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Sião, Sinai, Gólgota: «Ergo os olhos para os montes: de onde me virá a ajuda?»

A montanha não é apenas um componente geográfico de uma paisagem, é muitas vezes em todas as civilizações um símbolo sobretudo de transcendência, de tal maneira que um dos nomes do Deus bíblico é “’El-Shad-daj”, que tem por base a palavra acádica “shadu”, “montanha”, de onde deriva “Deus da montanha”.

O cume que perfura o céu torna-se uma espécie de antecâmara do Paraíso: não é por acaso que, frequentemente, nos cimos dos montes foram erguidos santuários, ou cruzes, ou estátuas sagradas. No mundo babilónico, o zigurate era uma pirâmide sacra em socalcos que imitava a estrutura montanhosa, em cujo vértice havia um pequeno templo.

É nesta linha que se compreende por que é que a Bíblia está repleta de montes de valor não só orográfico, mas também teológico. Também nós queremos pôr-nos a caminho para subir a três dessas montanhas, tendo entre as mãos não um guia do viajante, mas o livrinho dos peregrinos composto pelos “cantos das ascensões” (Salmos 120-134): «Ergo os olhos para os montes: de onde me virá a ajuda?» (121,1-2).

 

Sião, monte da paz



Imagem Monte Sião e abadia da Dormição, Jerusalém, Israel | johannes86/Bigstock.com


Sede do templo de Jerusalém que a tradição quis identificar com o Moriá, o colo sobre o qual Abraão subiu com o drama no coração, por causa da ordem implacável do seu Deus amado e cruel: «Toma o teu filho, o teu unigénito que amas, Isaac, vai ao território de Moriá e oferece-o em holocausto sobre um monte que te indicarei» (Génesis 22,2).

Mas Sião é, por excelência, o lugar da presença divina no espaço, por causa do templo que ali vai erigir o rei Salomão, que o dedicará ao Senhor com uma grandiosa cerimónia e uma extraordinária oração, que convidamos todos a ler no capítulo 8 do Primeiro Livro dos Reis.

É muito sugestiva a definição do templo de Sião: “’ohel mo’ed”, a “tenda do encontro” entre Deus e Israel, e dos israelitas entre eles, reunidos na assembleia litúrgica. E será Isaías, numa das suas páginas memoráveis (2,1-5), a descrever a missão universal deste monte, que, aos seus olhos, se eleva mais alto do que qualquer outra montanha, não por razões topográficas, mas pelo seu valor simbólico.

Envolvido em luz, torna-se um ponto de referência para todos os povos da Terra. Dele, com efeito, sai personificada a Palavra de Deus que os acolhe naquele espaço sagrado. E eis o prodígio: as nações deixarão cair das mãos as armas; as espadas serão transformadas em relhas de arados e as lanças em foices; não mais empunharão as armas para a guerra, esquecerão toda a arte militar.

Sião é, portanto, o monte da paz. É contra a vontade de Deus que as pedras do monte de Jerusalém tenham sido, e ainda sejam, estridas de sangue. Como canta o salmista, «de Sião há de dizer-se: “Todos lá nasceram … O Senhor escreverá no registo dos povos, anotando: ‘Este nasceu em Sião’. E eles dirão, cantando e dançando: ‘A minha única fonte está em ti’”» (Salmo 87,5-7).

Jerusalém é, por isso, a cidade sobre o monte para o qual todos convergem, e de quem todos são cidadãos a pleno título.

 

Sinai, monte da Palavra



Imagem "Monte Sinai" | El Greco | 1570-1572


Na passada quinta-feira, 6 de agosto, celebrou-se a festa da Transfiguração do Senhor, que aconteceu «sobre um alto monte» (Mateus 17,1), inominado nos Evangelhos, mas identificado pela tradição no Tabor, que se ergue na planície da Galileia, e que é meta de todos os peregrinos à Terra Santa

O Sinai eleva-se numa estepe queimada pelo sol, tendo, atualmente, aos seus pés o admirável mosteiro bizantino de Santa Catarina, no interior de um oásis. Como é sabido, é o berço de Israel como povo aliado do Senhor.

Do seu cume, dentro de uma manifestação acompanhada por sons, relâmpagos e terramotos, Deus lança aos israelitas a sua Palavra, incarnada sobretudo nos dez mandamentos (Êxodo 20), mas também numa série de leis que deverão reger a vida espiritual, moral e civil da nação hebraica quando chegar à terra prometida, após a longa marcha no deserto do Sinai.

Como recordará Moisés, grande mediador e guia do povo de Deus, no como «o Senhor falou-vos do fogo, vós escutastes só um som de palavras, não vistes nenhuma figura, só havia uma voz» (Deuteronómio 4,12).

Séculos depois, a este monte também denominado Horeb, subirá igualmente o profeta Elias, perseguido e isolado, e lá receberá de novo a investidura divina para a sua missão de testemunha da verdade e da justiça. Mas, diferentemente da experiência vivida por Moisés, o Senhor não se apresentará dentro do vento ou do terramoto acompanhado por relâmpagos. A sua será apenas – como diz o original hebraico – uma “qôl demamah daqqah”, uma «voz de silêncio subtil» (1 Reis 19,12), uma presença misteriosa, quase secreta e íntima.

É uma experiência que devemos procurar também nós nos cumes mergulhados no silêncio, um encontro com o divino que não aprecia o rumor ensurdecedor dos meios de comunicação de massa.

Nesta linha, quase em sobreimpressão, introduzimos um outro monte, mais simbólico do que real, modulado precisamente pelo Sinai. É a montanha das Bem-aventuranças, que foi identificada numa colina que domina o lago de Tiberíades, mas que, na realidade, quer ser uma reedição espiritual cristã do Sinai. A ela sobre o novo Moisés, Jesus Cristo, que recolhe e leva à plenitude a Palavra divina ressoada naquela colina distante.

Nasce assim o «discurso da montanha» (Mateus 5-7), que foi definido a magna carta do cristianismo. Quem nela se revela é um Deus que, sem eliminar a justiça, anuncia a sua mensagem de amor, de plenitude, de intimidade. Ele convoca um povo feito de pobres, sofredores, mansos, justos, misericordiosos, puros, trabalhadores pela paz, perseguidos pela justiça (5,1-12).

 

Gólgota, monte da morte e da vida



Imagem Basílica do Santo Sepulcro, Jerusalém, Israel. Aos pés do altar, protegido por vidro, a rocha do Gólgota | (c) Makarenko | Dreamstime.com/Britannica




Monte fundamental e decisivo para o cristianismo, o Gólgota é um esporão rochoso de seis ou sete metros, localizado no interior da basílica do Santo Sepulcro, como descobrem os peregrinos que o encontram quando entram no tempo, à direita, subindo uma breve escada. Agora este promontório rupestre está coberto por uma capela distribuída entre os franciscanos e os cristãos ortodoxos.

O seu nome em aramaico significa “crânio”, provavelmente pela sua forma arredondada, ou talvez porque próximo dele estavam as sepulturas dos condenados à morte.

No Ocidente, todos, inclusive aqueles que não têm fé em Cristo, sabem o que é o Calvário, tradução latina do aramaico Gólgota, de tal maneira que se criou uma forma de dizer comum, «passou por um calvário [de sofrimentos]».

A sua irrelevância orográfica foi superada pela fantasia popular e pela criação artística, que o transfigurou numa montanha alta e árida sobre a qual sobressaem as cruzes dos três condenados, Jesus e os dois malfeitores.

Monte da morte, portanto, sinal de uma realidade profundamente humana, como é o morrer e o sofrer. Monte do silêncio ensurdecedor do Pai divino em relação ao Filho, como se intui no grito extremo de Cristo, baseado no início do Salmo 22: «Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?».

O P. David Maria Turoldo, num dos seus Cantos últimos, representava com força esse silêncio desconcertante: «Fé vera/ é na sexta-feira santa/ quanto Tu não estavas lá em cima!/ Quando nenhum eco/ responde ao seu alto grito/ e a custo o Nada/ dá forma/ à tua ausência». Contudo, no Evangelho de João o Gólgota torna-se também o monte da vida plena, porque aquela cruz é já o sinal da glória, da exaltação pascal, da ressurreição.

O próprio Jesus tinha-o anunciado: «Quando for erguido da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32). E tinha-o acenado também àquele chefe dos judeus, Nicodemos, no seu encontro noturno: «Como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim é preciso que seja erguido o Filho do homem, para que quem nele crê tenha a vida eterna» (3,14-15).

A última palavra que Cristo pronuncia lá em cima é, no grego dos Evangelhos, um só verbo: “tetélestai”, tudo «está cumprido» (19,30), tudo chegou à sua plenitude. Tinha por isso razão o escritor grego Nikos Kazantzakis, quando na sua obra “A última tentação de Cristo” (1952) comentava: «Ergueu um grito de triunfo: tudo se cumpriu! Mas foi como se dissesse: tudo começa!». É essa ressurreição, sua e nossa, que tem na assunção de Maria, celebrada no próximo sábado, a sua concretização exemplar.


 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana (1) (2) (3)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: AntonMaster/Bigstock.com
Publicado em 10.08.2020 | Atualizado em 12.08.2020

 

 
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