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Ser artesão da paz não é uma utopia de outros tempos: O exemplo da Irmã Ann Rose

Artesão da paz. É a bem-aventurança evangélica que o papa Francisco recorda a todos, encorajando todos a «fazer a paz». Artesãos. Deus é-o connosco, continuando a buscar a paz como incansável artesão do mundo com a nossa matéria, tão imprevisível e instável, e combatendo contra o mal quem nos usa para voltar ao caos, para dividir aquilo que o amor pacientemente une. E sabemos como é muito árduo construir, e rápido e fácil destruir. Ser artesãos dá dignidade ao pouco que podemos fazer. A paz não se mede com o resultado porque a paz começa no pequeno gesto, sempre grande, como aquele da Ir. Ann Rose Nu Tawng, que se mede com a desproporção evidente, dramática, entre uma mulher indefesa e só e homens armados e numerosos diante dela.

Eis onde começa a paz e eis também o que é a Igreja, uma mãe que defende os seus filhos e que por eles vence todo o medo. Onde encontra a coragem? Não é questão de coragem, mas de amor, de outra maneira não depende de nós! Amor pelo sofrimento do seu povo, porque o grito de dor lhe tocou o coração, porque não se pode estar tranquilos e esconder-se por trás do “não posso fazer nada” quando há tanto sofrimento. Se assim não for, acabamos por acreditar que podemos permanecer sãos num mundo que está doente. É presunçoso e néscio acreditar nisso, e sem humanidade é a atitude de quem não ajuda alguém que está ao meu lado e em necessidade. A pandemia pode e deve provocar um sentimento de proximidade entre as pessoas, de conhecimento, de união entre todos os irmãos. Compreendemos verdadeiramente como a pandemia da guerra é só uma, como a terceira guerra mundial combatida a pedaços. Ver as várias pandemias, dar-se conta da realidade, pede-nos para optar, para não adiar. «Gritei aos manifestantes para entrarem na clínica e foi para diante da polícia e dos militares. Decidi protegê-los, mesmo com risco de vida.» «Se quiserem bater nas pessoas ou disparar sobre os manifestantes, fazei-o comigo no lugar deles, porque não consigo suportar que sofram por causa da violência.»



A chave da paz não está apenas na posse de uma única pessoa, mas muitos a têm, e de certa maneira todos, e por isso todos são responsáveis. Posso começar a tratar do ar poluído que todos respiram, repleto daquele perigosíssimo gás indolor que é a indiferença, a que se juntam os pregadores da violência, conscientes ou não, assim como os instigadores de preconceitos, de notícias falsas fruto de cálculo ou ideologia, que buscam o inimigo mesmo quando não existe



Uma religiosa. Fraca e fortíssima. Defende as pessoas e busca a democracia para todos, isto é, o bem comum. Enfrenta a pandemia da violência. A injustiça provoca sempre violência e mais sofrimento: só a não-violência e a opção de defender os mais fracos pode detê-la. Recordo aquela que atingiu os rohingya, grupo étnico entre os mais perseguidos do mundo, segundo o que afirmam as Nações Unidas, a quem o papa Francisco pede perdão «sobretudo pela indiferença do mundo». «A presença de Deus, hoje, também se chama “rohingya”», disse. A presença de Deus hoje é todo o povo de Myanmar.

Mas deve desencadear uma consciência: ninguém é tão pequeno que não possa obter a paz. Um cínico diria que uma opção assim não muda o conflito em curso. E quanto cinismo há de analistas que evidentemente não sofrem ao ponto de poder certificar a utilidade dos gestos e chegar a dizer que não se pode fazer nada, ou que se apaixonam pelas suas análises sem se comprometer nas soluções. Mesmo que tivesse servido só para poupar a vida de alguém, não é sempre salvar o mundo inteiro? Não é precisamente isto ser-se agente da paz? Não voltamos a aceitar que os problemas sejam cada vez maiores, que há outras coisas que têm de ser feitas primeiro e que nós somos sempre demasiadamente pequenos. É verdade que o problema é cada vez maior e que é preciso resolver as causas e envolver os verdadeiros responsáveis. A chave da paz, todavia, não está apenas na posse de uma única pessoa, mas muitos a têm, e de certa maneira todos, e por isso todos são responsáveis. Posso começar a tratar do ar poluído que todos respiram, repleto daquele perigosíssimo gás indolor que é a indiferença, a que se juntam os pregadores da violência, conscientes ou não, assim como os instigadores de preconceitos, de notícias falsas fruto de cálculo ou ideologia, que buscam o inimigo mesmo quando não existe, que o criam de facto e, dessa maneira, não identificam o verdadeiro inimigo a combater.



Não haverá paz enquanto os outros forem um eles, e não um nós. Não haverá paz enquanto as alianças forem contra alguém, porque as alianças de uns contra os outros só aumentam as divisões. A paz não pede vencedores nem vencidos, mas irmãos e irmãs que, apesar das incompreensões e das feridas do passado, caminham do conflito à unidade



Agentes de paz são todos aqueles que no mundo atual (cf. Fratelli tutti, 30) vivem os sentimentos de pertença a uma mesma humanidade e vivem o sonho de construir juntos a justiça e a paz. Não é uma utopia de outros tempos, mas a consequência do «todos irmãos», e, para nós, cristãos, de um Deus que nos coloca entre as mãos a sua paz, que nos torna com o seu amor artesãos da paz por todo o lado. O discípulo de Jesus não tem inimigos, e precisamente por isso é agente da paz com a força mais fraca de todas que é a oração, totalmente desarmada mas resistência ao mal, e que nos dá a força para lhe resistir. Pôr-se de joelhos e pedir paz também para os inimigos. Agentes da paz também apenas com a sua vida, com as suas palavras, porque assim desarma os planos do inimigo, aponta a via do respeito e da justiça. Nunca desprezemos o humilde gesto de paz. É grande – como vimos, e como a voz desta testemunha vivamente nos recorda – e transmite força.

O caminho da paz começa pela renúncia a ter inimigos. Quem tem a coragem de olhar as estrelas, quem acredita em Deus, não tem inimigos a combater. Tem um só inimigo a enfrentar, que está à porta do coração e bate para entrar: é a inimizade. Não haverá paz sem partilha e acolhimento, sem uma justiça que assegure equidade e promoção para todos, a começar pelos mais fracos. Não haverá paz sem povos que estendam a mão aos outros povos. Não haverá paz enquanto os outros forem um eles, e não um nós. Não haverá paz enquanto as alianças forem contra alguém, porque as alianças de uns contra os outros só aumentam as divisões.

A paz não pede vencedores nem vencidos, mas irmãos e irmãs que, apesar das incompreensões e das feridas do passado, caminham do conflito à unidade. «Se Deus é o Deus da vida – e é-o –, a nós não é lícito matar os irmãos no seu nome. Se Deus é o Deus do amor – e é-o –, a nós não é lícito odiar os irmãos». Assim afirmou Francisco no Iraque. Acrescento: se Deus é o Deus do amor – e é-o –, a nós é possível ser agentes da paz. Juntos. Como nos disse num encontro de oração a Ir. Ann Rose, com desarmante simplicidade evangélica: «Desejo a todos que sejam felizes e serenos». É a paz. Ámen. Paz.


 

Card. Matteo Maria Zuppi
Arcebispo de Bolonha, Itália
Prefácio ao livro “‘Matai-me, não às pessoas’. A Irmã coragem de Myanmar conta a sua história”
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 07.05.2021

 

 

 
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