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Todos os dias há milagres, mas não os vemos porque só procuramos o extraordinário

O excerto evangélico de Marcos 6, 1-6 interroga-nos sobretudo sobre a nossa atitude habitual e quotidiana: atitude que em profundidade não espera nada, e portanto não aguarda ninguém; e sobretudo, atitude que não consegue imaginar que do quotidiano, do outro que nos é familiar, daquele que conhecemos, possa brotar para nós uma palavra verdadeiramente de Deus. Não temos muita confiança no outro, em particular se o conhecemos de perto, mas estamos sempre prontos a acreditar no “extraordinário”, a quem quer que se imponha. Estamos de tal maneira pouco munidos de fé-confiança, que impedimos que aconteçam milagres, porque, mesmo que aconteçam, não os vemos, não os reconhecemos, e portanto permanecem como eventos insignificantes, sinais que não alcançam o seu fim.

Esta, em profundidade, é a mensagem daquela passagem do Evangelho, uma página que diz respeito à nossa fé, à nossa disponibilidade em acreditar. Jesus nasceu de uma família normal: um pai artesão e uma mãe doméstica, como todas as mulheres do tempo. A sua família tinha irmãos e irmãs, isto é, parentes, primos, uma família numerosa e ligada por fortes vínculos de sangue, como acontecia no Oriente. Desde pequeno, como todo o jovem judeu, Jesus ajudou o pai nos trabalhos, brincou, conduziu uma vida muito quotidiana, sem que nada deixasse transparecer a sua vocação e a sua singularidade. Depois, a certo ponto, não sabemos quanto, começaram para Ele aqueles que Robert Aron denominou «os anos obscuros de Jesus», junto do rio do Jordão e do mar Morto, no deserto da Judeia, onde viviam grupos e comunidades de crentes judeus na expetativa do dia do Senhor, homens dedicados à leitura das Sagradas Escrituras, à vigilância e à oração. Jesus, a certa idade, chegou a esses lugares, e aí torna-se discípulo de João Batista. Depois, o chamamento de Deus e a unção do Espírito Santo impeliram-no a ser um pregador itinerante do Reino, dando início ao seu ministério na Galileia, a terra na qual tinha sido criado.



Jesus era um homem como os outros, apresentava-se sem traços extraordinários, aparecia frágil como todo o ser humano. Tão quotidiano, tão modesto, sem alguma coisa que na sua forma humana proclamasse a sua glória e a sua singularidade, sem um “cerimonial” feito de pessoas que o acompanhassem e o tornassem solene e munido de poderes



E quando Jesus passa a ter um grupo de discípulos que vivem com Ele, passando de povoação em povoação para pregar, num dia de sábado entra na sinagoga de Nazaré, “a sua pátria”- Regressa após muito tempo passado noutros lugares, e os habitantes da povoação recordam-no como “filho de” e “irmão de”. No momento da leitura do trecho da Torah e dos profetas. Jesus, sendo um crente em aliança com Deus, como qualquer outro judeu, e tendo mais de doze anos, portanto na qualidade de “bar mitzwah”, filho do mandamento, sobe ao ambão, lê as Escrituras e comenta a Palavra. Não é sacerdote, não é um rabi oficialmente reconhecido – “ordenado”, diríamos nós –, mas exerce o direito de ler a Escritura e proferir a homilia.

Diferentemente de Lucas, Marcos não especifica nem os textos bíblicos proclamados nem o conteúdo do comentário de Jesus, mas evidencia a reação da assembleia litúrgica que o escutou. Por outro lado, a sua fama tinha-o precedido: regressa a Nazaré como um rabi, um “mestre” de perfil profético, capaz de realizar curas, ações milagrosas com as suas mãos. A primeira reação é de espanto e admiração: é um excelente pregador, tem autoridade, a sua palavra sensibiliza e é cheia de sabedoria. A pergunta que suscita é: «De onde lhe vêm estas coisas? E que sabedoria é aquela que lhe foi dada? E os prodígios realizados pelas suas mãos?». Interrogam-se, portanto, sobre a identidade de Jesus, como já tinha acontecido na sinagoga de Cafarnaum, e a resposta poderia ser uma adesão a Jesus na fé, reconhecendo que nele age o Espírito Santo; ou uma rejeição de Jesus, atribuindo ao demónio a sua força no anunciar a Palavra e no realizar prodígios.



Era demasiado humano, e por isso «escandalizavam-se dele», isto é, sentiam precisamente naquilo que viam, naquela sua humanidade tão quotidiana, um obstáculo para ter fé nele e na sua palavra. Por isso homologam-no a eles próprios, reduzem-no à sua estatura, e Jesus torna-se para eles um estorvo, um escândalo que impede um encontro de salvação



E nesta admiração superficial eis que emerge outra pergunta: «Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs, não estão aqui entre nós?». Trata-se, na realidade, de uma interrogação que contém em si uma tonalidade denegridora. Jesus – pensa-se – exerceu apenas o seu ofício de carpinteiro, portanto não está autorizado a ensinar; além disso, é o filho de Maria, dele conhece-se o pai, que não é nomeado, e os seus familiares são bem conhecidos, continuam a residir na povoação. Por isso, o que pretende, o que quer? Porque é que deve ser “outro”, ou alguém com uma missão especial? Sim, Jesus era um homem como os outros, apresentava-se sem traços extraordinários, aparecia frágil como todo o ser humano. Tão quotidiano, tão modesto, sem alguma coisa que na sua forma humana proclamasse a sua glória e a sua singularidade, sem um “cerimonial” feito de pessoas que o acompanhassem e o tornassem solene e munido de poderes ao surgir no meio dos outros.

Não, demasiado humano! Mas se não nele nada de extraordinário, porquê acolher a sua mensagem? Com toda a probabilidade, Jesus não tinha sequer uma palavra sedutora, não dava ares que o fizessem ser admirado ou venerado. Era demasiado humano, e por isso «escandalizavam-se dele», isto é, sentiam precisamente naquilo que viam, naquela sua humanidade tão quotidiana, um obstáculo para ter fé nele e na sua palavra. Por isso homologam-no a eles próprios, reduzem-no à sua estatura, e Jesus torna-se para eles um estorvo, um escândalo que impede um encontro de salvação. Orgulham-se de conhecer Jesus humanamente, «segundo a carne», mas na realidade impedem a si próprios o verdadeiro conhecimento dele.



Eis o que espera cada pessoa que tenha recebido um dom de Deus, mesmo que apenas uma migalha de profecia: torna-se insuportável, e portanto domina a convicção que é melhor não lhe dar confiança



Por isso aquele regresso à terra-natal foi um fracasso. Jesus compreende-o e ousa proclamá-lo em alta voz: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa». Sim, foi o que aconteceu: precisamente quem pretendia conhecê-lo, enquanto concidadão, vizinho ou familiar, não consegue reconhecer a sua verdadeira identidade e acaba por desprezá-lo. Marcos tinha já anotado que no início da sua pregação os seus familiares tinham vindo prendê-lo e levá-lo embora, dizendo que Ele estava louco, fora de si; mas agora é toda a gente de Nazaré que emite esse juízo negativo sobre Ele: a sua atitude é excessivamente humana, pouco sacral, pouco ritual; não responde aos cânones previstos para discernir nele um enviado de Deus, o Messias esperado.

Jesus, então, põe-se a curar os doentes lá presentes, impõem-lhes as mãos e cura somente alguns, mas é como se não tivesse realizado prodígios, porque o milagre acontece quando a testemunha está disposta a passar da incredulidade à fé. Em Nazaré, pelo contrário, todos ficaram incrédulos, e por isso Marcos sentencia: «Não podia realizar nenhuma ação de poder». Jesus foi reduzido à impotência, não pode agir na sua força, não pode também fazer o bem, porque falta o requisito mínimo, a fé nele da parte dos presentes. Que mal tinha Jesus? Em relação àqueles “seus”, caminhava demasiado à frente dos outros, tinha um passo demasiado veloz, via demasiado longe, tinha a parrésia, a coragem de dizer aquilo que os outros não diziam, ousava pensar aquilo que os outros não pensavam, e tudo isto permanecendo humano, humaníssimo, demasiado humano! Neste episódio Jesus é a sabedoria desconhecida; o profeta não acolhido precisamente por aqueles aos quais é enviado, desprezado por quantos lhe são mais próximos; o curador que não pode fazer o bem porque isso lhe é impedido pelo não acolhimento da sua ação que dá salvação.

Eis o que espera cada pessoa que tenha recebido um dom de Deus, mesmo que apenas uma migalha de profecia: torna-se insuportável, e portanto domina a convicção que é melhor não lhe dar confiança… Jesus «admira-se com a sua falta de fé», e todavia mantém-se firme: continua com fidelidade a sua missão em obediência àquele que o enviou, indo para outros lugares, sempre a pregar e a fazer o bem. Mas sem receber fé-confiança, Jesus não consegue nem converter nem curar, e tão-pouco fazer o bem.


 

Enzo Bianchi
In Altrimenti
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Aliaksandr Antanovich/Bigstock.com
Publicado em 30.06.2021

 

 
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