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Realizador de “O exorcista” revela que fez o filme «enquanto crente» e para «difundir o Evangelho»

«Simplesmente direi que tenho esta fé, e é por isso que fiz o filme. Fiz o filme, como Blatty escreveu o romance, para difundir o Evangelho», revela William Friedkin, realizador do filme “O exorcista” (1973), em entrevista ao jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, conduzida pelo seu diretor, na qual afirma que dirigiu a película «enquanto crente».

Nesta conversa, o cineasta fala do ambiente no estúdio durante as gravações, dos filmes que dirigiu a seguir, sempre em torno do mal e do bem, e dos seus encontros com o P. Gabriele Amorth, famoso exorcista, pouco tempo antes da sua morte.

 

No início dos anos 70, decides rodar um filme extraído do romance de William Peter Blatty “O exorcista”…

Foi o próprio Blatty que me deu o seu romance. Tinha-o conhecido [ao escritor] a fundo recentemente, mas confiou em mim, ainda que eu fosse muito jovem, mais novo do que ele. Sabia que eu tinha uma experiência de documentários, e queria que a história fosse filmada de maneira o mais realista possível. E eu também. Não queríamos fazer um filme de terror que suscitasse medo, ou um filme de fantasia. Nesse tempo, como também hoje, o público sabia muito pouco sobre o exorcismo. Há com certeza muito sensacionalismo sobre esses temas, e de um certo ponto de vista o meu filme contribuiu para isso, não há dúvida, porque as pessoas consideraram-no um filme de terror. Mas eu fiz este filme como crente, enquanto crente.

 

Além do romance original, houve alguns filmes que, por causa da sua dimensão espiritual, te inspiraram na realização de “O exorcista”?

Vários filmes, mas em particular “Ordet”, de Carl Theodor Dreyer, um filme poderosíssimo, de grande intensidade espiritual, capaz de tornar presente, de representar de maneira forte e credível uma ressurreição. Dreyer aborda o tema do milagre de um modo muito direto, mostrando exatamente a ressurreição da protagonista sem nenhum truque; foi isso que quis fazer sobre o tema do exorcismo. Pensei muito nesse filme enquanto rodava o meu, queria também eu representar a dimensão sobrenatural da mesma maneira direta, com a mesma intensidade. Talvez aquele seja o melhor filme espiritual de todos os tempos.

 

Podes explicar em que sentido realizaste “O exorcista” enquanto crente?

Movi-me no âmbito da possibilidade; sem conhecer os detalhes, acreditei na possibilidade da possessão demoníaca e na possibilidade real do exorcismo. O romance baseava-se num caso da atualidade, acontecido a um rapaz de 14 anos do estado de Maryland. Fui falar com a tia do rapaz, testemunha ocular dos factos, que me contou, nos detalhes, o que tinha ocorrido. Escolhemos uma jovem para o filme porque a diocese pediu-o, para tirar a pressão sobre a família do jovem; por isso rodámos o filme como ficção, não como documentário, mas muitos detalhes são verdadeiros, tal como aconteceram. Para a sequência do exorcismo tive como consultor John Nicola, um sacerdote da igreja da Imaculada Conceição, perito em exorcismos, que me ajudou para o rito, de maneira a que as palavras e os gestos executados pelos sacerdotes fossem os certos. Repito: realizei este filme como crente.

 

Donde provinha a tua fé? Da tua educação familiar?

Cresci numa família judaica. Cheguei ao “bar mitzvah” [celebração que assinala a maturidade]. Para ser sincero, nunca me senti próximo da ritualidade e da minha fé de origem, como ao contrário aconteceu com a fé católica. Faço notar que Jesus era judeu, nasceu, viveu e morreu como judeu, não era católica. Senti-me, e ainda me sinto, próximo dos ensinamentos de Jesus e acredito neles. Acreditava nos ensinamentos de Jesus quando rodei o filme e ainda hoje. É o milagre da fé. Como todos aqueles que acreditam, não posso dar provas certas. Só tenho a minha fé.

 

E hoje, como te consideras, judeu ou cristão?

Não tenho nada contra nenhuma fé, na verdade. Pessoalmente, creio nos ensinamentos de Jesus mais do que em qualquer outra coisa. E ouvi muitas coisas que vão contra os ensinamentos de Jesus. Por exemplo, agradam-me muito os escritos de Christopher Hitchens. Agora está morto, mas foi um importante escritor contra o cristianismo. E os seus documentos são muito convincentes. Foi o advogado do diabo contra a santidade de Madre Teresa. Penso que foi um excelente escritor, mas mais não fez do que reforçar a minha fé.

Simplesmente direi que tenho esta fé e é por isso que fiz o filme. Fiz o filme, como Blatty escreveu o romance, para difundir o Evangelho. Se se olhar com atenção para o filme, dá-se conta de que mais do que a jovem, o verdadeiro protagonista do filme é o sacerdote católico. Ele perde a sua fé através de vários acontecimentos que ocorrem na sua vida: a morte da mãe, o facto de ele não ter estado quando ela precisava dele, e sente-se culpado e perde a sua fé. É ele o objetivo do demónio, não a jovem. O jovem sacerdote que no filme contra a um sacerdote mais idoso que está a perder a fé, é ele o alvo do diabo. A fragilidade que ele mostra é o que impele o demónio a tê-lo na mira. E assim, aquilo a que assiste e vive com aquela jovem, é dirigido a ele. Porque o demónio mostra-lhe que o homem não é bom para nada. Mesmo uma criança inocente tem o mal dentro de si.

 

Como foi o ambiente durante as gravações, no estúdio?

Procurei manter o ambiente muito leve, fazer com que ninguém pudesse ficar realmente impressionado. Intimamente, muitas pessoas ficaram perturbadas com o filme, porque era muito difícil ver uma menina de doze anos passar por aquilo que tinha que passar. Mas confiaram em mim. No elenco estavam dois jesuítas verdadeiros no papel de sacerdotes. E foram também consultores técnicos. E periodicamente abençoavam o “set”.

Recordo que o autor do livro e eu, juntamente com dos sacerdotes, íamos a uma casa minha em Nova Iorque e o sacerdote celebrava a missa com os três. Às vezes não tinha vinho em casa, tinha suco de mirtilo vermelho; e então usava-o, e um pedaço de “bagel”. E celebrava a missa para nós os três, e era muito emocionante, poderoso.

Depois fiz de maneira a que o sacerdote, o protagonista do filme, celebrasse missa como se acreditasse em cada palavra pronunciada, não como muitas vezes se vê na igreja, com a missa celebrada muito depressa, ao contrário, fiz com que o padre no filme celebrasse a missa muito lentamente, com fé grande e profunda nas palavras. Porque eu acredito naquelas palavras: «Tomai, porque este é o meu corpo, este é o meu sangue, o sangue de graça eterna, o mistério da fé…»; e tudo isso era dito de modo lento e credível, diretamente para a câmara.

 

Imaginaste, antes de rodar “O exorcista”, que poderias ter todo o sucesso que depois obtiveste?

Não, não. Essas coisas não se sabem antes. Não o sabia. Pensei que seria possível que muitos se rissem ou pusessem o filme a ridículo. Não tinha ideia. E naquele tempo, o que aconteceu é que mais pessoas voltaram à igreja, ou como crentes ou até se fizeram sacerdotes durante o período – e foi um período muito longo – em que “O exorcista” foi projetado nos cinemas de todo o mundo. Hoje ainda é projetado, todos os anos continua a ser visto por não sei quantas centenas ou milhares ou milhões de pessoas. Provavelmente, em termos de público, é um dos filmes populares mais exibidos.

 

“O exorcista” mostra o rosto do Mal absoluto. Os filmes que realizaste depois giram sempre em torno do mistério do mal, não como mal absoluto, mas sempre sobre o mal, esse mal que se encontra na história quotidiana de homens e mulheres; é assim?

Sim, acredito que o bem e o mal estão em cada um de nós. Acredito que esteja em ti e em mim, e em cada pessoa que eu conheça, mesmo aquelas que considero corajosas. Acredito que haja uma luta constante dos nossos anjos melhores para sobreviver e prosperar. Acredito que haja uma luta constante, deve-se lutar. Algumas pessoas não têm que lutar tanto, mas maior parte das pessoas do mundo deve combater para que o lado escuro não emerja, não se manifeste. E é disso que falam todos os meus filmes.

 

Mais de 40 anos após “O exorcista” rodaste um documentário com o P. Gabriele Amorth, o famoso exorcista; que memórias tens dessa experiência?

Foi um dom de Deus. Não pensava conseguir, porque sabia como estava ocupado, e em vez disso, graças a um amigo romano, tive essa oportunidade. Penso que o P. Amorth é a pessoa mais espiritual que alguma vez encontrei. Uma espiritualidade transbordante que se percebia na sua presença. Não queria entrevistá-lo, só encontrá-lo. Sabia que tinha visto “O exorcista” e ele confirmou-o dizendo-me que tinha escrito uma página sobre o filme no seu primeiro livro, “Um exorcista conta-nos”, afirmando que era um filme que ajudava as pessoas a compreender o seu trabalho; talvez os efeitos especiais fossem um pouco exagerados, mas ajudava as pessoas a conhecer melhor a realidade do exorcismo. Depois deste primeiro encontro de um par de horas, voltei a Los Angeles e na festa dos “Academy Awards” encontrei Graydon Carter, o editor da “Vanity Fair”, a quem contei o encontro com Amorth. Ele entusiasmou-se e propôs-me entrevistá-lo para a revista. Por isso voltei a Roma com um gravador minúsculo, entrevistei-o e ele foi generosíssimo.

 

De que falaram?

De muitas coisas, do diabo, obviamente, mas também de questões teológicas. A minha primeira pergunta, por exemplo, foi sobre Judas. Porque é que é tão odiado na Igreja e pelas pessoas, perguntei. De facto, é graças a Judas que se cumpriu o projeto de Deus, se não fosse Judas, teria sido qualquer outro. O P. Amorth disse-me «é verdade, mas não era uma pessoa corajosa. Era um ladrão e fez muitas outras coisas que não eram exatamente boas. E por essa razão é condenado»; não fiquei e não estou totalmente convencido. A entrevista foi muito bela e muito longa, mais de 65 mil espaços, a mais longa alguma vez publicada pela “Vanity Fair”, mais do que qualquer artigo de Christopher Hitchens, e Graydon Carter era um grande apoiante de Christopher Hitchens! O P. Amorth foi tão afável, que quase no fim saiu-me esta pergunta tola: «Seria possível para mim assistir a um exorcismo?», pergunta estúpida e ridícula, porque não se trata de um espetáculo, mas de uma questão muito privada entre a Igreja e as pessoas que se sentem aflitas, e que a Igreja trata, justamente, com muita discrição. Mas ele, gentilmente, respondeu-me dizendo-me que iria pensar. Alguns dias depois fez-me saber que mo permitiria, meses depois – estávamos em 2016 – assistir a um exorcismo.

 

[William Friedkin fala, emocionado, feliz por ter tido aquela possibilidade, até porque o P. Amorth morreu durante a realização do documentário “The Devil and Father Amorth”, de 2017, mas não quer demorar-se sobre a experiência do exorcismo a que assistiu; detém-se, todavia, em alguns detalhes, e sobretudo na pessoa do sacerdote paulino.]

 

Fiquei sensibilizado não só pela gentileza, mas também pelo sentido de humor do P. Amorth. Um tipo verdadeiramente divertido, leve, dotado de grande sentido de humor. Conseguia assim aligeirar o medo, porque tenho de admitir que quando me encontrei naquele quarto, sentado tão perto do P. Amorth e da mulher possuída – usando uma câmara minúscula, uma pequena câmara de alta definição (não me foi permitido levar operadores, por isso filmei eu próprio) – estava muito assustado, absolutamente aterrorizado. Ora, a um certo ponto, antes de iniciar o exorcismo, o P. Amorth fez um gesto com as mãos e com a língua, como dizer “nhanhanhá!”? Fez assim para tirar toda a tensão do quarto. E conseguiu, desdramatizou o momento. Explicou-me muitas coisas e esclareceu muito daquilo que eu acredotava em relação à natureza da possessão e do exorcismo, dizendo-me que o demónio não é físico, não é carne e sangue; o demónio é espírito. Por isso, apesar de ter falado e conversado com o demónio muitas vezes, nunca o tinha visto. Esta é a natureza e também a fraqueza do diabo.


 

Andrea Monda
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 10.04.2019

 

 
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