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Revista "Communio" analisa "Literatura e espiritualidade"

Imagem S. Marcos (det.) | Guido Reni | 1621 | Universidade Bob Jones, EUA | D.R.

Revista "Communio" analisa "Literatura e espiritualidade"

"Quando o Novo Testamento cita os poetas (At 17,28). Um mapa para o presente", "A Bíblia como literatura", "Reconfigurações de Deus  na literatura moderna", "Do divino celebrado no terrestre", "A errante sonoridade de Deus. Revisitando José Augusto Mourão": estes são alguns dos títulos dos artigos da mais recente edição da revista "Communio".

José Tolentino Mendonça, José Augusto Ramos, Manuel António Ribeiro, Alfredo Teixeira, Maria Andresen Sousa Tavares, Isabel Alçada Cardoso, José Eduardo Franco, Aires Nascimento, M. José Vaz Pinto, José Maria Seabra Duque, Isabel M. Fernandes Alves, M. do Rosário Lupi Bello e Adel Sidarus assinam os textos deste número da "Revista Internacional Católica", dedicada ao tema "Literatura e espiritualidade".

 

Apresentação
M. Luísa Falcão, Rui Madeira, M. Luísa Ribeiro Ferreira

Pensar um número da "Communio" sobre “Literatura e Espiritualidade” pode equivaler a abrir uma caixa de Pandora (etimologicamente pan: tudo ou todo, e doron: dom). Correm-se vários riscos: da dispersão de temas, géneros, épocas e autores, à subordinação a critérios de escolha demasiado académicos ou espiritualmente desencarnados. O artigo de abertura recupera, de modo feliz e certeiro, a intuição que se procurou seguir ao organizar este número e que já acompanhara S. Paulo na busca de uma síntese: a literatura que se revela como lugar de demanda do sentido da vida e, finalmente, da possibilidade de encontro privilegiado com Deus.

Em "Quando o Novo Testamento cita os poetas", José Tolentino Mendonça lembra-nos que a literatura tem sido «uma aliada na busca de Deus». Centrando-se no discurso de Paulo em Atenas, destaca alguns tópicos que nos permitem relacionar teologia e literatura, dando um particular relevo à simbólica de Jerusalém e à cultura enquanto altar ao deus desconhecido. Ao tentar estabelecer pontes entre o cristianismo nascente e a cultura grega, encontra um elo comum – o caminhar por tentativas, uma prática que irmana a poesia e a religião. Por isso conclui o seu texto afirmando que Paulo encontrou na literatura «um verdadeiro "locus theologicus”».

Tomar a Bíblia, essa enorme biblioteca com livros de inúmeras e diversas raízes, escritos em diversificados contextos temporais e geográficos, e nela reflectidamente pensar, sublinhar e retirar a sua dimensão literária não é projeto fácil. José Augusto M. Ramos conduz-nos nesse percurso, mostrando-nos como, do Génesis ao Apocalipse, a Bíblia se molda numa antologia literária e numa escrita essencial, expressão de realidades primordiais, numa prosa por vezes mítico-poética que vem a encontrar alguns limites no Novo Testamento, dadas as circunstâncias históricas, de tempo e espaço. O sentido identitário desta literatura bíblica e a importância narrativa das suas histórias, incluindo as parábolas de Jesus, são elementos de elevada representatividade que o autor salienta, numa busca profunda de sentido e fruição, mostrando-nos que a narrativa bíblica enquanto «história como espaço de profundidade mental, de suspensão simbólica e de esperança, é o nosso espaço de eternidade».

Em "Reconfigurações de Deus na literatura moderna", Manuel António Ribeiro constata que hoje é pouco comum classificarmos os escritores como cristãos, embora inegavelmente haja em alguns deles uma aproximação nítida a temáticas religiosas. Neste texto dá-se uma atenção privilegiada à poesia, justificando-se esta opção com a tese de Wittgenstein, para quem a linguagem metafórica constitui a mediação mais adequada para a abordagem do sagrado.

Em "A errante sonoridade de Deus", Alfredo Teixeira realça a originalidade da poesia de José Augusto Mourão, nela valorizando o seu modo de dizer que explicitamente invoca e nomeia a divindade. Em contraste com a linguagem estandardizada presente na poesia contemporânea, avessa a falar de Deus, José Augusto Mourão estabelece um cruzamento entre poesia e liturgia, e releva a experiência ritual litúrgica, entendendo-a como abertura ao transcendente.

Num texto «lapidar», encontrado entre manuscritos de Sophia, Maria Andersen de Sousa Tavares fala do significado deste fragmento pois nele estão patentes certos traços que serão constantes na escrita desta Poeta – o espanto, a inquietação e a procura. A eles se juntaram, no decurso da sua evolução poética, outros sentimentos como a piedade, ausente da cultura grega mas fundamental no cristianismo. Nela Sophia «ancorou a sua inquietação social e política».

Ao considerar a grande figura do bispo de Hipona (354-430) em "Sabedoria e eloquência em Santo Agostinho", Isabel Alçada Cardoso traça o percurso deste grande retórico na demanda pela verdade. Entre outros aspetos, sublinha como a sua obra "De doctrina christiana", que ele completa já nos últimos anos de vida, revela um caminho de ininterrupto aprofundamento das Escrituras e do nexo entre sabedoria e eloquência.

A expressão "Uma espiritualidade de ação", que titula o texto de José Eduardo Franco sobre António Vieira, é só por si elucidativa da determinação e da força que integraram o sentido de missão deste pregador e missionário jesuíta, com uma vocação de marca diferente da tradição e do ideário monástico. O Autor introduz-nos na vivência de uma espiritualidade «essencialmente cristológica e orientada para a ação», que Vieira incorporou na sua vida e no Amor a Cristo e a Portugal, em constante renúncia de si, denunciando corajosamente as fraquezas, os abusos, a cobiça, a ambição e a inveja dos homens, criticando o poder, defendendo os desfavorecidos e lutando contra a escravatura negra ameríndia. Pregação, ação e testemunhos assumidos num tempo tumultuoso.*

Em "Da voz à palavra pelo silêncio. Dos textos ao encontro do outro, em escuta", Aires Nascimento recorda que é, por vezes, necessário suster a própria voz para discernir a voz do silêncio, onde ecoa o mistério do outro: os medievais foram mestres nesta escuta, mas a arte de saber ouvir foi cultivada ao longo dos tempos como condição para receber, assimilar e transmitir adequadamente o que palavra – da divina à poética – encerra como revelação.

O texto de Maria José Vaz Pinto debruça-se sobre a poesia de José Tolentino de Mendonça. Assim, este número sobre “Literatura e Espiritualidade” começa e acaba com a figura deste poeta, dando-lhe primeiro a palavra e terminando com um comentário sobre a sua obra poética. Atenta à modelação vocabular do autor, motivada por uma riqueza interior que absorve a realidade do dia a dia, M. José Vaz Pinto introduz-nos num mundo que se nos revela vivo e absorvente de sensibilidades. O seu texto é uma aproximação a diversos escritos de Tolentino Mendonça, procurando «elucidar o sentido em que se fala daquilo que se fala». Começando por se interrogar sobre o que é a literatura, a Autora conduz-nos numa «determinada relação com a linguagem», como a um «ser divino» que nos abre a porta a uma poesia e esplendor como experiência crente, o Deus implícito na poesia de J. Tolentino Mendonça.

No seu Depoimento "Porque leio um romance", José Maria Seabra Duque afirma que, para ele, o interesse essencial de um livro/romance se encontra para lá do mero entretenimento. Elege como exemplo "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien, obra que considera edificante pelo facto de a sua reiterada leitura lhe proporcionar uma experiência que aqui desenvolve em três pontos: «a identificação com a minha vida; a abertura à realidade; o despertar do desejo».

No espaço dedicado a "Recensões", encontramos expoentes do conto no século XX. Isabel Alves fala-nos da norte-americana Flannery O’Connor, criadora de um mundo fraturado e distorcido onde se revela o mistério do coração humano e se aprende a escutar, no silêncio, a voz do Outro. Com M. do Rosário Lupi Bello entramos no universo tipicamente britânico de Chesterton e do seu inesquecível Padre Brown, onde o acontecimento é justamente a categoria da realidade perante a qual a liberdade humana é desafiada a responder.

Na rubrica "Perspetivas", Adel Sidarus analisa a situação dos cristãos do Médio Oriente neste momento conturbado em que estão a ser perseguidos. Interrogando-se sobre a natureza e as motivações desta “praga”, interpela o Ocidente dito cristão, assinalando o seu alheamento perante este drama.

 

Publicado em 18.05.2015

 

 

 
Imagem S. Marcos (det.) | Guido Reni | 1621 | Universidade Bob Jones, EUA | D.R.
O sentido identitário desta literatura bíblica e a importância narrativa das suas histórias, incluindo as parábolas de Jesus, são elementos de elevada representatividade que José Augusto Ramos salienta, numa busca profunda de sentido e fruição
Em contraste com a linguagem estandardizada presente na poesia contemporânea, avessa a falar de Deus, José Augusto Mourão estabelece um cruzamento entre poesia e liturgia, e releva a experiência ritual litúrgica, entendendo-a como abertura ao transcendente
Num texto «lapidar», encontrado entre manuscritos de Sophia, Maria Andersen de Sousa Tavares fala do significado deste fragmento pois nele estão patentes certos traços que serão constantes na escrita desta Poeta – o espanto, a inquietação e a procura
Por vezes é necessário suster a própria voz para discernir a voz do silêncio, onde ecoa o mistério do outro: os medievais foram mestres nesta escuta, mas a arte de saber ouvir foi cultivada ao longo dos tempos como condição para receber, assimilar e transmitir adequadamente o que palavra – da divina à poética – encerra como revelação
No espaço dedicado a "Recensões", encontramos expoentes do conto no século XX. Isabel Alves fala-nos da norte-americana Flannery O’Connor, criadora de um mundo fraturado e distorcido onde se revela o mistério do coração humano e se aprende a escutar, no silêncio, a voz do Outro. Com M. do Rosário Lupi Bello entramos no universo tipicamente britânico de Chesterton e do seu inesquecível Padre Brown
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