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«Se rezamos, é porque acreditamos que Deus pode e quer transformar a realidade»

Prosseguindo as nossas catequeses sobre o Pai-nosso, hoje detemo-nos na terceira invocação: «Seja feita a vossa vontade». Ela deve ser lida em unidade com as duas primeiras - «santificado seja o vosso nome» e «venha a nós o vosso Reino» -, de tal maneira que juntas formam um tríptico. Hoje falaremos sobre a terceira parte. Antes do cuidado do mundo da parte do ser humano, há o cuidado incansável que Deus usa em relação ao ser humano e ao mundo. Todo o Evangelho reflete esta inversão de perspetiva.

O pecador Zaqueu sobe a uma árvore porque quer ver Jesus, mas não sabe que, muito antes, Deus já se tinha colocado à sua procura. Jesus, quando chega, diz-lhe: «Zaqueu, desce depressa, porque hoje tenho de ficar em tua casa». E no fim declara: «O Filho do homem, com efeito, veio para procurar e salvar o que estava perdido». Eis a vontade de Deus (…), incarnada em Jesus: procurar e salvar aquilo que está perdido. E nós, na oração, pedimos que a procura de Deus chegue a bom porto, que o seu desígnio universal de salvação se realize. Primeiro em cada um de nós, e depois em todo o mundo. (…) Deus procura cada um de nós, pessoalmente. Deus é muito grande – quanto amor tem por trás disso.

Deus não é ambíguo, não se esconde por trás de enigmas, não planeou o futuro do mundo de maneira indecifrável. Não!, Ele é claro. Se não compreendemos isto, arriscamo-nos a não compreender a sentido da terceira expressão do Pai-nosso. Efetivamente, a Bíblia está cheia de expressões que nos narram a vontade positiva de Deus em relação ao mundo. No Catecismo da Igreja católica encontramos uma recolha de citações que testemunham esta fiel e paciente vontade divina (cf. nn. 2821-2827). E S. Paulo, na Primeira Carta a Timóteo, escreve: «Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade». Esta, sem sombra de dúvida, é a vontade de Deus: a salvação do homem (…). Deus, com o seu amor, bate à nossa porta do coração, para nos atrair a Ele. Deus está próximo de cada um de nós com o seu amor, para nos levar pela mão. (…)



No tempo da Quaresma, a Igreja recomenda-nos aumentar o tempo que dedicamos à oração. Que esses momentos de diálogo filial com Deus nos ajudem a descobrir sempre mais o seu amor infinito por nós, e assim nos tornemos instrumentos de misericórdia e paz



Por isso, orando «seja feita a vossa vontade», somos convidados a inclinar servilmente a cabeça – como se fôssemos escravos? Não, Deus quer-nos livres, é o seu amor que nos liberta. O Pai-nosso, de facto, é a oração dos filhos que conhecem o coração do seu pai e estão certos do seu desígnio de amor. Ai de nós se, pronunciando estas palavras, encolhêssemos os ombros em sinal de resignação perante um destino que nos repugna e que não conseguiremos mudar.

Pelo contrário, é uma oração plena de ardente confiança em Deus, que quer para nós o bem, a vida, a salvação. Uma oração corajosa, até combativa, porque no mundo há muitas, demasiadas realidades que não estão segundo o plano de Deus. Parafraseando o profeta Isaías, poderíamos dizer: «Aqui, Pai, há a guerra, a prevaricação, a exploração; mas sabemos que Tu queres o nosso bem, por isso suplicamos-te: seja feita a tua vontade! Senhor, subverte os planos do mundo, transforma as espadas em arados e as lanças em foices; que ninguém se exercite mais alguma vez na arte da guerra!». Deus quer paz.

O Pai-nosso é uma oração que acende em nós o mesmo amor de Jesus pela vontade do Pai, uma chama que impele a transformar o mundo com o amor. O cristão não acredita num “facto” inelutável. Não há nada de aleatório na fé dos cristãos: em vez disso há uma salvação que espera por se manifestar na vida de cada homem e mulher e de cumprir-se na eternidade. Se rezamos, é porque acreditamos que Deus pode e quer transformar a realidade, vencendo o mal com o bem.

A este Deus tem sentido obedecer e abandonar-se, mesmo na hora da provação mais dura. Assim aconteceu com Jesus no jardim do Getsémani, quando experimentou a angústia e orou: «Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Todavia, não seja feita a minha, mas a tua vontade». Jesus está esmagado pelo mal do mundo, mas abandona-se, confiante, ao oceano de amor da vontade do Pai. Também os mártires, na sua provação, não procuravam a morte, mas a ressurreição. Deus, por amor, pode levar-nos a caminhar por trilhos difíceis, a experimentar feridas e espinhos dolorosos, mas nunca nos abandonará. Estará sempre ao nosso lado, dentro de nós. Para um crente, esta, mais do que uma esperança, é uma certeza: Deus está connosco. A mesma que reencontramos naquela parábola do Evangelho de Lucas dedicada á necessidade de orar sempre. Diz Jesus: «Deus não fará justiça aos seus eleitos, que gritam dia e noite a Ele? Far-lhes-á esperar muito? Eu digo-vos que lhes fará justiça prontamente (…).

[Da saudação aos peregrinos de língua portuguesa:] Queridos amigos, no tempo da Quaresma, a Igreja recomenda-nos aumentar o tempo que dedicamos à oração. Que esses momentos de diálogo filial com Deus nos ajudem a descobrir sempre mais o seu amor infinito por nós, e assim nos tornemos instrumentos de misericórdia e paz. Deus vos abençoe!

[Da saudação aos peregrinos de língua italiana:] O caminho da Quaresma, que estamos a percorrer, seja ocasião para cada um de autêntica conversão, a fim de que possamos chegar à plena maturidade de fé em Cristo, desejosos de difundir o seu Evangelho em cada ambiente de vida em que nos encontramos.


 

Papa Francisco
Audiência geral, Vaticano, 20.3.2019
In Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Davdeka/Bigstock.com
Publicado em 20.03.2019

 

 
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