Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Tocar e deixar-se tocar

O que é a impureza? Quando é que uma pessoa é impura, isto é, indigna de estar com os outros e com Deus? Quando é que uma pessoa fica “marcada” por uma condição maléfica? E poderíamos continuar a colocar perguntas semelhantes ou paralelas, porque desde sempre estas interrogações emergem nos nossos corações nas diferentes situações da nossa vida. E as respostas que nós, seres humanos, demos, e possivelmente continuamos a dar, nem sempre refletem a vontade do Criador, os sentimentos de Deus. Infelizmente, os caminhos religiosos traçados pela humanidade refletem muitas vezes não o pensamento de Deus, mas são antes o fruto de sentimentos humanos para os quais se encontraram justificações que são fonte de alienação ou de separação entre os humanos.

Nestes percursos, o sangue, sinal da vida nos animais e nos humanos, atraiu fortemente a atenção sobre si. Cada um de nós nasceu no sangue que flui do útero da mãe e cada um de nós morre quando o seu sangue deixa de correr. Eis, portanto, a Lei e as leis: o sangue que sai de uma mulher na menstruação ou no nascimento de um filho torna-a impura, assim como cada pessoa quando morre entra na situação de impureza, porque está à mercê da corrupção do seu corpo. O sangue torna impuro, torna indigno, e esta, para a mulher, é uma escravidão traçada pela sua condição segundo a Lei, e por isso – dizem os homens religiosos – de Deus. A mulher impura por causa da menstruação ou da gravidez não tocará coisas santas, não entrará no templo (no Santo), e para purificar-se deverá oferecer um sacrifício; também quem tocar uma mulher impura ficará impuro, impuro como um leproso e quem o toca, impuro como um morto e quem o toca. Daqui erguem-se barreiras, muros, separações entre pessoas, em síntese, a imposição da exclusão e da marginalização. É verdade que com o objetivo de “salvaguardar o bem”, para evitar o contágio, para instaurar um regime de imunidade; mas ao preço da criação de uma barreira e da indignidade-impureza colocada como selo sobre algumas pessoas. Mesmo as medidas de precaução acabam por se tornar uma condenação.



Amar o outro vale mais que a oferta a Deus de um sacrifício, ser misericordioso é viver o preceito, o mandamento dado pelo Deus misericordioso e compassivo



Mas Jesus veio precisamente para fazer cair estas barreiras: Ele sabia que não é possível que o sangue de um animal oferecido em sacrifício possa eliminar o pecado e tornar a pessoa pura, como da mesma maneira o sangue de uma mulher derramado pelo natural ciclo menstrual ou o corpo de um morto não podem gerar impureza, indignidade de estar com os outros e diante de Deus. Por isso os Evangelhos sublinham que Jesus não só curava os doentes, os impuros, como os leprosos ou como as mulheres atingidas por hemorragia, mas tocava-os e por eles se fazia tocar. Jesus abole toda a espécie de separação imposta pela lógica sacral, dado que Ele não era um homem sacral como os sacerdotes, sendo um judeu leigo, não de estirpe sacerdotal, e porque via nas leis da sacralidade uma contradição à caridade, à relação tão vital para os seres humanos. Amar o outro vale mais que a oferta a Deus de um sacrifício, ser misericordioso é viver o preceito, o mandamento dado pelo Deus misericordioso e compassivo. Em Jesus havia a presença de Deus, e por isso era «o Santo de Deus», mas não temia contrair a impureza; pelo contrário, proclamava e mostrava que a santidade de Deus santifica, em vez de tornar impuro, consome e queima o pecado e a impureza, porque é uma santidade que é misericórdia. Nesta ação de Jesus, além disso, é impossível não ver uma libertação da mulher da escravidão e alienação impostas pela cultura dominante.

Por isso Jesus deixava que os doentes o tocassem, tivessem contacto com o seu corpo, por isso Ele tocava os doentes: toca o leproso para o curar, toca as orelhas e a língua do surdo-mudo para as abrir, toca os olhos do cego para voltar a dar-lhe a vista, toca as crianças e impõe as suas mãos sobre elas, toca o morto para o ressuscitar; e por sua vez deixa tocar-se pelos doentes, por uma prostituta, pelos discípulos, pelas multidões… Tocar, esta experiência de comunicação, de con-tacto, de corpo a corpo, ação sempre recíproca (toca-se e é-se tocado, incindivelmente), este comunicar a sua alteridade e sentir a alteridade de outro… Tocar é o sentido fundamental, o primeiro a manifestar-se em cada um de nós, e é também o sentido que mais nos envolve e faz experimentar a intimidade do outro. Tocar é sempre proximidade, reciprocidade, relação, é sempre o vibrar de todo o corpo ao contacto com o corpo do outro.



Se Deus tinha descido para libertar o seu povo no Egito, terra impura, habitada por gente impura, também Jesus sente que pode estar entre impuros e encontrar-se com eles, dando-lhes a libertação



As duas ações de Jesus reportadas por Marcos 5, 21-43 estão unidas entre elas pelo tocar: Jesus é tocado por uma mulher hemorroíssa e toca o cadáver de uma criança. Duas ações proibidas pela Lei, e no entanto aqui colocadas em relevo como ações de libertação e de caridade. Este tocar não é uma ação mágica, mas eminentemente humana, humaníssima: “toco-te, logo estou contigo!”. Enquanto Jesus passa com a força da sua santidade no meio das pessoas, uma mulher doente de hemorragia vaginal pensa que pode ser curada tocando apenas o seu manto, o “tallit”, o xaile da oração. Consegue-o, e então, amedrontada e a tremer, na convicção de ter cometido um gesto interdito pela Lei, um ato que torna Jesus impuro, uma vez descoberta confessa o seu “pecado”. Mas Jesus, que com o seu olhar a procura entre a multidão, escutada a confissão diz-lhe com ternura e compaixão: «Filha, a tua fé salvou-te. Vai em paz e fica curada do teu mal». Ele comporta-se desta maneira não para infringir a Lei, mas porque se refere à vontade de Deus, sem se deter no preceituário humano. E se Deus tinha descido para libertar o seu povo no Egito, terra impura, habitada por gente impura, também Jesus sente que pode estar entre impuros e encontrar-se com eles, dando-lhes a libertação. Por isso Ele sentiu sair de si «uma energia» quando a mulher o tocou, porque a sua santidade passava para aquela mulher impura.

Logo depois Jesus é conduzido à casa do chefe da sinagoga, Jairo, onde jaz a sua filhinha de doze anos há pouco morta. Levando consigo apenas Pedro, Tiago e João, mal entra na casa ouve tumulto, lamentos e gritos por aquela morte; então, mandando todos para fora do quarto, naquele silêncio toma a mão da menina e diz-lhe em aramaico. «Talità kum», menina, Eu te digo: levanta-te! Também aqui a santidade de Jesus vence a impureza do cadáver, vence a possível corrupção e comunica à criança uma força que é ressurreição, possibilidade de voltar a pôr-se de pé e retomar a vida.



É a nossa carne que se tornou a carne de Deus, e Jesus, o Filho, assumiu-a não como um peso de que libertar-se voltando ao Pai, mas como um meio para encontrar a humanidade, para ser nosso irmão em plena solidariedade, igual a nós em tudo exceto no pecado



Tocar o outro é um movimento de compaixão;
tocar o outro é desejar com ele;
tocar o outro é falar-lhe silenciosamente com o seu corpo, com a sua mão;
tocar o outro é dizer-lhe: «estou aqui para ti»;
tocar o outro é dizer-lhe: «quero-te bem»;
tocar o outro é comunicar-lhe aquilo que sou e aceitar aquilo que ele é;
tocar o outro é um ato de reverência, de reconhecimento, de veneração.

Da contemplação desta página do Evangelho é-nos revelado que a nossa carne, o nosso corpo não era indigno de Deus: por isso o Filho de Deus se fez carne, não de modo aparente, mas de modo real e autêntico. É a nossa carne que se tornou a carne de Deus, e Jesus, o Filho, assumiu-a não como um peso de que libertar-se voltando ao Pai, mas como um meio para encontrar a humanidade, para ser nosso irmão em plena solidariedade, igual a nós em tudo exceto no pecado. É graças a esta carne que Jesus pôde tocar e ser tocado, viver o sentimento da misericórdia e da compaixão, e revelar-nos a proximidade e a ternura de Deus. Também nós, como seus discípulos e discípulas, também a Igreja deve “ousar a carne” e saber abraçar, tocar, curar a “carne de Cristo” nos sofrimentos, nos doentes, nos pecadores, em todos os corpos dos homens e das mulheres que, com gritos fortes ou mudos, invocam a salvação das suas vidas.


 

Enzo Bianchi
In Il Blog di Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Milkos/Bigstock.com
Publicado em 25.06.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos