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Tibieza

A Quaresma convida os cristãos à renovação da sua vida espiritual, e há algo que de forma muito subtil o impede: a habituação. Somos afetados por ela em muitas facetas da nossa vida, que embora nos permita diminuir a atenção em determinadas atividades laborais sem que por isso percamos eficácia, e ainda as facilitam, em contrapartida é nefasta noutras situações de vida, como, por exemplo, o amor ou a relação com Deus.

Surge então a tibieza. É o que acontece a um casamento quando, com o passar dos anos (que podem não ser muitos), os esposos não alimentam diariamente o amor com carinho, e acabam por acostumar-se à vida matrimonial caindo na rotina. Entra-se assim, progressivamente, numa espiral de solidões reunidas: a da mulher, a do marido e, por vezes, até a dos filhos.

É o primeiro passo para o que vem a seguir, já que, após a habituação e com o esfriamento do amor, os esposos deixam de querer-se e começam a aguentar-se: endurece-se o coração. O lar deixa de o ser e converte-se em “pensão”. Vê-se o cônjuge como alguém a quem se suportam os defeitos que antes se toleravam, já que nada é perfeito, passando-se a criticá-los e a considerá-los manis intoleráveis. Já não se fala ou dialoga, mas discute-se e há acusações mútuas de uma larga lista de agravos que a suscetibilidade amplia.

Para remediar esta habituação daninha, é preciso recuperar o amor primeiro, voltar a enamorar-se, parar e falar com o outro sem acusações; fazer exame e procurar as causas, e não os culpados, da situação, na qual influiu, sem dúvida, a passagem dos anos, o cansaço, o trabalho, o stress, etc. É imprescindível perdoar-se e começar de novo com esperança renovada, ainda que ao princípio pareça que não há vontade nem sentimento para isso. É preciso fazê-lo com a lição aprendida de que o amor tem de alimentar-se dia a dia, com detalhes de carinho, de serviço; com renúncia, com algo tão simples como dedicar mais tempo à outra pessoa, sobretudo quando no lar os filhos vão cada um para o seu ou já são maiores de idade.

O esfriamento do amor também nos pode acontecer nas nossas relações com Deus. É a tibieza espiritual. S. Tomás de Aquino definia-a na “Suma Teológica” como «uma certa tristeza» por parte do ser humano «para realizar atos espirituais, por causa do esforço que comportam».



«O problema nem sempre é o excesso de atividades, mas sobretudo as atividades mal vividas, sem as motivações adequadas, sem uma espiritualidade que impregne a ação e a torne desejável. Daí que as tarefas cansem mais do que é razoável, e às vezes causem doença»



Já o livro do Apocalipse assinalava ao responsável pela Igreja de Éfeso: «Tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Considera, pois, onde caíste, e arrepende-te, e pratica as obras primeiras».

A tibieza é uma atitude perante Deus que radica numa postura humana e espiritual de mediocridade. É a apatia da alma, que lança raízes nas omissões, negligências, faltas de generosidade para com Deus e para o compromisso cristão. Deixa-se de rezar ou só se reza em situações prementes, urgentes. Arranjam-se mil desculpas para não haver compromisso na vida paroquial ou no serviço eclesial: que não há tempo nem vontade…

Fica-se abaixo dos mínimos, e chega um momento em que parece ser impossível ser-se melhor cristão, que não se tem forças para exigir mais. E não é verdade; o que acontece é que se endureceu a alma, falta carinho a Deus e aos outros. O remédio é o mesmo que para o amor humano: examinar onde estão as causas da situação e voltar ao amor primeiro com verdadeiro arrependimento, o que pode ser propiciado com uma boa confissão sacramental. Os assuntos de Deus são uma questão de amor e perdão.

Entre as causas da preguiça da alma, que também toma corpo na vida pastoral da Igreja, o papa Francisco assinala que «o problema nem sempre é o excesso de atividades, mas sobretudo as atividades mal vividas, sem as motivações adequadas, sem uma espiritualidade que impregne a ação e a torne desejável. Daí que as tarefas cansem mais do que é razoável, e às vezes causem doença. Não se trata de um cansaço feliz, mas tenso, pesado, insatisfeito e, definitivamente, não aceitado».

Toda a Quaresma é uma boa ocasião para “descongelar” a alma, para a suavizar no humano e no espiritual. É o desejo do Salmo 94, que nos faz um bom convite: «Oxalá escuteis hoje a sua voz: não endureçais o coração»; a voz dos outros e a voz de Deus. Um bom desejo para todos. Não percamos a sintonia com elas.


 

D. José María Gil Tamayo
Bispo de Ávila, Espanha
In SIC
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: fizkes/Bigstock.com
Publicado em 08.04.2019

 

 
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