
A igreja, a capela e o oratório de Peter Zumthor (1/4)
Iniciamos hoje uma série de quatro artigos sobre a obra de Peter Zumthor, a propósito da exposição que decorre em Lisboa, até 2 de Novembro, sobre os edifícios e projectos concebidos entre 1986 e 2007.
No primeiro texto a nossa atenção dirige-se para o perfil do arquitecto suíço. Seguir-se-ão os artigos sobre a Igreja do Coração de Jesus (Munique, Alemanha), a Capela de São Bento (Sumvitg, Suíça) e o oratório da Capela de São Nicolau (Mechernich, Alemanha).
Peter Zumthor sorri quando lhe perguntam se o incomoda que o considerem um místico. “Isso são coisas que gostam de escrever nas revistas.” Ao arquitecto suíço pouco interessam os símbolos e a simbólica. A sua linguagem é a arquitectura, com os seus materiais e processos de construção. Nascido em 1943 em Basileia, filho de um artesão de mobiliário, desde cedo aprendeu a explorar as qualidades tácteis, plásticas e reactivas dos materiais, bem como a cuidar quase religiosamente dos detalhes e pormenores finamente executados.

“Nós [suíços] vivemos num lugar que ainda tem muito a ver com a tradição cultural assente na figura do artesão, do trabalho de precisão. Nós fazemos coisas precisas. É uma coisa que tem a ver com a cultura do país. (…) Aprendi com o meu pai e com os meus professores que se temos que fazer algo, então que o façamos bem. Estou orgulhoso disso.”

É em Hadenstein, Suiça, onde vive e se situa também o seu atelier, que Peter Zumthor dá forma à sua visão e pensamento, procurando novas direcções, outros modos de olhar, de sentir e de experimentar a arquitectura, num processo criativo que tem tanto de livre como de apaixonante.

“Há sempre um novo começo em cada projecto. Geralmente este inicia-se com uma imagem forte representada por um simples desenho. Cada projecto toma a forma de uma nova investigação. (…) [Mas] a inovação por si só não é um objectivo para mim. Quero ter a liberdade de viver e trabalhar em relação com tudo o que já foi feito na história do mundo, e que eu possa conhecer. Quero poder trabalhar com tudo aquilo que já foi experimentado e que está ao meu dispor. E quero fazê-lo com paixão. A paixão produz qualidade.”

É deste modo emotivo e profundo nos sentimentos – “essa é apenas a minha maneira de trabalhar: as emoções e o sentimento são a base, e o intelecto compreende, ordena e transforma. Emoção e intelecto são uma dualidade inseparável quando trabalho. Mas a emoção, a imagem ainda não compreendida, chega primeiro” – que surge a arquitectura de Peter Zumthor.

Edifícios exemplares, intemporais e incontornáveis. Pela certeza e simplicidade do seu conceito, reflexo de uma intuição e sensibilidade próprias da obra de arte, pela qualidade e rigor do seu minimalismo formal, rico na expressão essencial das relações entre materiais e elementos etéreos, pela harmonia e subtileza da sua integração na paisagem, e pela perfeição e naturalidade do acabamento e detalhe, cuidadosamente trabalhado e executado.

“Os edifícios de Peter Zumthor nada têm de triunfal. Parecem desprovidos dos gestos de uma arrogância reprimida, da grandiosidade da prestigiada arquitectura contemporânea, desprovidos da urgência de ter de atrair a atenção geral no espaço público. (...) A arquitectura de Zumthor é distinta, destaca-se da sua envolvência, e dispensa um gesto extravagante para se fazer notar. Está simplesmente ali, pungente, confiante, e como que se sempre ali tivesse estado - como se não pudesse ser de outra forma.” (Hans-Joachim Müller)

A Peter Zumthor não interessa o protagonismo. Avesso a mostras ou apresentações do seu trabalho em exposições, livros ou catálogos, declinou durante 40 anos a propostas feitas, para ceder apenas agora aos pedidos de numerosas instâncias da comunidade académica e intelectual internacional.

A Peter Zumthor interessam edifícios que fiquem a fazer parte do nosso tempo e das nossas vidas, onde se sinta o tempo passar e onde haja naturalidade. Mas acima de tudo, interessam-lhe a vida e as pessoas.

“Gosto principalmente de edifícios onde as pessoas gostem de viver.”



João Alves da Cunha
Arquitecto
06.10.2008
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