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Somos uma Igreja fraca e escrava que Pedro e Paulo ensinam a ser forte e livre

Dois grandes apóstolos, apóstolos do Evangelho, e duas pilares da Igreja: Pedro e Paulo. Hoje festejamos a sua memória. Vejamos de perto estes dois testemunhos da fé: no centro da sua história não está a sua coragem, mas o encontro com Cristo que mudou a sua vida. Fizeram a experiência de um amor que os curou e libertou, e, por isso, tornaram-se apóstolos e ministros da libertação para os outros.

Pedro e Paulo são livres apenas porque foram libertados. Detenhamo-nos neste ponto central.

Pedro, o pescador da Galileia, foi antes de tudo libertado do sentido de insuficiência e da amargura do fracasso, e isso aconteceu graças ao amor incondicionado de Jesus. Apesar de ser um pescador entendido, experimentou várias vezes, no coração da noite, o gosto amargo da derrota por não ter pescado nada, e, diante das redes vazias, teve a tentação de desistir; apesar de ser forte e impetuoso, muitas vezes deixou-se tomar pelo medo; apesar de ser um apaixonado discípulo do Senhor, continuou a raciocinar segundo o mundo, sem conseguir compreender e acolher o significado da cruz de Cristo; apesar de dizer que estava pronto a dar a vida por Ele, bastou-lhe sentir-se suspeito de ser dos seus para se amedrontar e chegar a renegar o Mestre.



A Igreja olha para estes dois gigantes da fé e vê dois apóstolos que libertaram o poder do Evangelho no mundo, somente porque foram primeiro libertados a partir do encontro com Cristo. Ele não os julgou, não os humilhou, mas partilhou a sua vida com afeto e proximidade, apoiando-os com a sua própria oração e, algumas vezes, chamando-os para os sacudir à mudança



No entanto Jesus amou-o gratuitamente e apostou nele. Encorajou-o a não se render, a continuar a lançar as redes ao mar, a caminhar sobre as águas, a ver com coragem a sua fraqueza, a segui-lo no caminho da cruz, a dar a vida pelos irmãos, a apascentar as suas ovelhas. Assim o libertou do medo, dos cálculos baseados somente nas seguranças humanas, nas preocupações mundanas, infundindo-lhe a coragem de arriscar tudo e a alegria de sentir-se pescador de homens. Chamou-o precisamente a ele para confirmar na fé os irmãos. A ele deu as chaves para abrir as portas que conduzem ao encontro com o Senhor e o poder de ligar e desligar: ligar os irmãos a Cristo e desligar os nós e as cadeias da sua vida.

Tudo isto foi possível somente porque Pedro, primeiramente, foi libertado. As cadeias que o mantêm prisioneiro foram quebradas e, precisamente como aconteceu na noite da libertação dos israelitas da escravidão do Egito, é-lhe pedido para se erguer apressadamente, de apertar a cintura e atar as sandálias para sair. E o Senhor escancara as portas diante dele. É uma nova história de abertura, de libertação, de cadeias despedaçadas, de saída da prisão que enclausura. Pedro faz a experiência da Páscoa: o Senhor libertou-o.



Jesus faz assim connosco: assegura-nos a sua proximidade orando por nós e intercedendo junto do Pai; e repreende-nos com doçura quando erramos, para que possamos reencontrar a força para nos reerguermos e retomarmos o caminho



Também o apóstolo Paulo experimentou a libertação da parte de Cristo. Foi libertado da escravidão mais opressora, a do seu eu, e de Saulo, nome do primeiro rei de Israel, tornou-se Paulo, que significa “pequeno”. Foi libertado também do zelo religioso que o tinha encarniçado na sustentação das tradições recebidas e violento na perseguição aos cristãos. Foi libertado. A observância formal da religião e a defesa, à espada, da tradição, em vez de o abrir ao amor de Deus e dos irmãos, tornaram-no rígido: era um fundamentalista. Deus libertou-o disto; e, pelo contrário, não lhe poupou muitas fraquezas e dificuldades que tornaram mais fecunda a sua missão evangelizadora: as fadigas do apostolado, a enfermidade física; as violências, as perseguições, os naufrágios, a fome e a sede, e, como ele próprio conta, um espinho que o atormentou na carne.

Paulo compreendeu assim que «Deus escolheu aquilo que no mundo é fraco para confundir os fortes», compreendeu que tudo podemos nele que nos fá força, que nada pode alguma vez separar-nos do seu amor. Por isso, no fim da sua vida, Paulo pôde dizer: «o Senhor esteve próximo de mim» e «libertou-me de todo o mal». Paulo fez a experiência da Páscoa: o Senhor libertou-o.



Perguntemo-nos: as nossas cidades, as nossas sociedades, o nosso mundo, quanto precisam de libertação? Quantas cadeias devem ser quebradas e quantas portas fechadas devem ser abertas! Nós podemos ser colaboradores desta libertaçãoPerguntemo-nos hoje, nesta celebração e depois, perguntemo-nos: as nossas cidades, as nossas sociedades, o nosso mundo, quanto precisam de libertação? Quantas cadeias devem ser quebradas e quantas portas fechadas devem ser abertas! Nós podemos ser colaboradores desta libertação



Queridos irmãos e irmãs, a Igreja olha para estes dois gigantes da fé e vê dois apóstolos que libertaram o poder do Evangelho no mundo, somente porque foram primeiro libertados a partir do encontro com Cristo. Ele não os julgou, não os humilhou, mas partilhou a sua vida com afeto e proximidade, apoiando-os com a sua própria oração e, algumas vezes, chamando-os para os sacudir à mudança. A Pedro, Jesus diz ternamente: «Eu orei por ti, para que a tua fé não desfaleça»; a Paulo diz: «Saulo, Saulo, porque me persegues?». Jesus faz assim connosco: assegura-nos a sua proximidade orando por nós e intercedendo junto do Pai; e repreende-nos com doçura quando erramos, para que possamos reencontrar a força para nos reerguermos e retomarmos o caminho.

Tocados pelo Senhor, também nós somos libertados. E temos sempre necessidade de ser libertados, porque só uma Igreja livre é uma Igreja credível. Como Pedro, somos chamados a ser livres do sentimento da derrota perante a nossa pesca por vezes ruinosa; a ser livres do medo que nos imobiliza e nos torna medrosos, fechando-nos nas nossas seguranças e tirando-nos a coragem da profecia. Como Paulo, somos chamados a ser livres das hipocrisias da exterioridade; a ser livres da tentação de nos impormos com a força do mundo, mas antes com a fraqueza que dá espaço a Deus; livres de uma observância religiosa que nos torna rígidos e inflexíveis; livros dos laços ambíguos com o poder e do medo de sermos incompreendidos e atacados.



É dando a vida que o pastor, libertado de si, se torna instrumento de libertação para os irmãos. Hoje está connosco a delegação do Patriarcado Ecuménico, enviada para esta ocasião pelo querido irmão Bartolomeu: a vossa agradável presença é um sinal precioso de unidade no caminho de libertação das distâncias que escandalosamente dividem os crentes em Cristo



Pedro e Paulo entregam-nos a imagem de uma Igreja confiada às nossas mãos, mas conduzida pelo Senhor com fidelidade e ternura – é Ele que conduz a Igreja; de uma Igreja fraca, mas forte da presença de Deus; a imagem de uma Igreja libertada que pode oferecer ao mundo aquela liberdade que sozinho cada um não pode dar-se: a libertação do pecado, da morte, da resignação, do sentido da injustiça, da perda da esperança que afeia a vida das mulheres e dos homens do nosso tempo.

Perguntemo-nos hoje, nesta celebração e depois, perguntemo-nos: as nossas cidades, as nossas sociedades, o nosso mundo, quanto precisam de libertação? Quantas cadeias devem ser quebradas e quantas portas fechadas devem ser abertas! Nós podemos ser colaboradores desta libertação, mas apenas se em primeiro lugar nos deixarmos libertar pela novidade de Jesus e caminharmos na liberdade do Espírito Santo.

Hoje os nossos irmãos arcebispos receberão o pálio. Este sinal de unidade com Pedro recorda a missão do pastor que dá a vida pelo rebanho. É dando a vida que o pastor, libertado de si, se torna instrumento de libertação para os irmãos. Hoje está connosco a delegação do Patriarcado Ecuménico, enviada para esta ocasião pelo querido irmão Bartolomeu: a vossa agradável presença é um sinal precioso de unidade no caminho de libertação das distâncias que escandalosamente dividem os crentes em Cristo. Obrigado pela vossa presença.

Rezamos por vós, pelos pastores, pela Igreja, por todos nós: para que, libertados por Cristo, possamos ser apóstolos de libertação no mundo inteiro.



 

Papa Francisco
Missa e bênção dos pálios para os novos arcebispos metropolitanos, solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo, Vaticano, 29.6.2021
Fonte (texto e imagem): Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 29.06.2021

 

 
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