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A Regra de S. Bento e a alimentação: Espiritualidade, gastronomia e cultura ao longo de 1500 anos

Imaginai: após a oração da Hora Intermédia, ou ao anoitecer, depois das Vésperas, ao som da sineta, os monges depõem túnicas e capas no átrio junto ao lavabo. Em absoluto silêncio, dispõem-se ordenadamente atrás do abade, para entrar no refeitório para o almoço ou para o jantar.

De pé diante da mesa, oram juntos; então, cada um senta-se no seu lugar e estendem o guardanapo. Reina o silêncio. Com um toque de sineta, o abade dá o sinal: um monge começa a servir a refeição cuidadosamente preparada na cozinha; o encarregado da semana lê em alta voz um trecho da Bíblia e outros textos edificantes, enquanto que todos começam a comer.

Esta cerimónia de acesso ao refeitório e à refeição repete-se há séculos nas grandes abadias beneditinas, como nos pequenos mosteiros, segundo as normas estabelecidas por S. Bento na sua “Regra”. Composta após 529 para a nascente comunidade monástica de Monte Cassino, ela contém as normas que governam todos os aspetos da vida espiritual e material do monge e de toda a comunidade para chegar à perfeita união com Deus.

Na “Regra”, composta por 73 capítulos precedidos por um prólogo, S. Bento define os valores essenciais da vida monástica: o códice litúrgico, a discrição e a moderação, o papel da comunidade e do abade, a importância do trabalho, a compaixão e a compreensão pelas fragilidades humanas, o sentido da ordem e da disciplina, a harmonia entre lei e liberdade, entre singular e comunidade.



Reservado a um dos momentos privilegiados da vida comunitária, o refeitório é considerado um espaço sagrado no interior do mosteiro, a par da igreja, do oratório e da sala capitular. Por isso, nos mosteiros monumentais é muitas vezes uma autêntica obra de arte arquitetónica



Por causa do equilíbrio que caracteriza os preceitos de S. Bento, a sua “Regra” teve um impacto considerável na nossa história e na nossa cultura, como podemos ver ainda hoje. Os beneditinos foram, com efeito, os artífices das grandes obras de recuperação e de urbanização que no tempo plasmaram de maneira característica a nossa paisagem; nas suas bibliotecas guardaram as grandes obras da cultura clássica e garantiram-lhes a transmissão; enriqueceram as suas igrejas e os mosteiros de obras de arte que ainda hoje admiramos como parte essencial do nosso património cultural.

Os capítulos centrais da “Regra” do 38 ao 41, são consagrados à alimentação dos monges e às normas alimentares que devem ser escrupulosamente seguidas por toda a comunidade: a leitura no refeitório e o silêncio à mesa, a medida da comida e da bebida, os horários das refeições, os dias de jejum e abstinência. (…)

Desde as origens, no interior do mosteiro, o ato de alimentar-se realiza-se segundo gestos e comportamentos bem definidos, repetidos segundo uma ordem pré-estabelecida, e que, por isso, constituem um verdadeiro rito.

O acesso à mesa insere-se assim naquele movimento contínuo e circular, próprio da vida monástica, que o cardeal Ildefonso Schuster (1880-1954), monge e abade de S. Paulo Fora de Muros, e depois arcebispo de Milão, define como “processionar”: do dormitório ao coro da igreja, daqui à sala do capítulo, e depois ao refeitório “sive prandium sive coena”, isto é, para o almoço ou o jantar.



Se a alimentação é essencial à própria sobrevivência do homem, o nutrir-se não deve ser causa de excessos e de comportamentos extravagantes, que comprometem o equilíbrio quer físico quer espiritual do monge, obstaculizando-lhe a aspiração a elevar-se para além da materialidade das coisas



Trata-se de um movimento comunitário, que envolve o abade e todos os monges, até ao último dos irmãos, segundo a sucessão das horas do dia. Na vida monástica, a refeição é sempre uma ação comunitária que faz parte da experiência contemplativa do monge. A ritualidade com que decorre, progressivamente fixada nos séculos, torna-a um verdadeiro ato litúrgico que evoca a aproximação do fiel à mesa eucarística.

No refeitório, depois da oração inicial, a distribuição dos alimentos ocorre ao sinal do abade; no mesmo momento, o “lector hebdomadarius” inicia a leitura em alta voz, enquanto que os monges escutam no mais absoluto silêncio. À mesa leem-se alguns versículos da Bíblia, seguidos de excertos de obras espirituais, históricas e edificantes, de modo que enquanto se alimenta o corpo, se possa também nutrir o espírito.

Graças à leitura e à escuta diária, eu próprio pude conhecer as vidas dos santos e as monumentais obras históricas da Igreja, das quais se chegava a ler anualmente cerca de dois volumes.

Reservado a um dos momentos privilegiados da vida comunitária, o refeitório é considerado um espaço sagrado no interior do mosteiro, a par da igreja, do oratório e da sala capitular. Por isso, nos mosteiros monumentais é muitas vezes uma autêntica obra de arte arquitetónica, como na abadia de Monte Cassino, ou na cisterciense de Casamari, ou em Praglia, onde entre os muitos motos entalhados nos bancos de madeira, se lê ambém “Sero venientibus ossa”, ou seja, “Aos retardatários só os ossos”, ou “Ne quid nimis”, isto é, “Nada mais do que o necessário”.



Para a bebida, S. Bento exorta o monge a um uso moderado do vinho, desde sempre alimento característico da dieta mediterrânica. Apesar de ser um energizante cujo uso pode revigorar do cansaço e do calor, o vinho pode facilmente conduzir à ebriedade; por esse motivo, S. Bento sugere uma quantidade diária razoável, uma “emina”, ou seja, cerca de um quarto de litro



A justa medida e a discrição são o princípio ao qual deve constantemente inspirar-se o monge na alimentação, como em todo o aspeto da vida monástica. Se, efetivamente, a alimentação é essencial à própria sobrevivência do homem, o nutrir-se não deve ser causa de excessos e de comportamentos extravagantes, que comprometem o equilíbrio quer físico quer espiritual do monge, obstaculizando-lhe a aspiração a elevar-se para além da materialidade das coisas.

Na “Regra”, a discrição é indicada com o termo de “mensura”, que, nas suas várias declinações, é usado 15 vezes, e no capítulo XVIII S. Bento recomenda: “Omnia tamen mensurate fiant”, isto é, tudo se faça com discrição. E isto não só à mesa, mas em cada ato individual e comunitário da vida monástica.

Na organização da comunidade, a justa medida é, com efeito, o critério que superintende à distribuição dos tempos de oração durante o dia e ao longo da semana, à alternância do trabalho e do repouso, do estúdio e da recriação.

Animado por grande espírito prático, S. Bento não omite a prescrição inclusive de normas práticas da organização da refeição, fornecendo indicações sobre tipos de comida que se adequam ao monge, e, sobretudo, sobre a quantidade da comida e da bebida.



Dentro das cozinhas monásticas foram também elaborados os primeiros remédios curativos à base de ervas e elementos naturais: pomadas, bálsamos, unguentos, cremes e destilados, que ainda hoje são produzidos artesanalmente



Recomenda, por exemplo, que se coma uma vez por dia no inverno e duas vezes no verão, quando o calor e os trabalhos cansativos do campo requerem maior empenho físico; prescreve a limitação do uso da carne, reservada sobretudo aos doentes; concede que se coma até uma libra de pão por dia – cerca de 700 gramas –, distribuindo-o entre o almoço e o jantar.

A dieta do monge era completada pela “pulmentaria cocta”, espécie de sopa rústica de grão, cevada, espelta ou pão, acompanhada por carne, peixe, queijo ou legumes: um prato completo com hidratos de carbono, proteínas e fibras.

Para a bebida, S. Bento exorta o monge a um uso moderado do vinho, desde sempre alimento característico da dieta mediterrânica. Apesar de ser um energizante cujo uso pode revigorar do cansaço e do calor, o vinho pode facilmente conduzir à ebriedade; por esse motivo, S. Bento sugere uma quantidade diária razoável, uma “emina”, ou seja, cerca de um quarto de litro. (…)

O monaquismo beneditino deu grande contribuição no âmbito alimentar à cultura ocidental, influenciando ao longo dos séculos as tradições e os hábitos que ainda hoje se seguem à mesa. Alguns dos produtos que são símbolo da tradição gastronómica foram originariamente elaborados nas cozinhas monásticas. Por exemplo, o antecessor do queijo parmesão “regiano” é mencionado pela primeira vez num documento de 1159 da abadia de Santa Maria de Marola, em Itália.



Mel, biscoitos, confeitos, licores, destilados, cerveja, queijos e outros produtos são ainda hoje realizados artesanalmente, e muitas vezes vendidos aos visitantes. Próximo das cozinhas, frequentemente de dimensões monumentais, eram construídos locais específicos para a conservação dos alimentos



Foram, efetivamente, os beneditinos que introduziam na planície padana, no norte de Itália, em larga escala, rebanhos ovinos e bovinos, que abriram caminho à florescente indústria do lacticínio que ainda hoje constitui uma das atividades produtivas mais importantes do território, além de orgulho gastronómico da cozinha italiana a nível internacional.

Já os cistercienses de Santa Maria de Lucedio contribuíram para a difusão do cultivo do arroz, organizando a atividade agrícola em redor de centros produtivos dependentes da abadia, que constituem os precursores das modernas explorações agrícolas.

Noutros países, deve-se aos monges a elaboração de produtos enogastronómicos, que continuam a enriquecer a nossa mesa. A cerveja realizada com o acrescento de lúpulo, como hoje a conhecemos, teria sido elaborada nas adegas monásticas, como nos recorda a célebre abadessa Hildegarda de Bingen, proclamada doutora da Igreja em 2012 por Bento XVI.

A produção de cerveja e de queijos constitui ainda hoje uma das principais atividades artesanais de numerosas abadias na Bélgica, na França setentrional e na Alemanha, como em Maredsous, Orval, Westmalle e Andechs. Desde há alguns anos, a cerveja é produzida também em algumas abadias italianas. É célebre, por exemplo, a aromatizada com eucalipto pelos trapistas de Tre Fontana, em Roma.



Junto às faturas, são representadas fábricas monásticas reestruturadas pelos monges. De grande interesse são os desenhos da peixaria, onde era conservado o peixe vivo para os dias de abstinência, a cantina com os grandes barris, e a neveira, na qual se armazenava a neve para conservar os alimentos perecíveis



Também a produção de mel tem uma longa tradição no interior das paredes monásticas, desde os primeiros séculos da era cristã, quando a Igreja impõe a obrigação de empregar a puríssima cera de abelha para as velas do altar.

As atividades agrícolas e as transformações dos produtos alimentar dentro dos mosteiros são representadas com grande vivacidade em algumas miniaturas medievais célebres, como as do manuscrito do “Comentário ao livro de Job”, de S. Gregório Magno, realizado na célebre abadia de Cister cerca do ano 1100.

O volume é ornado por uma série de iniciais decoradas com cenas típicas da vida campesina: um monge abate uma grande árvore, ajudado por um confrade que surge entre os ramos, um monge com uma túnica remendada corta a colheita, outro bate os feixes de trigo, enquanto que outro corta a madeira para a lareira, e o monge vinhateiro recolhe os cachos maduros.

Dentro das cozinhas monásticas foram também elaborados os primeiros remédios curativos à base de ervas e elementos naturais: pomadas, bálsamos, unguentos, cremes e destilados, que ainda hoje são produzidos artesanalmente.



Em Santa Maria do Monte, em Cesena, os monges evocam a comemoração dos defuntos quando, na noite da vigília, a 1 de novembro, se preparavam as “almas purgantes”, ou seja, castanhas assadas salpicadas de boa aguardente “grappa” flambeada



Para o trabalho das ervas medicinais, cultivas no horto do mosteiro, que tomará o nome de “Jardim dos simples”, foram realizados almofarizes, mós, balanças e alambiques. No seu antigo boticário, as religiosas camaldulenses de Pratovecchio, em Itália, ainda conservam um monumental alambique de pedra, do século XII, dotado de 22 bocas.

Mel, biscoitos, confeitos, licores, destilados, cerveja, queijos e outros produtos são ainda hoje realizados artesanalmente, e muitas vezes vendidos aos visitantes. Próximo das cozinhas, frequentemente de dimensões monumentais, eram construídos locais específicos para a conservação dos alimentos.

No arquivo histórico de S. Pedro, em Perugia, conserva-se um pequeno e belíssimo registo seiscentista onde, junto às faturas, são representadas fábricas monásticas reestruturadas pelos monges. De grande interesse são os desenhos da peixaria, onde era conservado o peixe vivo para os dias de abstinência, a cantina com os grandes barris, e a neveira, na qual se armazenava a neve para conservar os alimentos perecíveis. (…)

As beneditinas de Santa Maria de Rosano, que ainda hoje celebram a Liturgia das Horas em latim e em esplêndidas melodias gregorianas, produzem refinados paramentos e preciosos adornos para as igrejas, e, no seu moderno laboratório, restauram manuscritos e livros antigos. Mas sabemos também que na cozinha preparam doces especiais e marmeladas com frutos da horta.



A grande sabedoria e o equilíbrio estão na base da “Regra” de S. Bento, que, apesar de ter sido escrita há mais de quinze séculos, é ainda de grande atualidade para nós, homens do século XXI



Em Santa Maria do Monte, em Cesena, os monges evocam a comemoração dos defuntos quando, na noite da vigília, a 1 de novembro, se preparavam as “almas purgantes”, ou seja, castanhas assadas salpicadas de boa aguardente “grappa” flambeada, que, misturada com os desperdícios de cobre, libertavam coloridos clarões de luz na escuridão do refeitório. O mesmo refeitório onde foi acolhido João Paulo II, em maio de 1986, para comer bom peixe com toda a comunidade monástica.

No mosteiro, o alimento é sempre momento de partilha profunda com os confrades (…). À mesa, exprime-se a tolerância com todos, mesmo aqueles que seguem um regime alimentar diferente do nosso, como sugere o fresco quinhentista do “Sonho de S. Pedro”, na sacristia de S. Pedro, em Perugia: S. Pedro, em sonho, vê todos os animais, dos quais pode livremente alimentar-se, porque tudo aquilo que Deus criou é bom, desde que se consuma com moderção e no respeito pela criação.

A obra “Monaci a távola. La Regola di san Benedetto e le consuetudini alimentari” (Monges à mesa. A Regra de S. Bento e os hábitos alimentares), de Nadia Togni (editora Tau), fala-nos de uma mesa simples e sóbria, onde se come de modo saudável e equilibrado, sem excessos e sem desperdícios, com respeito e reconhecimento por quem produziu os alimentos e por quem amorosamente os preparou e cozinhou, para os partilhar com os confrades, ao tempo de S. Bento como nas comunidades monásticas de hoje.

Deste livro emerge a grande sabedoria e o equilíbrio que estão na base da “Regra” de S. Bento, que, apesar de ter sido escrita há mais de quinze séculos, é ainda de grande atualidade para nós, homens do século XXI.


 

Giustino Farnedi
Abade da Ordem de S. Bento
In L'Osservatore Romano
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 10.07.2019

 

 
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