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Queremos ser uma Igreja que sabe dizer «estou aqui»: Papa Francisco na via-sacra com os jovens

Senhor, Pai de misericórdia, nesta Cintura Costeira, junto de um grande número de jovens vindos do mundo inteiro, acompanhámos o teu Filho no caminho da cruz; esse caminho que Ele quis percorrer para nos mostrar o quanto Tu nos amas e a que ponto estás comprometido pelas nossas vidas.

O caminho de Jesus para o Calvário é um caminho de sofrimento e de solidão que continua nos nossos dias. Ele caminha e sofre em muitos rostos que sofrem da indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade, que consome e se consuma, que ignora e negligencia a dor dos seus irmãos.

Nós também, teus amigos, Senhor, nos deixamos prender pela indiferença e pelo imobilismo. Não faltam as vezes onde o conformismo nos ganhou e paralisou. Foi difícil reconhecer-te no irmão sofredor: virámos a cara para não o ver; encontrámos refúgio no ruído, para não o ouvir; calámos a boca, para não chorar.

Sempre a mesma tentação. É fácil e “compensa” ser amigos nas vitórias e na glória, no sucesso e sob os aplausos; é mais fácil ser próximo daquele que é considerado como popular e vencedor.

Como é fácil cair na cultura do “bullying”, do assédio e da intimidação. Para ti não é assim, Senhor, Tu quiseste abraçar todos aqueles que nós muitas vezes consideramos que não são dignos de um abraço, de uma carícia, de uma bênção; ou, ainda mais grave, aqueles que nós não percebemos que passam necessidade.

Para ti não é assim, Senhor, na cruz Tu acompanhas o caminho da cruz de cada jovem, de cada situação, para a transformar em caminho de ressurreição.

Pai, hoje o caminho da cruz do teu Filho prolonga-se no grito abafado das crianças que são impedidas de nascer, de muitas outras que veem recusar-lhes o direito de ter uma infância, uma família, uma educação; naqueles que não podem brincar, cantar, sonhar… nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e negadas da sua dignidade; nos olhos tristes dos jovens que veem as suas esperanças de futuro confiscadas pela falta de educação e de trabalho digno; na angústia dos rostos dos jovens, nossos amigos que caem nas redes de pessoas sem escrúpulos – e entras eles encontram-se igualmente pessoas que dizem servir-te, Senhor –, redes de exploração, de criminalidade e de abuso, que se alimentam das suas vidas.

O caminho de cruz do teu Filho prolonga-se nos numerosos jovens e numerosas famílias que, engolidas por uma espiral de morte por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico, são privados não somente de futuro, mas também de presente. E como foram partilhadas as tuas vestes, Senhor [antes da crucificação], a sua dignidade é espartilhada e maltratada.

O caminho de cruz do teu Filho prolonga-se nos jovens de rostos franzidos que perderam a capacidade de sonhar, de criar e de inventar os amanhãs, e que “se reformam” com o tédio da resignação e do conformismo, uma das drogas mais consumidas do nosso tempo.

O caminho de cruz prolonga-se no sofrimento oculto e revoltante daqueles que, em vez da solidariedade da parte de uma sociedade da abundância, encontram a rejeição, a dor e a miséria, e além disso são identificados e tratados como os portadores e responsáveis por todo o mal social.

O caminho de cruz prolonga-se na solidão resignada das pessoas idosas, abandonadas e rejeitadas.

Prolonga-se nos povos autóctones que são privados das suas terras, das suas raízes e da sua cultura, reduzindo ao silêncio e extinguindo toda a sabedoria que eles poderiam trazer.

O caminho de cruz do teu Filho prolonga-se no grito da nossa mãe, a terra, ferida nas suas entranhas pela poluição do seu céu, pela esterilidade dos seus campos, pela insalubridade das suas águas, e que se vê ofendida pela indiferença e pelo consumo desenfreado que ultrapassa toda a razão.

Prolonga-se numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e de comover face ao sofrimento.

Sim, Pai, Jesus continua a caminhar, levando todos estes rostos e sofrendo neles, enquanto que o mundo, indiferente, consome o drama da sua frivolidade.

E nós, Senhor, que fazemos? Como reagimos diante de Jesus que sofre, que caminha, que emigra no rosto de muitos dos nossos amigos, de muitos estrangeiros que aprendemos a tornar invisíveis.

E nós, Pai de misericórdia, consolamos e acompanhamos o Senhor, abandonado e sofredor, nos mais pequenos e mais abandonados?

Ajudamo-los a carregar o peso da cruz, como o cireneu, sendo protagonistas de paz, criadores de alianças, fermentos de fraternidade.

Permanecemos nós ao pé da cruz, como Maria?

Contemplemos Maria, mulher forte. Dela queremos aprender a ficar junto à cruz. Com a mesma determinação e a mesma coragem, sem subterfúgios e sem ilusões.

Ela soube acompanhar o sofrimento do seu Filho, teu Filho; apoiá-lo no olhar e protegê-lo com o coração. Dor que sofreu, mas que não a fez baixar os braços.

Ela foi a mulher forte do “sim”; que apoia e acompanha, protege e toma nos seus braços. Ela é a grande guardiã da esperança.

Nós também queremos ser uma Igreja que apoia e que acompanha, que sabe dizer «estou aqui!» na vida e nas cruzes de tantos Cristos que caminham ao nosso lado.

De Maria aprendemos a dizer “sim” à paciência resiliente e constante de tantas mães, pais, avós que não param de apoiar e acompanhar os seus filhos e os seus netos quando “eles não estão a ir no bom caminho”.

Dela aprendemos a dizer “sim” à paciência obstinada e à criatividade daqueles que estão debilitados e que recomeçam em situações em que parece que tudo está perdido, procurando criar espaços, lares, centros de atenção que sejam uma mão estendida na dificuldade.

Em Maria aprendemos a força de dizer “sim” àqueles que não se calaram e que não se calam face a uma cultura do maltrato e do abuso, da denegrição e da agressão, e que trabalham para abrir possibilidades e condições de segurança e de proteção.

Em Maria aprendemos a receber e a acolher todos aqueles que sofreram o abandono, que tiveram de deixar ou perder a sua terra, as suas raízes, as suas famílias e o seu trabalho.

Como Maria, queremos ser a Igreja que favorece uma cultura que sabe acolher, proteger, promover e integrar; que não estigmatiza e, sobretudo, que não generaliza, pela condenação mais absurda e mais irresponsável, ao identificar todo o migrante como portador de mal social.

Dela queremos aprender a permanecer junto à cruz, não para ter um coração blindado e fechado, mas com um coração que sabe acompanhar, que conhece a ternura e a entrega; que compreende o que é a misericórdia abordando-a com reverência, delicadeza e compreensão. Queremos ser uma Igreja da memória que respeita e valoriza os idosos e que defende o seu lugar.

Como Maria, queremos aprender a “estar lá”.

Ensina-nos, Senhor, a estar presente ao pé da cruz, ao pé das cruzes: desperta esta noite os nossos olhos, o nosso coração; salva-nos da paralisia e da confusão, do medo e do desespero. Ensina-nos a dizer: aqui eu estou com o teu Filho, com Maria e com tantos discípulos amados que querem acolher o teu Reino no seu coração.








 

Papa Francisco
Via-sacra com os jovens | Cidade do Panamá, 25.1.2019
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Vatican News | D.R.
Publicado em 26.01.2019

 

 
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