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Rezemos sempre por tudo e por todos, a oração segundo o coração de Jesus obtém milagres, garante papa

Na catequese anterior, vimos como a oração cristã está ancorada à Liturgia. Hoje colocaremos à luz como da Liturgia aquela regressa sempre à vida quotidiana: pelas ruas, pelos escritórios, pelos meios de transporte. E aí continua o diálogo com Deus: quem reza é como o namorado, que traz sempre no coração a pessoa amada, onde quer que se encontre.

Com efeito, tudo é assumido neste diálogo com Deus: cada alegria torna-se motivo de louvor, cada provação é ocasião para um pedido de ajuda. A oração é sempre viva, como brasas de fogo, mesmo quando não é a boca a falar, mas o coração.



Rezemos sobretudo pelas pessoas infelizes, por aquelas que choram na solidão e não têm esperança de que ainda haja um amor que bate por elas



Cada pensamento, ainda que aparentemente “profano”; pode ser permeado de oração. Mesmo na inteligência humana há um aspeto orante; ela, efetivamente, é uma janela aberta para o mistério: ilumina os poucos passos que estão diante de nós e depois abre-se a toda a realidade, que a precede e a supera.

Este mistério não tem um rosto inquietante ou angustiante: o conhecimento de Cristo torna-nos confiantes de que onde os nossos olhos e os olhos da nossa mente não podem alcançar, não há o nada, mas uma graça infinita.



O Senhor é - não o esqueçamos - o Senhor da compaixão, da proximidade, da ternura: três palavras a não esquecer



A oração cristã transfunde para o coração humana uma esperança invisível: em qualquer experiência que toque o nosso caminho, o amor de Deus pode traduzi-la em bem. A propósito, o Catecismo diz: «Aprendemos a orar em certos momentos, escutando a Palavra do Senhor e participando no seu mistério pascal. Mas a cada momento, nos acontecimentos de cada dia, o seu Espírito é-nos oferecido para fazer brotar a oração. (…) O tempo está nas mãos do Pai; é no presente que nós o encontramos; não ontem nem amanhã, mas hoje» (2659). Hoje encontro Deus, há sempre o hoje do encontro.

Não existe outro dia maravilhoso a não ser que estamos a viver. As pessoas que vivem sempre a pensar no futuro - «o futuro será melhor...» - não agarram o hoje como vem; são pessoas que vivem na fantasia, não sabem agarrar o concreto do real. E o hoje é real, o hoje é concreto. E a oração acontece no hoje. Jesus vem ao nosso encontro hoje, este hoje que estamos a viver. E é a oração que o transforma em graça, ou melhor, que nos transforma: aplaca a ira, sustém o amor, multiplica a alegria, infunde a força de perdoar.



É uma vida má a daquelas pessoas que julgam sempre os outros, estão sempre a condenar, julgando; é uma vida má, infeliz



Em alguns momentos parecer-nos-á que já não somos nós a viver, mas que a graça vive e opera em nós através da oração. E quando nos vem um pensamento de raiva, de descontentamento, que nos conduz para a amargura, detenhamo-nos e digamos ao Senhor: «Onde estás? E para onde estou eu a ir?» E o Senhor está aí, o Senhor dar-nos-á a palavra certa, o conselho para ir por diante sem este suco amargo do negativo. Porque a oração é sempre, usando uma palavra profana, é positiva. Sempre. Leva-te por diante.

Cada dia que começa, se acolhido na oração, é acompanhado de coragem, de maneira que os problemas a enfrentar já não sejam entraves à nossa felicidade, mas apelos de Deus, ocasiões para o nosso encontro com Ele. E quando alguém está acompanhado pelo Senhor, sente-se mais corajoso, mais livre, e também mais feliz.

Rezemos, por isso, sempre por tudo e por todos. Rezemos pelos nossos queridos, mas também por aqueles que não conhecemos; rezemos até pelos nossos inimigos, como tantas vezes nos convida a fazer a Escritura. A oração dispõe para um amor superabundante.

Rezemos sobretudo pelas pessoas infelizes, por aquelas que choram na solidão e não têm esperança de que ainda haja um amor que bate por elas.



Ao amar assim este mundo, amando-o com ternura, descobriremos que cada dia e cada coisa traz oculto em si um fragmento do mistério de Deus



A oração faz milagres; e os pobres então intuem, por graça de Deus, que, mesmo naquela situação de precariedade, a oração de um cristão tornou presente a compaixão de Jesus: Ele, de facto, olhava com grande ternura as multidões exaustas e perdidas como ovelhas sem pastor.

O Senhor é - não o esqueçamos - o Senhor da compaixão, da proximidade, da ternura: três palavras a não esquecer. Porque é o estilo do Senhor: compaixão, proximidade, ternura.

A oração ajuda-nos a amar os outros, apesar dos seus erros e dos seus pecados. A pessoa é sempre mais importante do que as suas ações, e Jesus não julgou o mundo, mas salvou-o.



É justo e bom orar para que a vinda do Reino da justiça e da paz influencie a marcha da história; mas também é importante levedar pela oração a massa das humildes situações quotidianas.



É uma vida má a daquelas pessoas que julgam sempre os outros, estão sempre a condenar, julgando; é uma vida má, infeliz. Jesus veio para salvar-nos: abre o teu coração, perdoa, justifica os outros, compreende, também tu estás próximo dos outros, tem compaixão, tem ternura como Jesus.

É preciso querer bem a todos e a cada um, recordando, na oração, que somos todos pecadores, e ao mesmo tempo amados por Deus um a um. Ao amar assim este mundo, amando-o com ternura, descobriremos que cada dia e cada coisa traz oculto em si um fragmento do mistério de Deus.



Somos seres frágeis, mas sabemos rezar: esta é a nossa maior dignidade e também é a nossa fortaleza. Coragem. Rezar em cada momento, em cada situação, porque o Senhor está próximo de nós



Escreve também o Catecismo: «Orar nos acontecimentos de cada dia e de cada instante é um dos segredos do Reino, revelados aos “pequeninos”, aos servos de Cristo, aos pobres das bem-aventuranças. É justo e bom orar para que a vinda do Reino da justiça e da paz influencie a marcha da história; mas também é importante levedar pela oração a massa das humildes situações quotidianas. Todas as formas de oração podem ser esse fermento a que o Senhor compara o Reino» (2660).

O ser humano é como um sopro, como um fio de erva. O filósofo Pascal escrevia: «Não é preciso que todo o universo se arme para o expulsar; um vapor, uma gota de água é suficiente para o matar». Somos seres frágeis, mas sabemos rezar: esta é a nossa maior dignidade, e também é a nossa fortaleza. Coragem. Rezar em cada momento, em cada situação, porque o Senhor está próximo de nós. E quando uma oração é segundo o coração de Jesus, obtém milagres.








 

Papa Francisco
Vaticano, 10.2.2021
In Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Angelov/Bigstock.com
Publicado em 10.02.2021

 

 
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