conseguiram dar uma resposta; outras, ainda, queriam simplesmente partilhar a sua experiência de fé, dado que não é fácil conseguir falar deste tema hoje em dia. As intervenções sucediam-se uma após outra. Crentes, pouco crentes, ex-crentes, ateus: todos ali para debater a fé, a relação com Deus, o sentido da vida.

A determinado momento, um homem pede-me permissão de dar a palavra à sua mulher, que estava a escutar junto dele. A senhora saúda-me, agradece-me, fala. E por sua vez pede-me autorização para fazer intervir o filho de catorze anos, em plena crise de fé, que tinha uma pergunta para mim: se Deus existe verdadeiramente, porque permitiu o extermínio dos judeus nos campos de concentração nazis?

Incrível. Bastou improvisar um espaço virtual para juntar quase uma centena de pessoas das 22h30 à meia-noite e tagarelar de maneira educada e edificante sobre questões que habitualmente são censuradas nas nossas conversas.

Não sei se estas pessoas se converteram, mas não me importam. Certamente também não mudam de vida todos aqueles que escutam as minhas homilias dominicais nos bancos da igreja. Mas, por outro lado, como diz S. Paulo, a fé vem pela escuta. Se o Clubhouse nos oferece espaços para fazer ressoar a Palavra de Deus e chegar ao coração daqueles que escutam, só podemos regozijar-nos por esta oportunidade. E até decidir aproveitá-la.


 

Alberto Ravagnani
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 23.02.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos